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Elenir Novaes: Educadora Nota 10

“Faz parte da nossa formação: ajudar o ser humano a crescer”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 06-10-2018 10:12 | 898
Com o projeto “De Cor e Salteado”, Elenir, professora no Campos do Amaral e no Colégio Galileu, foi uma dos dez vencedores da 21ª edição do Prêmio Educador Nota 10
Com o projeto “De Cor e Salteado”, Elenir, professora no Campos do Amaral e no Colégio Galileu, foi uma dos dez vencedores da 21ª edição do Prêmio Educador Nota 10 Foto de Divulgação

A professora Elenir Aparecida de Oliveira Novaes, mais que uma profissional dedicada, é um ser humano que entende o papel social do professor e sabe como a educação pode transformar vidas e marcar para sempre os nossos jovens. Prova disto foi ser reconhecida diante de um projeto inovador que lhe rendeu o título de Educador Nota 10. Com esta vitória, Elenir reencontrou muitos alunos que passaram por sua vida, orgulhosos daquela que lhes mostrou a importância da educação. Desde cedo, ela soube o que queria e é enfática ao dizer que não saberia fazer outra coisa senão educar, o que vem fazendo com excelência há 25 anos. Filha mais velha da professora aposentada Luzia Maria de Jesus Oliveira e de Luiz Rodrigues de Oliveira, Elenir é casada com o servidor público Osmar Novaes e mãe do jovem estudante de Engenharia Mecânica, Gabriel de Oliveira Novaes. Hoje, colhendo os frutos de um trabalho de uma vida inteira, é feliz e orgulhosa que conta um pouco da sua história com a educação ao Jornal do Sudoeste.

Jornal do Sudoeste: Sua educação inicial foi toda na zona rural?
Elenir Novaes: Sim. Até os 10 anos morei na zona rural, na região do Lajeado. Foi lá que eu estudei até a antiga 4º série, hoje 5º ano. Quando terminei essa fase da escola, precisava continuar estudando, então me mudei para a casa dos meus avós, até que meus pais compraram uma casa aqui na cidade e fomos morar juntos novamente. Nunca mais voltamos à zona rural depois disto, a não ser para passear.

Jornal do Sudoeste: Foi necessária esta mudança...
Elenir Novaes: Naquela época se você não fizesse isto, ficava sem estudar. E eu tinha muita vontade de continuar meus estudos e meus pais me incentivaram bastante. Minha mãe foi professora durante muitos anos, hoje é aposentada. Ela dava aulas em uma sala multisseriada, era do pré-escolar até o 4º ano em um único ambiente, e a professora tinha que dar conta de tudo. Foi neste sistema que estudei. Era a Escola Municipal Ângelo Nogueira, no Lajeado, acredito que não exista mais. Minha mãe cuidava praticamente de tudo.

Jornal do Sudoeste: Então sua história com a educação vem desde muito cedo?
Elenir Novaes: Sim, ainda na infância, de observar a sala de aula e a professora, que era a minha própria mãe. Convivi com a educação desde cedo, via como minha mãe preparava as aulas, como se dedicava... Tanto a minha mãe quanto o meu pai participavam e eram úteis para comunidade. Não ficava apenas na escola, minha mãe abria as portas para receber as famílias. Eu me lembro que as reuniões de pais nem pareciam reuniões, era mais uma festa. Era uma comunidade muito unida e minha infância foi muito tranquila neste meio e nós crescemos todos unidos. Foi tão importante que eu quis continuar estudando e me mudei para a cidade por isto.

Jornal do Sudoeste: Foi então que decidiu pelo magistério?
Elenir Novaes: Sim, mas foi o nível médio porque eu não tinha condições de fazer faculdade.  Nesse meio tempo surgiu um projeto do Governo Federal de formação continuada que tinha alguns critérios a ser seguidos: tinha que ser efetivo, depois que terminasse não poderia abandonar, respeitando um contrato de seis anos e foi assim que fiz o magistério normal/superior. A partir daí, as coisas foram se ajeitando e não parei mais de estudar. Fiz três pós-graduações: em gestão educacional; supervisão, orientação e inspeção e, agora, estou finalizando psicopedago-gia institucional e clínica.

