Garoto paraisense conta uma lição de vida

Por: Redação | Categoria: Arquivo | 25-08-2002 00:00 | 578
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Alex Ramos Alexandre tem dez anos de idade e está na terceira série do Ensino Fundamental. Seria apenas mais um garoto entre tantos outros se não fosse a árdua rotina que segue todos os dias. Engraxate e vendedor de sorvetes, o menino ajuda o pai no sustento da casa e dos dois irmãos. Com humildade e um pouco de timidez, Alex não reclama do trabalho e orgulha-se de ser o filho mais velho a morar com os pais. "Eu ajudo a cuidar dos irmãos menores, sempre dou banho, troco fraldas e preparo mamadeira", comenta com ar de maturidade.
Filho de lavradores, o garoto veio morar na zona urbana de São Sebastião do Paraíso há cerca de um ano. "Meu pai se desentendeu com o patrão e ele mandou a gente embora" explica. Alex conta que atualmente o pai está trabalhando em uma lavoura de café. Já sua mãe se encarrega dos cuidados da casa e dos filhos menores, de três e um ano de idade. "Tenho uma irmã mais velha, mas ela se casou e foi embora" diz afirmando sentir saudades. 
Para o garoto, a escola é sempre um lugar bom e divertido. "Gosto de estudar, às vezes, quando minha mãe precisa sair e eu tenho que ficar com meus irmãos, fico pensando no que está acontecendo lá" diz. O garoto estuda na Escola Municipal Maria de Lourdes Dizaró, CAIC, onde afirma ter boas notas, bom comportamento e apoio da professora Aparecida, que segundo Alex, é muito generosa e compreensiva.
Calçando um tênis branco, velho e empoeirado, o estudante pedala com muita agilidade sua bicicleta de dezoito marchas. Na parte de trás, com algum esforço, carrega alguns alimentos. "Com o dinheiro que ganhei nas ruas, aproveitei para comprar arroz, macarrão, farinha de trigo, óleo, sal e açúcar", enumera com algum contentamento.
Questionado sobre suas necessidades pessoais, sem revolta e mágoa, o garoto afirma não ficar com nada do que ganha. "Prefiro comprar comida, às vezes eu até quero comprar alguma coisa, mas não tenho como pagar..." salienta com um sorriso conformado. "Fazer o quê, sei que os meus pais não têm culpa, não tenho nem o direito de ficar bravo" justifica. 
Apesar da pouca idade, Alex já faz planos. Ele conta que gostaria de ser veterinário, e comprar uma casa para os pais. "E para você?". Ele olha para os lados como se buscasse uma resposta. Depois de refletir algum tempo, entre indeciso e alegre, confidencia que gostaria de ter um sítio "Lá, eu poderia criar vaca, boi, bezerro" afirma com os olhos brilhando de contentamento. 
Alex gosta muito de animais, e está querendo comprar um animalzinho de estimação. Engana-se quem pensa que o garoto quer um cachorro de raça ou um hamster. Obstinado, o menino diz estar juntando dinheiro para realizar seu desejo "Quero comprar um pintinho, só que preciso pedir para os donos guardarem um filhotinho para mim, é que ainda está faltando dinheiro", afirma. Perguntado qual o preço, e como quem se vê quase realizando um sonho, Alex afirma ser R$0,50.
Muitas pessoas devem estar se perguntando, mas um preço tão barato, até mesmo com o dinheiro que ele ganha dá para comprar. Mas, Alex é cuidadoso, compra alimentos para casa, alguns cadernos para escola e tem mais algumas despesas pré- estabelecidas "Não comprei o pintinho ainda, porque senão falta dinheiro para comprar outras coisas", justifica com a fisionomia séria de genuíno economista. 
Alex é um garoto que cresceu antes da hora. Gosta de jogar futebol e de refrigerante, mas já se acostumou a fazer as coisas que adora quando sobra um tempo. Ele afirma que se encontrasse um gênio da lâmpada mágica, pediria uma casa muito bonita (a que mora é alugada), além de um carro e dinheiro para pagar sua faculdade. 
O jovem afirma não ter raiva de ninguém por ter que trabalhar ao invés de brincar como a maioria dos garotos de sua idade. "Se posso ajudar minha família, por que vou preferir ficar à-toa, sem fazer nada e passando fome", argumenta, lembrando que o trabalho não o atrapalha nos estudos. 
"Deus é bom e ajuda todo mundo. Às vezes, vejo as pessoas reclamarem da vida e penso: nossa! como elas estão perdendo tempo! Tudo fica tão fácil quando se faz as coisas com alegria", finaliza com um sorriso doce de criança que não perde a esperança de vencer na vida.
Elezângela Aparecida de Oliveira-P.A.J.