ELY VIEITEZ LISBOA

O animal precavido

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 23-09-2018 08:42 | 199
Foto de Divulgação

O homem moderno tem características muito próprias: é desconfiado, precavido, cauteloso, sonha menos, é mais Sancho Pança que Quixote. A existência ficou mais prática, mais pobre, ele se preocupa muito com coisas das quais tirará proveito, não se atira no abismo das paixões, prefere sempre os sentimentos mais comedidos, mais tíbios. Não é tempo de heróis, conquistadores, de entes arrojados. Calcula-se muito o passo ao se elevar o pé, desconfia-se do terreno, em geral minado. As desilusões, após anos, séculos, acabaram por solapar a capacidade de sonhar alto, sonhar grande, com medo do tombo. O homem apequenou-se diante da vida.

Filho da solidão, companheiro do medo, entrincheirado nas suas fobias, diante da violência urbana, da destruição do mundo, o ser humano dessorou-se, empalideceu, perdeu sua beleza edênica. Há quanto tempo não se ouve falar de uma bela história de amor, lírica, grandiosa, mítica, daquelas que ignoram todos os obstáculos e vencem o tempo? Onde estão os atos heróicos, os poetas assinalados, as personagens carismáticas que marcam uma época? O homem e seu mundinho moderno é feito em série, é cinzento, um zumbi plugado em seus aparelhinhos tecnológicos. Seu lema: Urge trabalhar, guardar, poupar, amealhar como formigas. O tempo das cigarras acabou.

Para dizer que nada se faz, o homem continua tentando conquistar outros planetas, em viagens intergaláticas cheias de tecnologias, muita ciência e enorme tédio. Porque lá não estão as respostas. A viagem é ao inverso. Nas suas máquinas, nas espaço-naves, interligado nos pequenos aparelhos digitais,  ele cada vez se entedia mais, distancia-se da vida, desconhece o seu íntimo, suas necessidades essenciais, o outro, a amizade, a ternura, o amor.

Diante de tal realidade pode-se lembrar do cético Machado de Assis que declara, conotativamente, que o homem nasce para bispo e sempre acaba sacristão de igreja.   Ele começou a ter medo, a precaver-se a acautelar-se diante de tudo que pode fazê-lo grande. Mirrou-se. Murchou. Triste espetáculo. Enorme frustração divina. Que pensará Deus, ao ver no que se tornou a obra-prima, pretensamente feita à sua imagem e semelhança, este pobre, inócuo e insulso simulacro de homem?

Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br