CRÔNICA - JOEL CINTRA BORGES

O troco da padaria

Por: Joel Cintra Borges | Categoria: Cultura | 15-09-2018 10:41 | 384
Joel Cintra Borges
Joel Cintra Borges Foto de Reprodução

Papai gostava de comprar tudo à vista. Do açougue até a loja de roupas,  cadernos dos filhos, móveis de casa, tudo era adquirido conforme nossas possibilidades e pago na hora. A única coisa que ficava a prazo era o pão, porque era colocado numa sacola no alpendre, bem cedinho. E ninguém era doido de acordar de madrugada só para pagar o padeiro...

Então, uma vez por mês vinha a conta. E mal chegava, um de nós (éramos oito filhos, seis homens e duas mulheres) ia correndo pagar.  Naquele mês ela veio marcando sessenta cruzeiros. Papai me chamou, entregou-me o papel e uma nota de cem.

Cidade pequena é tudo perto, logo eu estava diante do caixa. Enganar, todo mundo engana e esse foi o dia daquele homem: ele me voltou uma nota de cinquenta e uma de dez. Eu era pequeno, mas nem tanto. Sabia contar dinheiro e logo vi que estava errado. Mas (filhos gostam de testar os pais!), voltei e entreguei o troco, sem dizer nada. Papai olhou o dinheiro e disse:

–  Ele voltou troco a mais.

–  Sei disso, papai. Vim aqui para o senhor dizer o que é para fazer.

–  Meu filho, se o padeiro voltou dinheiro a mais, não há o que pensar e nem o que discutir. É devolver na hora e pronto. Isso é o que você devia ter feito. Agora, volte lá, entregue a ele o que está sobrando e peça desculpas por não ter feito isso antes.

Isso foi há muito tempo, mas, é um episódio que me tem servido de referência em todos os momentos em que está em jogo o meu direito e o direito dos outros. Papai não fez discurso, não aproveitou para dar lição de moral sobre o bem e o mal, o certo e o errado. Pela simples razão de que isso era muito claro para ele, tanto que, quando sucedeu o contrário e ele teve que lutar pelo próprio direito e o direito dos filhos, sem titubear o fez, da forma mais corajosa possível. 

Temos duas fases muito importantes e bastante diferentes na vida: a primeira é quando não temos filhos, ninguém para se espelhar em nosso comportamento; a segunda é quando temos esses pequenos alunos a nosso lado, sempre nos observando, ouvindo nossas palavras, mas, acima de tudo imitando nossos atos. Nesse momento, nossa responsabilidade aumenta muito, porque passamos a influenciar outras almas, outros destinos.

Muito se fala na juventude irresponsável de hoje, moços que não estudam e nem trabalham, que abusam do álcool e das drogas, que não têm freios e nem limites, mas, será que os lares de onde eles provêm são sadios, será que eles receberam uma boa formação, tiveram bons exemplos? Em alguns casos, sim, mas, na imensa maioria das vezes isso não ocorreu, não apenas da parte de seus lares, mas, de todo o estado brasileiro. Assim, são os filhos legítimos desses tempos estranhos em que vivemos, seus parâmetros são outros, já cresceram acostumados com a corrupção, a violência, a maconha, o crack, a cocaína...