LITERATURA PARAISENSE:

Escritor Gabriel Amaral Dias - Parte 1

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cultura | 26-09-2018 09:44 | 2973
Foto de Reprodução

Natural do povoado da Antinha, que outrora pertenceu ao município de São Sebastião do Paraíso, polo cafeeiro do Sudoeste Mineiro, o escritor e poeta Gabriel Amaral Dias nasceu em 30 de outubro de 1908. Filho do fazendeiro João Antônio Dias e da professora Dona Mariana Campos Amaral Dias. Por parte de mãe, era sobrinho do deputado José Luiz Campos do Amaral Júnior e irmão das também ilustres poetisas Edmée Amaral Dias Gonçalves e Adelina Amaral Garcia. Foi alfabetizado, juntamente com seus irmãos mais velhos, pela sua própria mãe, em lições domésticas regulares que lhes proporcionaram ampla cultura humanista e lhes despertaram verdadeira paixão pelo encantado mundo da literatura.
Frequentou a escola particular da professora Luiza Aurora Aguiar Silveira (Dona Luizinha), esposa do professor Gedor Silveira, educadores que participaram do primeiro corpo docente do Grupo Escolar Campos do Amaral, inaugurado em 1 de fevereiro de 1916. Ainda rapazinho, Gabriel Amaral trabalhou na farmácia do senhor Otávio Peres, onde deu os primeiros passos na escolha de sua futura profissão. Estudou no renomado Colégio Espírito Santo, do professor major Américo Paiva, em Monte Santo de Minas, onde se destacou pela sua brilhante inteligência e diferenciada vocação literária. Complementou os estudos preparatórios na cidade paulista de Ribeirão Preto, onde formou-se na Escola de Farmácia.
Em 1982, quando residia na cidade paulista de Mococa, onde exercia a profissão de farmacêutico, Gabriel Amaral publicou, na coletânea Talentos Paraisenses, o soneto Poesias Ignotas, dedicado à poetisa e grande incentivadora da cultura da nossa cidade, professora Luzia Vasconcelos Pedroso Gonçalves, o qual transcrevemos abaixo. Na continuidade, transcrevemos também do mesmo autor, a primeira parte do poema sacro inédito Quadro do Getsêmani, cuja cópia nos foi enviada pela advogada e escritora Tania Aparecida de Vasconcelos Pedroso Balbo, que gentilmente nos franquiou acesso ao seu belíssimo acervo cultural, literário e bibliográfico. Razão pela qual registramos aqui nossos sinceros agradecimentos pela sua expressiva colaboração na realização desse projeto que tem como objetivo principal rememorar traços históricos da literatura e cultura da saudosa Terra Natal.

Poesias Ignotas
Gabriel Amaral
A poesia ignota é como uma flor relvada
Na bucólica paz, tristonha da campina
Embora viva a sós, exígua e abandonada
Traz com ela, escondido, o encanto que fascina.

Mas, nessa solidão de vida, separada
De seu mundo floral, por ser tão pequenina
Ela ainda traz essa ternura delicada
De beleza útil, da Criação Divina.

Mas nada adiantará se ela ficar sozinha
E não tiver o esmero e mão de uma rainha
Que faça um ramalhete, unindo-as sobre um vaso.

Só assim, esse buquê de flores matizadas
Com esse toque real, de mérito das fadas
Irá brilhar risonha, em jarras de um parnaso.

Quadro do Getsêmani
Gabriel Amaral
1ª Parte
Silente a noite vai. É tudo solidão.
Nem um vento sequer, soprando leve passa
apenas, o luar banhando as oliveiras
mergulha-se através das abertas clareiras
fazendo uma estrada de prata no chão.
Os grossos troncos nus, já velhos, retorcidos,
banhados pela luz argêntea do luar,
desenham sob o solo as sombras monstruosas
de mãos espectrais, apáticas, nervosas,
buscando alguma coisa onde possam agarrar.

O verde escuro manto extenso das copadas,
coberto de folhagens densas, reluzentes
transforma assim o horto em lúgubre cenário
de um túmulo vazio, escuro, solitário
à espera de algum corpo gélido e dormente.
E lá no interior desse recanto escuro
tristonho, pensativo, sem ninguém ao lado
Jesus sente em sua alma a hora aproximar-se
e cheio de pavor começa a angustiar-se
sentindo sobre si, o nosso vil pecado.
Prostrando a fronte em terra intensamente ora
e ora mais e mais com tal melancolia
que toda sua face plácida de outrora
de súbita mudança é transformada agora
em gélido suor sangrento de agonia.

A lua reluzente, vaga lá no espaço
na imensa projeção de glória e de poder
enquanto Jesus Cristo, humildemente implora:
- ‘Meu Pai, se for possível passa nesta hora
o cálice de dor que Eu tenho de beber!’
Depois de assim orar, Jesus muito abatido
contempla a humanidade em meio do sofrer,
e volta-se de novo, entregue a Divindade
dizendo: ‘não se faça ó Deus Minha vontade
mas sim o que somente for do Teu querer.’
Enquanto isso se passa em baixo na colina,
Tiago, Pedro e João distantes de Jesus
dormem sem saber que nessa hora extrema
o Mestre realizava o pacto supremo
da salvação eterna imposta pela Cruz.
[... continua]