Jornal do Sudoeste: Como foi sua primeira experiência como professora?
Elenir Novaes: Como minha mãe era professora, eu estava sempre antenada no que acontecia na Educação do município. Ainda não tinha me formado, mas aos 15 anos fiz inscrição para professora substituta. Entre os 16 e 17 a secretária de Educação da época, Maria de Lourdes Dizaró, mandou me chamar e me ofereceu uma vaga em uma sala multisseriada do município e aceitei, precisava trabalhar. Naquele tempo a aula começava  as 7h30 e ia até às 15. Eu chegava em casa entre as 16h30 e 17h e 18h30 tinha que sair para ir fazer o magistério. Foi bem trabalhosa essa fase porque nos fins de semana não saia para poder fazer planos de aula. Desde então, não parei mais, até que em 1995 passei no concurso para professor do município e estou até hoje.

Jornal do Sudoeste: O perfil do aluno mudou muito desde então, não?
Elenir Novaes: Muito, mas acredito que a nossa postura enquanto professor tem se mantido firme. Esta geração de agora, a maior parte dela, depende de uma pessoa de referência, até mesmo para mostrar valores como respeito e ética. O professor de há alguns anos não precisava muito disto porque às crianças já vinham muito bem resolvidas de casa e entendiam a questão da hierarquia e do respeito, hoje muitos desses alunos nem fazem ideia do que é isto e nós temos que mostrar que tudo tem limite, você tem que trabalhar o respeito, o sentimento... é um papel a mais para o professor e faz parte da nossa formação: ajudar o ser humano a crescer.

Jornal do Sudoeste: Como surgiu a ideia do projeto “De cor e salteado”, que lhe rendeu o título de Educador Nota 10?
Elenir Novaes: No início do ano nós sempre fazemos uma atividade para traçar um diagnóstico do aluno para saber em qual nível de conhecimento eles estão, quais conceitos eles tinham que ter visto, se eles realmente estão fundamentados e se precisam de mais alguma coisa. Neste contexto, percebi que meus alunos estavam muito inseguros na resolução de problemas matemáticos. Eles viam a atividade e pensavam que somente havia uma maneira de resolver, por exemplo, por meio de uma conta armada, e ficavam tão focados nisto que não pensavam em outras estratégias e demonstravam o seus conhecimentos porque erravam o resultado. Pensei que o que eu deveria fazer era propor uma matemática que os fizessem refletir sobre o conteúdo ao invés de chegar com uma fórmula para eles repetirem sem compreender. O cálculo mental veio para isto, para eles mostrarem os conhecimentos e também para que saiba quais conhecimentos eu preciso garantir que eles venham a ter.

Jornal do Sudoeste: Isso mudou a realidade da sua turma de 3º ano?
Elenir Novaes: Com certeza. Quando comecei com esta proposta de valorizar as estratégias de cada aluno, uns, por exemplo, faziam contas pela decomposição, a partir de então começaram a perceber o valor do número, porque eu dava liberdade para eles agirem e criarem suas estratégias que eram próprias de cada um deles. Algumas estratégias eu não conseguia entender, e quando eles explicavam fazia muito sentido. Desta maneira, eles perceberam que matemática não era apenas decorar, sendo isto algo que facilita a resolução de um problema, mas não é condição para isto. Era o que eu queria: que eles valorizassem suas estratégias, divulgassem entre eles e que houvesse também o respeito, já que há aquele aluno que desvaloriza o outro que sabe menos – isto existe. Eu não queria que isso acontecesse por conta daqueles que tinham dificuldade de aprendizagem, queria que eles se sentissem parte do grupo e trabalhassem em conjunto.

