LITERATURA PARAISENSE:

Escritor Gabriel Amaral Dias - Parte 2

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cidades | 29-09-2018 23:28 | 57
Foto de Reprodução

Esta crônica inserida numa série dedicada à história da literatura de autores de São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, complementa as anotações que conseguimos reunir sobre a trajetória do escritor Gabriel Amaral Dias. Membro de uma conhecida família que reúne poetas, literatos e educadores, após formar-se na Escola de Farmácia de Ribeirão Preto, São Paulo, morou anos na cidade de Mococa, no mesmo Estado. Em agosto de 1933, obteve o registro do diploma de farmacêutico na Inspetoria de Fiscalização do Exercício da Medicina, conforme consta registrado na Gazeta da Pharmacia, periódico publicado no Rio de Janeiro.

Logo em seguida, em 1935, foi proprietário de uma Farmácia na cidade paulista de Altinópolis. Casou-se com a professora Umbelina Pinheiro do Amaral, fixando residência em Mococa, onde foi membro da Loja Maçônica. E escreveu romances, contos e poesias, abordando diversas temáticas, sempre incluindo referências saudosas à sua querida terra natal.

Em 1941, Gabriel Amaral publicou, pela Livraria Liberdade, de São Paulo, o romance Baltazar. Outra produção de sua autoria é o romance O Lobisomem. Em sua trajetória destacam-se ainda contos pitorescos, poemas sacros e trovas premiadas em concursos da União Brasileira de Trovadores. A seguir, transcrevemos a parte final do poema Quadro de Getsêmani, cuja primeira parte foi publicada na primeira parte desta crônica histórica.

Quadro do Getsêmani
Gabriel Amaral
(...)
2ª Parte
Na encosta do monte soturna e sombria,
aonde o luar nem sequer refletia,
um grupo de homens calados subiatrazendo as espadas e armas na mão.
E para um instante. Conversa baixinho 
e um deles prossegue na frente, sozinho,
pisando de leve nas folhas do chão.
E chega no centro do velho jardim.
Caminha de leve vagueia, hesitante
e eis que descobre lá em baixo, distante,
o Mestre falando com Pedro e com João.
E Judas prossegue no ato infeliz.
A glória do ouro arranca-lhe a idéia
de ser dos seus atos o próprio Juiz.
E assim palmilhando na estrada do crime
sua alma reprime qualquer reação.
A sua consciência, cativa, culpada
já não o acusa daquela traição.
Somente a memória confusa, apressada
mistura o presente nas horas passadas
em torno somente, do Mestre, Jesus.

Contudo a memória que ainda lhe resta
lhe fala baixinho mostrando o caminho
que deve seguir.
E Judas relembra os momentos passados
aos pés de Jesus, seu Mestre e Senhor.
Seus olhos vidrados de angústia fremente
contemplam os quadros que surgem-lhe à mente
e vê claramente seu Mestre ensinando... com amor

Agita-se todo num choque impulsivo
querendo arrancá-lo de seu pensamento...
E eis, que recorda mais forte, mais vivo
o Mestre risonho um milagre operando...
Esfrega mão tosca na fronte franzida
vacila indeciso, prossegue outra vez
e eis que relembra mais cheio de vida
a imagem do Mestre leal perdoando...
Mas... nada o detém no caminho do mal.
De passos incertos alcança o local
aonde o Seu Mestre tristonho se acha.
E em tom de carinho de afeto e de amor
saudando-o beija num beijo traidor.
E o grupo escondido entre os troncos, alado
ao ver que era aquele o sinal combinado
atira de chofre prendendo o Senhor.

3ª Parte - O Julgamento
Rompe fresca a manhã. Jerusalém se agita.
Ouve-se o rumor de gente que transita
nas ruas sem calçadas.
De toda parte surge a multidão ruidosa
que vai se aglomerando aos poucos curiosa,
um tanto alvoroçada.
Na porta do Sinédrio, em grupos que circulam,
os guardas e os soldados falam, gesticulam
em torno de algum fato.
É que, Ele, o Galileu foi preso, está detido
e vai naquela hora ali ser arguido, diante de Pilatos. 

E a massa popular vibrando eletrizada
na intensa agitação de ideias variadas
aguarda o julgamento injusto de Jesus,
enquanto os magistrados fariseus farsantes
procuram convencer a turba ignorante
que Cristo deve ser pregado numa cruz.
E lá no interior luxuoso do pretório
Jesus é interrogado, em frente do auditório,
Que o acusa fortemente.
É lançado contra Ele em ondas de impiedade
Calúnias vis, cruéis, forjadas à vontade
por lábios inclementes.

Pilatos preocupado, trêmulo, indeciso
com aquela situação criada de improviso
e imposta sagazmente a ele por Caifás,
ordena a um soldado seu ali presente
que açoite o “Nazareno” e o traga novamente
ali para o recinto: Ele e Barrabás!
O povo silencia. O Mestre é retirado.
Daí a pouco volta, arquejante, cansado
de busto descoberto e túnica aos joelhos.
Da coroa de espinhos que lhe orna a fronte
o sangue se desprende em bagas gotejantes
e descem pelos ombros em listrões vermelhos.

Pilatos estremece. A presença de Cristo
produz-lhe na consciência um pavor esquisito
que nunca lhe causou sentenciado algum
- “Eis aí vosso Rei – exclama incontinenti,
castigado já foi por mim publicamente
e confesso: - não acho nele crime algum.
Da lei que represento outorga-me o direito
soltar um prisioneiro. Excluo esse preceito.
Escolhei mesmo vós, entre estes, qualquer um.” 

Revolve a multidão. A gritaria aumenta.
O ódio se transforma em reação violenta
como onda bravia em plena tempestade.
E, em meio aos turbilhões de grito prolongado
Jesus é escolhido a ser crucificado.
E ali, naquela hora, em frente da Assembleia
lavando as suas mãos na bacia de prata
falha, o governador supremo da Judeia.

Cristo é conduzido aos empurrões prá rua
onde a massa popular, raivosa tumultua
e se atira contra ele aos golpes de chibata.
Horas depois no alto de um madeiro
braços abertos para o mundo inteiro
Jesus entoa o seu perdão da Cruz
- Perdoa. Perdão que mostra à humanidade e aos céus
na pessoa de Cristo a vontade de um Deus
e a existência de Deus na vida de Jesus!