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ELAINY LISBÔA: pedagoga escolhida pelo amor à profissão

Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 10-09-2017 21:09 | 1718
Elainy é diretora da Escola Municipal Campos do Amaral  e atua na educação infantil há mais de 20 anos
Elainy é diretora da Escola Municipal Campos do Amaral e atua na educação infantil há mais de 20 anos Foto de Reprodução

A pedagoga Elainy Cristina dos Santos Lisbôa é uma professora com o dom da educação e foi escolhida pela profissão, como ela mesma diz.  Elainy é filha da dona Efigênia dos Santos, que sozinha criou ela e outros dois irmãos, o Elenilson Donizete dos Santos e a Érica Aparecida dos Santos, com a ajuda da sua avó, a dona Geralda, mais conhecida na Mocoquinha como dona Nega. A vida tirou a sua mãe muito cedo, que faleceu por consequência de uma embolia pulmonar, aos 40 anos. Por ser a filha mais velha, juntamente com a avó ajudou a criar os irmãos, que adotou quando se casou com o Antônio Aparecido Lisboa (Toninho da Funpar). Desde muito nova aprendeu com as duas mulheres mais importantes da sua vida, a mãe e avó, uma com pouco estudo e a outra sem alfabetização nenhuma, mas com conhecimento de vida, que nenhuma escola poderia oferecer: que a educação é um tesouro precioso e o caminho para se transformar vidas. Hoje ela é diretora da Escola Municipal Campos do Amaral, que ao lado da vice-diretora Marilurdes Cristina Barbosa, vem desenvolvendo um trabalho reconhecido pela equipe e pelo município.




Jornal do Sudoeste: A responsabilidade sempre foi algo muito presente na sua vida?
Elainy Cristina dos Santos Lisbôa: Sim, eu tive uma infância muito boa, brinquei e aprendi muito, mas minha mãe sempre trabalhou muito e aprendi a responsabilidade de junto dela a cuidar dos meus irmãos menores. A vida foi muito família, criados juntos da minha avó, muito rígida, mas extremamente carinhosa. Ela era analfabeta na questão acadêmica, não sabia ler e escrever, mas era extremamente vivida, de uma visão que era de orgulho, tinha uma índole invejável e muito correta. Ela nos ensinou a seguir o caminho certo da vida, e para ela a Escola era esse caminho e se desdobrava junto a minha mãe para que tivéssemos o uniforme em dia, o material escolar em dia, que não faltássemos à aula, que tivéssemos com a lição em dia e ajudava muito a minha mãe nesse sentido, porque minha mãe sempre trabalhou, muitos anos na Santa Casa e depois na Apae.




Jornal do Sudoeste: Como foi sua formação acadêmica?
E. C. S.L: Eu estudei na Escola Estadual Noraldino Lima, que era de primeiro a quarto ano e à época era estadual. Depois no Paraisense. Quando me formei fui cursar magistério na Benedito Ferreira Calafiori (Ditão), mas nesse meio tempo eu fiquei grávida e tive a Eline Cristina Lisbôa, que hoje tem 25 anos. Ela nasceu com alguns problemas de saúde e tive que me afastar, mas depois retomei os estudos em São Tomás de Aquino e os dois últimos anos do magistério eu fiz na Escola Estadual Tancredo Neves, uma escola referência em magistério na época. Quando terminei fui estudar pedagogia na UEMG em Passos, foi um curso que na época era semipresencial, somente sábado, mas como na época já tinha os trâmites para o processo da estadualização, ficou de segunda a sábado, foi muito puxado. Eu chegava em casa 0h55 e as 5h já estava pronta para o transporte me pegar, porque na época eu lecionava na roça. Não foi fácil conciliar dois irmãos, que estavam na adolescência e a minha filha que tinha dois anos. Eu tinha 19 anos na época.




Jornal do Sudoeste: Onde deu aula e como foi essa fase?
E. C. S.L: Eu dei aula no Morro Vermelho, Pimentas, Diamantina e na Fazenda Roseira, onde não existe mais essa escola. A zona rural em si, eu passei por todas as escolas porque na época eu era eventual na Prefeitura, então eu ia para as escolas de acordo com a necessidade. Na época, a Roseli, que trabalhava no Departamento de Educação, mandava os bilhetes me designando; na época eu morava numa casa de fundo do meu sogro e ele colocava esses bilhetes na geladeira. Sempre que eu chegava, estavam lá os bilhetes me designando a aula que eu daria.  Após eu fiquei fixa na cidade, trabalhei em uma creche, com crianças de 3, 4 e 5 anos. Nessa época eu também trabalhei em uma escola particular, que hoje não existe mais, da Luciene e Lorene Mambrini. De manhã, trabalhava na creche, à tarde na escola particular e a noite pegava transporte para ir para Passos. Depois disso fui lecionar para alunos de terceiro ano no Caic, assim que a escola começou a funcionar, na época foi uma sala difícil porque era muito grande com alunos de 9 a 15 anos que ainda não tinham se alfabetizado, mas uma turma que deixou saudade e que ainda os encontro pela vida, uma turma especial, assim como todas.




