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Lu de Pádua: a alegria e amor ao próximo como missão de vida

Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 17-06-2017 10:06 | 3387
A psicóloga Lu de Pádua, que hoje atende na APAE de São Sebastião do Paraíso,  foi responsável pela implantação do CRAS no município
A psicóloga Lu de Pádua, que hoje atende na APAE de São Sebastião do Paraíso, foi responsável pela implantação do CRAS no município Foto de João Oliveira/Jornal do Sudoeste

A psicóloga Lucilaine de Pádua – “Lu” como é carinhosamente chamada – , tem uma presença que é marcada pelo riso e é sempre lembrada por onde passa pela alegria contagiante. Ela não nega que é durona quando precisa, mas um coração que não cabe dentro de si e doa esse amor a todos que precisam. Aos 42 anos, foi responsável pela idealização e implantação de um dos projetos mais importantes de Paraíso: a criação do Centro de Referência da Assistência Social (CRAS). Filha de Nelson da Costa Pádua e Elza Guerra Pádua, Lú nasceu no Distrito da Guardinha, onde foi criada juntos com os quatro irmãos: Lucimeire, Luciene, Nilson e José. Conforme diz, sua missão na vida é dar as mãos e caminhar junto daqueles que precisam de um apoio.




Jornal do Sudoeste: Como foi sua infância na Guardinha?
Lu de Pádua: Minha infância foi a melhor possível, sinto saudades e a infância é a base da gente. Lembro-me dos batizados de bonecas, de brincar de pique na grama em frente à Igreja, andar na chuva e brincar na terra. Lembro também de nadar no rio, das festas no barracão da Igreja e das gincanas na escola. Foi bom tanto quanto o aprendizado, porque o que eu tive de base educacional é o que eu tenho até hoje. A escola Francisco Daniel sempre foi muito boa e eu tive ótimos professores e amigos, que são meus amigos até hoje. Eu ainda frequento a Guardinha, tenho família lá e já trabalhei algum tempo. Faz parte da minha vida e sinto saudade sempre.




Jornal do Sudoeste: Você era boa aluna?
Lu de Pádua: Eu era boa aluna e tive minha fase bagunceira também. Era uma bagunça saudável, minha mãe nunca foi chamada na escola, mas sempre participei de centros cívicos e estive envolvida com as causas, não só na época de colegial, mas também na faculdade. Eu sempre gostei muito de movimento. Na Guardinha eu era atriz, fazia teatro, dança e sempre gostei de música. Sempre que tinha alguma coisa eu estava ali no meio e isso até hoje, gosto muito de música e isso é fundamental da vida de todo mundo.




Jornal do Sudoeste: Quando você deixou o Distrito?
Lu de Pádua: Eu deixei a Guardinha quando eu tinha 11 anos para vir morar em Paraíso, porque eu precisava estudar. Chorei muito porque eu não queria deixar meus amigos, mas eu voltava sempre porque meu pai tinha sítio lá, então estava sempre visitando o Distrito e fui parando aos poucos. Estudei no Paraisense e depois disso no Ditão; após, prestei Serviço Social na Unesp e Psicologia na Unifran; a psicologia era minha paixão desde os 12 anos porque eu assisti uma entrevista na TV sobre e tinha decidido que seria psicóloga. Eu tinha feito dois anos de magistério no Ditão, onde conheci a Ínes Garcia, que foi a minha primeira professora de psicologia e foi neste momento que eu tive certeza que era isso que eu queria.




Jornal do Sudoeste: Foi uma decisão difícil escolher entre os dois cursos?
Lu de Pádua: Sim. Mas acabei optando por psicologia e minha mãe teve um papel fundamental nessa escolha. Eu me lembro dela dizer para eu escolher o que eu queria trabalhar, então decidi pela psicologia. Estudei na Unifran e cheguei a morar em Franca seis anos, porque a faculdade era período integral.




Jornal do Sudoeste: Depois de formada, onde foi seu primeiro emprego?
Lu de Pádua: Depois de formada, meu primeiro emprego foi em Brodowski, onde eu fui convidada a apresentar um trabalho para um projeto que chama se Amanhecer e existe até hoje. Na época era coordenado pela Prefeitura e Promotoria, que promovia esse trabalho com menores infratores. Eu fui já para coordenar esse projeto. Foi um desafio muito grande, eu mais aprendi com eles que eles comigo. Na época eu morava em Franca, e ia para Brodowski realizar esse trabalho, foram apenas oito meses, mas foi um período onde eu consegui me transformar e transformar a cara do projeto, que não tinha espaço físico entre outros avanços. Eu fui acolhida por aquela cidade.




