POSSE APC

Posse na Academia Paraisense de Cultura

Por: Nelson de Paula Duarte | Categoria: Cultura | 15-09-2018 11:08 | 424
Bruno Félix e Reynaldo Formaggio
Bruno Félix e Reynaldo Formaggio Foto de Nelson P. duarte

Em sodalício realizado na noite de quarta-feira (12/9) em sua sede, a Academia Paraisense de Cultura recebeu como Membro Efetivo, o escritor, poeta e músico, Bruno Félix. Escolheu como seu patrono, Miguel de Cervantes, e passou a ocupar a Cadeira 33 da APC.

Na sessão solene o novo acadêmico fez lançamento de seu livro “Poemas Classificados”, editado pelo Grupo Editorial Letramento.

DISCURSO DE POSSE E DEFESA DO PATRONO ESCOLHIDO

Tentei em vão escrever três diferentes discursos de posse sem fazer uso dos clichês que, via de regra, pululam aos borbotões dos mais ponderados parágrafos que o mais zeloso dos discursantes pode escrever em situações análogas. Diante da impraticabilidade da empreita, decidi por bem não evitar os referidos vícios discursivos. Em verdade, abusarei deles.

Então direi que fui pego de surpresa. E que nunca me imaginei escrevendo um discurso de posse, posto que sou naturalmente um homem afeito à informalidade.

Tampouco me imaginei um dia discursando em posse alguma, possuidor que sou do conhecimento de que nada nos pertence de fato nessa curta jornada. Prosseguirei discursando sobre a honra de ocupar a cadeira de número 33, respeitando assim os merecidos clichês inerentes à honra em desrespeito ao já afirmado conhecimento de “não possuidor” que, por analogia confere a mim o direito e dever da não devoção às honrarias.

Rogo que não interpretem essa afirmação como gesto de soberba. Apenas o digo para melhor me apresentar perante os respeitados acadêmicos, doravante irmãos de alma.

Serei breve. Peço de antemão que perdoem não só o tom informal, mas também o fato de muitas vezes não compreender os trâmites cerimoniais dessa honrada Academia. Hoje sei da beleza e necessidade de tais ritualísticas, mas deixo aqui uma confissão: Desde o dia em que recebi o convite, por vezes fantasiei que o rito de posse pudesse acontecer conforme um protocolo a que estou um pouco mais habituado. Mais ou menos assim: 

– Chega mais Bruno, vamos abrir uma cerveja!

– E aí pessoal? Como vão? Vamos pedir uma porção de torresmo?

– Alguém trouxe cachaça? – pergunta outro acadêmico.

Até que gentilmente o presidente em exercício oferece uma cadeira:

– Senta aí Bruno, fica à vontade. Estivemos conversando esses dias, separamos esse lugar pra você.

– Opa! Valeu! – respondo. – Mas, por favor, na ponta da mesa não... 

– Preocupa não irmão. Olha só, sua cadeira é essa, número 33. – diz uma poeta com um sorriso amável e o olhar sereno de quem já conhece o boteco desde outros carnavais.

Enquanto brindamos, noto que a cadeira, além de confortável, é nova. Pergunto aos comensais se seria eu o primeiro a tomar tal assento, informação que de pronto me é confirmada. 

– Pois é, meu amigo, digo, irmão de alma. – diz um deles enquanto fica de pé. – Tiraste a sorte grande. Vê aquela cadeira mais antiga, à ponta da mesa? Há ali muita responsabilidade, pois seu primeiro ocupante a gravou com o nome de Olavo Bilac. Agora mira com atenção à direita, aquela cadeira de linhas suaves e delicadas. Quem a primeiro ocupou a batizou assim: Cecília Meireles. E não para por aí. De Ari Barroso a Bach, de Manuel Bandeira a Freud... Tem cadeira pra todo gosto, todas com muita história. Então pensa com cuidado em um nome para a sua, pois aqui bem perto do seu lugar posso ler em letras douradas: Machado de Assis!

Digníssimos Acadêmicos, antes que eu retome o tom formal do discurso, permitam-me um último sacrilégio: Em que sinuca de bico fui me meter! Pois, ao escolher um patrono para a nova cadeira que me concederam, há de se convir que deixarei de exaltar dezenas de nomes que tenho em elevada estima!

Impossível colocar lado a lado cada grande escritor que li, cada grande músico que ouvi, cada artista que um dia tocou minha alma deixando alguma marca. Cada um a seu modo desempenha um papel importante nessa humilde jornada, de modo que todos serão de certa maneira injustiçados por mim. 

Apesar disso, foi sem demora que escolhi Miguel de Cervantes para patrono da cadeira que ocuparei.

A decisão não foi apenas rápida: foi espontânea e natural. Quem não me conhece pode julgar uma escolha sensata, posto que Cervantes foi um grande romancista, poeta e dramaturgo espanhol. Estudiosos da literatura defendem que sua obra prima “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha”, foi, além do primeiro romance moderno do mundo, o melhor já escrito até hoje. Isso não é exagero algum, devemos concordar. Assim sendo, todos os demais artistas que eu gostaria de homenagear não serão assim tão injustiçados, posto que todos certamente beberam dessa mesma fonte.

Por outro lado, quem bem me conhece sabe que meu gosto pela literatura aflorou após a leitura da referida obra. Fui um aluno rebelde no início de minha adolescência, cabulando especialmente as aulas de literatura. Porém eu era fascinado por jogos de RPG de mesa e pelas aventuras medievais. Com treze anos de idade, tomei emprestado o primeiro volume de Dom Quixote na Biblioteca Municipal Professor Alencar Assis e o devorei em poucos dias.

Foi um caminho sem volta. Dentro da história, apareciam personagens que narravam outras novelas, que por sua vez eram adornadas por poemas escritos por outros personagens, que por vezes inspiravam o próprio Cavaleiro da Triste Figura a escrever seus versos para sua donzela Dulcinéia del Toboso. Isso tudo me inspirou a conhecer melhor os grandes clássicos da literatura mundial, por isso sou tão grato a tal encontro. 

Em resumo: é com muita alegria que hoje, além de agradecer aos Acadêmicos, novos “irmãos de alma”, pela confiança e acolhida nessa ilustre casa; agarrei a oportunidade de eternizar minha gratidão àquele que, pela grandeza de sua obra despertou em mim o interesse pela beleza das artes. Que eu possa honrar o título de acadêmico e o nome com que gravo essa cadeira.

E que os próximos que a ocupem recebam esse patrono com o coração alegre, repleto com a pureza e coragem de um bom cavaleiro andante. E que não nos envergonhemos de lançar mão dos clichês, que nada mais são que moinhos de vento. Espero também que me perdoem a língua solta, que aqui justifico com as palavras do velho fidalgo que um dia habitou um vilarejo da Mancha: “Quando o coração transborda, a língua fala”.

São Sebastião do Paraíso, 12-09-2018