Jornal do Sudoeste: Vo-cê acompanhou o processo de municipalização do No-raldino Lima, como foi isso?
E. C. S.L: Eu comecei a dar aula lá em 1996. Foi uma época muito difícil porque tínhamos que provar que éramos bons de trabalho e que poderíamos dar as mesmas condições de ensino aos alunos. Também era término da minha faculdade de Pedagogia, época de elaboração de TCC. Nesse ano minha avó ficou doente e veio a falecer, minha irmã se casou e também teve concurso. Foi um ano que marcou muito a minha vida. Eu fui bem colocada no concurso, passei, esse era o sonho de todo professor, que é se efetivar, então terminei a faculdade e assumi meu cargo de professora efetiva no município no Caic, onde fiquei até 2005. Nesse meio tempo também fui assessora pedagógica na Secretaria de Educação. Na época o secretário de Educação era o Mauro Zanin, junto com a Maria Luiza, e nesse período trabalhei juntamente com o Ministério da Educação, em parceria entre a Secretaria e o MEC, cordenando um curso chamado PROFA, voltado a alfabetizadores, mas antes teve o PCN. Lá eu fiquei por três anos com este trabalho.




Jornal do Sudoeste: Como foi essa sua migração do Caic para o Campos do Amaral?
E. C. S.L: Ainda no Caíc prestei um concurso para  supervisão, assumi e fui para a vice direção da Escola. Em 2013 fui convidada pelo prefeito Mauro Zanin e pela secretária, a dona Maria Luiza, para assumir a direção do Campos do Amaral, que era a única escola onde eu nunca havia substituído. Cheguei aqui, nunca tinha trabalhado com a equipe, apesar de conhecer muita gente dos cursos de formação, mas trabalhar e conviver não. Eu estava acostumada com crianças de creche e alfabetização e vim para cá, que tinha desde pré-escolar até Ensino de Jovens e Adultos (EJA), que eu também falo que são meus meninos. O EJA  atende alunos de 15 a 92 anos. São três turnos que eu falo que são três escolas em uma. Estou aqui até hoje. Depois houve processo de seleção para diretor, me candidatei e passei e depois me candidatei novamente e tenho muito orgulho em dizer que a chapa a qual pertencia, fui escolhida por unanimidade.  Quando o gás vai acabando, isso me dá um ânimo novamente e agente continua na luta.




Jornal do Sudoeste: Por que você escolheu pedagogia?
E. C. S.L: A pedagogia veio da minha paixão pela profissão. Acho que veio também do incentivo que eu tive da minha família, em especial da minha avó e minha mãe, que viam na educação uma luz, porque elas não tiveram oportunidade; a minha mãe teve pouco estudo e minha avó nenhum. Isso tudo foi gerando um amor e teve também o cuidar dos meus irmãos, o educar, ensinar, a paciência de sentar e fazer o outro crescer junto. Isso é muito gratificante. Hoje eu também estou na Faculdade Calafiori, onde trabalho com a Pedagogia desde 2006. Eu falo para meus alunos da Pedagogia que o professor já vem concebido. É uma profissão que trabalha com gente e precisa ter uma dedicação muito especial. É uma profissão onde vamos marcar pessoas, ou positivamente ou negativamente. Hoje, recebo aqui no Campos professoras que foram minhas alunas no Caic, no Noraldino Lima, na creche. Também, na faculdade, recebo alunos que passaram por mim nas salas de educação infantil e hoje estão na Pedagogia. Eu acredito que marquei positivamente, senão elas não estariam seguindo por esse caminho.