Jornal do Sudoeste: Tem alguma lembrança que te marcou nessa fase?
Lu de Pádua: A psicologia veio na minha vida em função de eu sempre gostar de pessoas. Eu tive um pai sistemático e rigoroso, que não deixava a gente sair muito. Minha casa era sempre muito cheia de crianças. Eu tinha uma condição socioeconômica que era um pouco diferente, então eu tive patins, bicicleta, tinha piscina na minha casa e eu gostava de deixar as pessoas usarem as  minhas coisas. Eu gostava de compartilhar isso e nosso contato com a escola era muito grande, meu pai, tudo o que tinha de rigoroso, por outro lado gostava de ajudar. Eu acredito que herdei esse doar dos meus pais. Então, quando eu fui pra Brodowski, eu não fiquei assustada. Se você analisa a questão socioeconômica e estrutural familiar, você vê algumas justificativas - não são desculpas - para algumas atitudes.




Jornal do Sudoeste: E como você lidava com esses menores infratores?
Lu de Pádua: Eu já cheguei a ser ameaçada por um menino que me disse que daria um “tiro de doze” em mim e eu não sabia o que era isso e ele me explicava, jogando dama comigo. Essa era uma forma de ele dizer que a vida não estava boa e eu nunca tive medo disso, dessas ameaças, eu não enxergava como uma ameaça, mas como um pedido de socorro. Quando alguém chegava bravo eu já sabia que tinha acontecido alguma coisa ruim. Então, eu aprendi muito, principalmente da importância da família, porque eu sempre tive e eu comparo muito a isso; a família é extremamente importante e sempre temos que ter o olhar para quem não tem uma família, a partir daí você passa a entende muita coisa.




Jornal do Sudoeste: Depois desse período você retornou a Paraíso...
Lu de Pádua: Sim. De Brodowski eu voltei para Paraíso onde tralhei na Prefeitura por 10 anos. Comecei na Educação e depois fui para a assistência social, onde trabalhei nove anos. Eu implantei o CRAS no município. À época eu fui convidada a fazer um processo seletivo para o setor social porque estava sendo lançada no Brasil uma “nova assistência social”, com uma nova legislação que é linda, mas tem que trabalhar para funcionar. Quando eu cheguei para trabalhar eram apenas duas pessoas, eu e mais uma assistente social. Deram esse projeto de presente para nós e eu estudei bastante. O primeiro CRAS foi no bairro Mocoqui-nha, depois o CRAS Guardinha, que foi a menina dos meus olhos, e depois o CRAS Santa Tereza, que foi feito através de parceria, deste eu participei de toda a idealização do espaço físico, junto com o pessoal do obra e da empresa. Foi a minha paixão, o social era e é minha paixão. Tudo o que eu sonhei e quis eu pude oferece para a população, mas não consegui sozinha e valorizo cada pessoa que esteve junto de mim nesse processo. Aprendi muito nesse período.




Jornal do Sudoeste: Você tem alguma recordação que te marcou?
Lu de Pádua: Sim. Recordo-me que tinha uma ‘brinquedoteca’ no CRAS 1 e quando terminou a atividade a brinquedista me perguntou se poderia trazer pizza porque um aluno queria saber o gosto que tinha. Estava perto do dia das crianças e eu disse que não precisaria dela trazer essa pizza porque faríamos um rodízio para todos. Então conseguimos promover uma noite de rodízio de pizzas em Paraíso para 40 crianças e na Guardinha para 70. Essas são histórias que marcam, coisas tão simples pra gente e para criança tem um significado muito grande... Essa foi uma união da equipe e de pessoas que nem eram da equipe e compraram a ideia. São muitas histórias, como na alfabetização de adultos quando um idoso aprende a escrever o nome e chega para te dar um abraço por isso, não há dinheiro que pague... é um sorriso, um olhar de carinho, um abraço, isso dinheiro não paga e é o que faz a vida valer a pena. E eu tenho muito contato com as pessoas que passaram pelo CRAS até hoje. 




