CRÔNICA - JOEL CINTRA BORGES

Os ônibus

Por: Joel Cintra Borges | Categoria: Cultura | 06-10-2018 09:44 | 43
Joel Cintra Borges
Joel Cintra Borges Foto de Reprodução

Minha tia Lota era magrinha, esbelta, morena clara de cabelos grandes e, na época da mocidade, bem pretos. Deve ter sido muito bonita, mas não dá para ver pelos retratos, porque são poucos, em preto e branco e naquelas poses padronizadas.

Nada dessa fartura de looks de hoje, com essas cores maravilhosas. Mas, pelas minhas vagas lembranças de menino e os traços que conservou na velhice, dá para dizer: sim, era muito bonita, além de alegre e divertida. Ela costumava dizer, com muita sabedoria:

–  O ônibus passou e você não o pegou, agora é tarde!

Mas, esqueçamos esse assunto por momentos e passemos para outra figura singular: o Alaor, que também era de Cássia e estudava em Ribeirão Preto como eu. Morávamos na mesma pensão e fazíamos o curso Colegial, ou científico, que são os três anos que antecedem o superior, ou universitário.

Nossa turma da pensão da Dona Galdina era só de moços, rapazes na faixa de dezesseis a vinte anos. Bonitos e alegres, com a beleza e a vivacidade que só a adolescência, a juventude, a mocidade dão.

E Saíamos nas noites de fim de semana, para passear na Praça XV e, principalmente, olhar as meninas. E olhávamos, flertávamos, andando, sentados nos bancos de cimento, ou nas mesas de bares ou sorveterias. Mas, tudo de longe, porque ninguém ousava transpor aquela distância mágica que nos separava. Era como se fosse uma fronteira, um abismo, uma espécie de tabu!

Mas, dizer “ninguém” é força de expressão e até errado, porque um ousava. Exatamente aquele que, aos meus olhos, era o mais feio e mais bobo: o Alaor. Quase sempre ele não se contentava com as olhadelas, levantava-se e ia lá! E nós ficávamos esperando a bronca que ele levaria, a cara grande com que voltaria... Mas, quase sempre dava certo, ele se entrosava com as garotas, e os bonitões, os inteligentes, ficavam lá de longe chupando o dedo!

Era a isso que minha tia se referia, ao dizer que “O ônibus passou e você não o pegou!”  Quantos encontros agradáveis poderíamos ter tido, quantas conversas boas, às vezes até namoros, pegar nas mãos e trocar beijos – se fôssemos ousados como o Alaor!

E na vida é um desfilar de ônibus que perdemos, que deixamos de pegar, por vergonha, por timidez, por medo. E quando chega a velhice não adianta dizer:

–  Ah, se eu tivesse feito isso!