Jornal do Sudoeste: Quais desafios você enfrentou ao longo da sua história?
E. C. S.L: Foram muitos. Entre eles por ser muito nova quando comecei as pessoas ficavam com receio de me delegar uma sala de aula ou certas posições. Sofri preconceito por ser professora de zona rural e assumir de repente uma escola que até então era elitizada na época, a Noraldino Lima. Era uma responsabilidade muito grande provar que a rede municipal era capaz de fazer um trabalho tão bom quanto à rede estadual. Também sofri preconceitos no sentido de não ter no nome o nome do pai, isso pesava muito, uma mãe que era auxiliar de serviços gerais, isto tudo para aquela época era muito difícil, mas hoje já é tratado com mais tranquilidade. Depois, enfrentei o desafio de assumir uma direção. Eu estava com 32 anos e vim direcionar pessoas mais velhas que eu, alunos mais velhos, no caso do EJA. Mas sempre ergui a cabeça e estive aberta aos desafios. Chorei muito; lembro-me que quando conversei com a dona Maria Luiza, sobre não dar conta, ela olhou para mim, perguntou se eu tinha terminado e me mandou erguer a cabeça, colocar o salto e seguir em frente. Naquele momento me deu toda uma força para que eu continuasse.




Jornal do Sudoeste: Como é trabalhar com a educação em uma fase tão importante no desenvolvimento da criança?
E. C. S.L:  Primeiro temos que ter uma parceria com a família, que tem que acreditar no professor e na escola porque, mesmo que intuitivamente, a criança percebe. Essa parceria é de suma importância. Depois ter uma dedicação. Abdicar sair em um domingo para procurar uma atividade ou um feriado e montar um plano de aula legal. E também tem que ter humildade, buscar no outro o apoio, dizer “eu não sei” quando preciso. Quantas vezes eu precisei e tive pessoas na minha vida que me ajudaram muito. A dona Maria Luíza, a Regina Márcia, a Márcia Goulart, a Márcia de Belo e a Terezinha Pessoni, que já faleceu e eu brincava que ela era minha fada madrinha. Foram muitas pessoas que passaram na minha vida e me ajudaram muito. Eu lembro que quando peguei pela primeira uma quarta série, fui muitas vezes até a Arlete Sillos, no Departamento de Educação, que fica na parte de cima onde hoje funciona o Inpar, para ela me ajudar a montar poliedros. Também é preciso saber que a gente aprende todo dia e que aprende mais com os alunos que ensinamos a eles. A partir do momento que ele te pergunta, instiga, questiona, faz você procurar e formalizar o seu conhecimento. Nesses 20 anos de profissão, venho aprendendo todo dia, com os alunos e com a equipe. A rede de ensino é minha segunda casa, que eu tenho orgulho e amor por isso, não me vejo trabalhando em outro campo que não a educação. E agradeço todos os dias por ter tido a oportunidade de trabalhar com aquilo que eu gosto e num ambiente que eu me sinto bem.




Jornal do Sudoeste: Como lidar com a questão da educação  e família na Escola?
E. C. S.L: Eu costumo dizer que a partir do momento que a mãe saiu para o mercado de trabalho, a história se complicou. A questão da educação, de sentar, comer à mesa, do respeito com o mais velho era o papel da mãe. Essa mulher hoje, nesse mundo moderno, tem que se virar ou para ajudar o esposo ou mesmo para ser o arrimo da família; na minha infância minha mãe foi esse arrimo e nós sofremos preconceito, mas hoje é comum. A família, hoje, não tem aquele conceito de família tradicional, existe uma diversidade e temos que saber dentro da escola a como lidar com essas diferenças e sem o preconceito. Temos que ter muito cuidado, porque cada aluno é único. Tem também a questão da inclusão, estamos aprendendo junto com essas crianças e não é fácil. São 25 alunos em uma sala, cada uma vem de uma família, de uma criação, e temos que lidar com isso, temos que trabalhar não somente a questão acadêmica, mas social também.




Jornal do Sudoeste: O perfil do aluno mudou ao longo dos anos?
E. C. S.L: O aluno, na minha época ou quando eu comecei a trabalhar, era aquele aluno passivo, onde o professor era o detentor do conhecimento. Era aquela concepção bancária de Paulo Freire, que o aluno fica ali sentadinho recebendo o conhecimento e o professor passando todo o conhecimento, se é que isso é possível. Hoje não, a realidade é completamente diferente, as crianças já nascem quase falando. Elas não aceitam mais essa passividade calada e o professor tem que ser muito dinâmico. Essa geração de agora é muito midiática e muita coisa que envolve tecnologia e nós adultos temos dificuldade, essas crianças já tem domínio.