Jornal do Sudoeste: Você tem ciência da dimensão do seu trabalho para a vida de uma pessoa?
Lu de Pádua: Quando você se forma, a psicologia passa a ser uma atividade que você executa e não pensa em obter tal resultado. Você sempre tem que dar o seu melhor e eu dou o meu melhor. Eu acordo de bom humor, procuro ir além e às vezes faço coisas fora do meu horário de trabalho para dar esse melhor de mim. Então, se de dez você vê um sucesso, então já está valendo. Eu não posso exigir do outro o que ele não tem condições de oferecer naquele momento, mas eu tenho que fazer ele acreditar que ele pode. Não é somente mudar, é uma mudança ampla de acreditar em si, de conhecer suas habilidades, potencialidades e de se abri para o mundo que existe e que ele faz parte.




Jornal do Sudoeste: Quando você chegou à Apae?
Lu de Pádua: Foi em 2014. Quando eu saí da Prefeitura fui para o Detran, fiquei quase um ano, mas lembro que minha mãe ficou doente então eu sai para cuidar dela. Depois eu fui convidada pelo Ademar Paschoalino para trabalhar na Apae. Para mim foi um desafio... mas é uma paixão a flor da pele e digo que esse trabalho foi um presente. Estar na Apae é muito gratificante e eu aprendo muito, aprendi muito com a equipe, aprendo com as famílias, aprendo com os meninos porque eles se superam a cada dia... Eles têm coragem, são amorosos e vencem os próprios limites. Às vezes as pessoas reclamam muito de coisas tão banais e eu vejo a luta desses meninos, das mães deles... e eles são tão felizes, são muito amorosos e eu sou muito amada, eu sinto isso. A minha saída da Prefeitura, na época eu questionei, mas eu sempre pensei o seguinte: ‘Portas se fecham, janelas se abrem’ e eu sou muito feliz. Para mim, na Apae é aprendizado todo dia, não somente com os meninos que eu conheço a realidade, mas com essas mães-coragem que nós vemos o quanto elas doam de si e o quanto se anulam em função do filho, porque a mãe da criança com deficiência acaba vivenciando a vida do filho e se anulando um pouco, e isso é para a gente aplaudir, porque o amor vai muito além do que a gente pode imaginar.




Jornal do Sudoeste: Como você encara o trabalho na Apae?
Lu de Pádua: Eu vejo a Apae como uma engrenagem, que começa desde a entrada que é por meio da assistência social. Nós temos que caminhar junto porque se eu estou com o menino, a família também é acolhida. Temos projetos brilhantes que têm ótimos resultados. Eu faço atendimento em sala, atendimento individual, atendimento às mães; tem o grupo com os meninos e meninas para discutir temas relacionados às transformações da adolescência, porque eles também passam por isso; há muitos projetos bacanas que a Apae promove eu acabo ficando com um pezinho em cada coisa e não coordenando um especifico. Enfim, tem muita coisa que acontece e nós somos uma engrenagem, todo mundo colabora com todo mundo.




Jornal do Sudoeste: Na Apae, você tem alguma história que te marcou?
Lu de Pádua: São muitas histórias e às vezes a gente se pega em situações que nos seguramos para não chorar. Ter uma mãe te abraçando e te agradecendo pelo seu trabalho... uma pessoa que tem família, é batalhadora, corajosa, você entende que fez alguma coisa de útil para as pessoas; e eu sempre questionei minha missão na vida, e eu sou muito sonhadora e às vezes brigo um pouco para realizar esses sonhos. Eu sei a minha missão, é estar ali para dar a mão e caminhar junto, acho que vender risos, levar alegria, fazer festa, acho que essa minha missão.




Jornal do Sudoeste: E qual o balanço que você faz desses 42 anos e suas expectativas para futuro?
Lu de Pádua: Eu penso que eu sou uma pessoa iluminada, pela família que eu tenho, pelos ótimos amigos que eu tenho e eu sempre tive muitos amigos, que eu posso contar na alegria e na tristeza e que me dão colo, dão risadas junto comigo, que cantam e dançam e Deus foi muito generoso quando me deu a vida, porque eu sou muito feliz com tudo o que eu tenho. Planos para futuro, talvez eu volte atender em consultório novamente... Quero ficar morando aqui em Paraíso, enfim, eu não sou de pensar muito a longo prazo. Eu preciso agradecer muito, por tudo, principalmente ao senhor Ademar Paschoalino pela oportunidade que ele me deu. Estou muito feliz na Apae e “apaexonada” por tudo.