Páginas da imprensa crítica e humorística

Páginas da imprensa crítica e humorística

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cidades | 08-07-2017 22:07 | 5785
Foto: Reprodução

Desde o início da história da imprensa, na mesma proporção em que apareceram os periódicos noticiosos, também surgiram os pequenos jornais humorísticos ou críticos. São especializados em dizer o que os outros não dizem, por diferentes razões e recebem o nome genérico de pasquim. Os historiadores da imprensa têm interesse especial por esse tipo de jornal que, normalmente, usam uma linguagem diferenciada, com piadas, provocações, sátiras e charges, mas também enveredam pelos caminhos da literatura e da cultura de modo geral. Nesse sentido, a história da imprensa em São Sebastião do Paraíso, no Sudoeste Mineiro, não poderia ser diferente. Tenho imagens digitalizadas de três números de um jornal desse tipo, publicado no final de 1949, cujo título provocativo era simplesmente “Destruição”. Seu logotipo era um tanque de guerra, em posição de avanço sobre um suposto terreno de combate. 
É com base nessa amostra que, compartilhamos com os leitores cenas desse pequeno e grande projeto cultural da imprensa da querida terra natal. O jornal estava sob a direção do então jovem literato e teatrólogo João de Deus, sendo chefe de redação o jovem Jacinto Guimarães Ferreira, secretariado por Anibal S. Borges e tendo como desenhista a dupla Cunha & Lisboa. Os três primeiros são, hoje, de saudosa memória, quando aos chargista, não pude identificá-los. Para indicar o tom cultural do jornal, transcrevemos abaixo uma belíssima crônica de autoria de João de Deus, publicada no número 6, publicado em 6 de outubro de 1949, focalizando a trajetória do maestro Zé Eusébio, talvez, como afirma o autor, “o maior músico que passou sob os céus paraisenses”. Segundo meu entendimento, trata-se de uma pérola para compor a história das artes musicais em São Sebastião do Paraíso:
“O Mozart Cor de Ébano
Em 1901, nascia em São Sebastião do Pedra Branca, município de Itajubá, o maestro José Eusébio da Silva. Este gênio, talvez o maior músico que passou sob os céus paraisenses, aqui chegou em 1927. Vindo de Monte Santo a pé, chegou roto e maltrapilho. Naquele tempo a “furiosa” local ensaiava onde está instalada a importante casa comercial do senhor Anuar Elias Donato, “Loja São José”. Orientado pelo som da clarineta, foi cambaleante até lá e ficou a escutar. Parou à porta. Ao terminar o ensaio, perguntaram-lhe se não tocava nada. Respondeu humildemente: - ‘Eu já toquei baixo, mas estou muito destreinado’. Deram-lhe um baixo e ele acompanhou um dobrado, com tamanha perfeição, que os presentes se espantaram. - ‘Eu gosto de reger’ – disse, e tomando a batuta, ficou daquele dia em diante, como regente da banda paraisense. A sua banda musical estreou no dia 19 de novembro de 1929. Pouco tempo depois, estreava uma banda composta por 16 crianças. Naquele tempo, os instrumentos musicais eram oferecidos pelo Cine Recreio e pelo Joaquim Souto. Fazia parte do famoso grupo, alguns já de saudosa memória: Joaquim E. Teixeira, Odílio e Anibal Carina, João Zamperini, João D. Vieira, Braz Dias Vieira, Clevelando Sofiati, Finamor Pinto, Umbelino Silva, Paulo Chave, Augusto Quirino, Silvério Souza, Benedito Albino Soares e muitos outros. Como compositor, compôs mais de 5 mil peças musicais, dentre elas três dobrados oferecidos ao maestro José Venâncio Rezende. Zé Eusébio fundou um Jazz que empolgou naqueles tempos. Lecionava e executava com perfeição qualquer instrumento musical, tocava muito bem o “Of Clayde”, instrumento que imita a voz humana com perfeição e que hoje está desaparecido. Todos os anos, por ocasião de seu aniversário, 2 de novembro, era rezada uma missa por sua intenção e tomava parte nela a sua orquestra com mais de 80 instrumentos. Bastava ouvir uma vez uma música para, como Mozart, passá-la para o papel. Esse gênio, o Mozart cor de Ébano, veio a falecer no dia 11 de novembro de 1932, com 31 anos de idade. A José Eusébio, o “Destruição” presta esta humilde homenagem, como também agradece a Odílio Carina e maestro José Venâncio, dados fornecidos para a redação desta crônica. João de Deus”.