Jornal do Sudoeste: E como lidar com esse novo perfil?
E. C. S.L: Por meio de projeto. Nós temos que trabalhar o que o aluno tem interesse, colocando toda essa questão disciplinar dentro deles. O foco acadêmico entra no projeto, então o aluno tem interesse, participa, busca, pesquisa, traz a família para a escola e é uma produção dele. Ele aprende Língua Portuguesa, Ciências, Matemática e outras disciplinas dentro dos projetos sem saber que está aprendendo verbos, estrutura textual, montando tabelas e gráficos. É a autonomia. Acabou essa história de que o aluno é uma folha em branco que o professor vai preencher, ele já trás esse “caderninho” preenchido que nós vamos colaborar para que ele continue escrevendo a sua história e automaticamente faz com que nossa história também seja reescrita, tendo em vista que nós também aprendemos muitos mais com o aluno que ensinamos, pela vivência que temos com os alunos do EJA, que tem 30, 40, 50, 60, 90 anos e que estão aqui, são muitas lições de vida. 




Jornal do Sudoeste: Não é fácil ser professor, é?
E. C. S.L: Tem que ter amor. Não é fácil lidar com todas as questões que vêm pra dentro de uma sala de aula sem perder a paciência e o foco do aprendizado, porque nós temos um planejamento e uma meta a cumprir até o final do ano. Também temos que ouvir que o professor é responsável por tudo, que não ensinou direito, ou seja, se  o aluno aprende ele é inteligente, se não aprende a culpa foi do professor que não ensinou. Mas cabe a nós no impor, colocar nosso valor, erguer a cabeça e seguir. Lutar pelos nossos direitos porque nós somos o espelho para esses alunos, temos que saber lidar com as diferenças e de que existe um país onde a questão do preconceito é muito séria. Não podemos admitir ver um ser humano ser humilhado por questões religiosas, classe social, cor ou escolha de gênero e levantar essa bandeira, não é fingir que isso não acontece. O professor é esse espelho e precisa levar essas questões para dentro da sala de aula e ensinar ao aluno a lutar pelos seus direito e também cumprir com seus deveres.




Jornal do Sudoeste: Qual o maior desafio de ser um educador?
E. C. S.L: Os desafios perpassam por várias questões. Sem entrar no mérito partidário, mas quantas greves e paralisações houve por conta de uma reforma trabalhista... se tem dinheiro para a corrupção, esse dinheiro está saindo de onde? Por que tem que ter uma reforma trabalhista para prejudicar tantos trabalhadores? Também tem a questão do Ensino Médio, que eu acredito que deveria ter sido melhor discutida, porque a partir do momento que você coloca um técnico, sem desmerecer, mas de que forma isso será trabalhado? Existe um desequilíbrio entre aquele que estuda em um Ensino Particular integral e aquele aluno filho da Escola Pública. Aquele que estudou na escola particular terá mais chances de ingressar em uma universidade federal do que aquele que veio da escola pública, e que na maioria das vezes trabalha e estuda. Temos que repensar muitas questões da educação que são colocadas nas escolas por goela abaixo, sem ouvir os educadores.




Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz desses seus 42 anos e quais sua expectativas para futuro?
E. C. S.L: É um balanço muito positivo. Se formos ver fui criada sem perspectiva nenhuma de progredir na vida por ser filha de mãe solteira, que era auxiliar de serviços gerais e faxineira nos finais de semana; criada por uma avó analfabeta e que depois perdeu a mãe e ajudou a criar os irmãos, mas que conseguiu chegar à universidade. Eu tenho três pós-graduações e estou fazendo um curso agora de especialização pela Universidade Federal de Alfenas. Fui coordenadora de um curso ligado ao MEC, passei pela sala de aula, supervisão e direção do Caic, hoje sou diretora do Campos do Amaral, ao lado da minha vice Marilurdes, e professora de uma universidade. Levei minha família junta nesse processo. Tive um parceiro maravilhoso e digo que Deus coloca algumas pilastras nas nossas vidas, na minha foi meu esposo. Estamos 25 anos juntos e ele sempre me apoiando. Eu sempre digo que todos os certificados que eu recebo, ele tem a metade dele. Se a família não estiver junta, não tem um bom profissional. Para futuro, minhas expectativas é continuar nessa área que eu amo tanto e pedir a Deus para continuar me iluminado para levar a vida; ser a pessoas que traga o bem e ajudar o próximo, não prejudicar. Nós viemos nessa vida com um propósito, que é servir, senão a vida não tem sentido.