Jornal do Sudoeste: Para aqueles que tinham dificuldade foi algo muito importante...
Elenir Novaes: Sim. Recebi uma homenagem e um dos meus alunos que tinha mais dificuldade começou a chorar e acredito que foi justamente porque ele se lembrou da dificuldade que tinha. É uma forma de motivar o aluno, porque cada um quer pensar na melhor maneira de explicar para o outro e deu resultado, mas foi tudo bem planejado neste sentido. Ainda há dificuldade, sim, mas eles sabem que podem tentar e que tem liberdade de expressar a maneira de pensar. No meu tempo não era assim, mesmo que o resultado fosse o correto, se a conta não fosse como a professora esperava, eu errava a questão. Enfrentei esse problema mesmo depois de adulta. Assim, aprendi a memorizar e repetir, e não é isto que eu queria para os meus alunos. A sociedade não pede um robô, ela pede um ser pensante, que atua, que consegue pensar em várias estratégias...

Jornal do Sudoeste: E como foi receber o reconhecimento por este trabalho?
Elenir Novaes: Foi surpreendente. A visibilidade que eu ganhei com este projeto começou em meados deste ano, quando a Fátima Bernardes anunciou em seu programa os dez vencedores do Educador Nota 10. De lá para cá, todo mundo começou a me perguntar sobre, já que temos uma relação muito boa com os pais e a equipe pedagógica do Campos do Amaral, da Secretaria Municipal de Educação e da Prefeitura. Além disto, o município nos dá muito respaldo para estas iniciativas. Não consigo parar desde então. Esta semana estive em São Paulo para participar da pre-miação: os 10 professores selecionados são os vencedores de todo Brasil e ainda havia outra premiação que somente nós participávamos; não deu para ser o educador do ano, mas fui a Educadora Nota 10.

Jornal do Sudoeste: Isto mostra o valor e a importância da educação no Brasil, não?
Elenir Novaes: Sim. Há aqueles que ainda não entenderam que a educação não é um gasto, é investimento. Hoje, a situação está muito complicada para o jovem, não há incentivo para tirá-los da rua. Meu sonho é ter um espaço para acolher esses meninos nesta idade crítica, principalmente os alunos com dificuldade de aprendizagem. É justamente por isto que estou estudando psicopedagogia, porque vejo que muitos desses meninos que estão fora da escola, porque desanimaram por não conseguir aprender; a maioria no EJA foi por isso, tirando aqueles que tiveram que realmente parar de estudar porque tinham que trabalhar para ajudar em casa.

Jornal do Sudoeste: Para o professor também é importante ser reconhecido...
Elenir Novaes: Falta mais representatividade para nossa classe às vezes. Percebo que nem todos estão preocupados com isto e você acaba sendo desvalorizado. Nós temos que honrar o magistério, não é fácil, você vive para a escola e os maridos sabem bem disto (risos). O meu me dá muito apoio e é por causa dele que eu tenho ido tão longe, ele me apoia muito. Mas não é fácil.

Jornal do Sudoeste: É nesta fase que você forma o cidadão como um indivíduo social e é ali que ele vai perceber a importância da educação, não?
Elenir Novaes: Sim. Este é o momento de plantar uma semente para que floresça lá na frente, porque eles vão sempre se lembrar de que são capazes de contribuir com a sociedade, independentemente das dificuldades. Vão aprender a ser resilientes, o que não temos visto muito já que as pessoas, diante da primeira dificuldade, desistem e ficam indo de um lado para o outro, o tempo vai passando e ele não contribuiu com um nada.

Jornal do Sudoeste: Já se imaginou fazendo outra coisa da vida?
Elenir Novaes: Não. Já pensei em trabalhar com organização de festa, quando me aposentasse. Amo planejar e acredito que esta seja uma característica do professor. Mas é só vontade. São 25 anos de carreira, nunca saí da sala de aula, mas já cheguei a trabalhar como tutora em um curso de formação continuada do Pacto Nacional da Educação para idade certa, onde trabalhava com outros professores e os ajudava a refletir sobre a questão pedagógica, foi uma fase diferenciada e minha experiência como professora ajudou muito.  Não sei fazer outra coisa a não ser ensinar, é o que me dá prazer.

Jornal do Sudoeste: Qual foi a maior dificuldade para você ao longo desses 25 anos de carreira?
Elenir Novaes: Foi conciliar carreira e maternidade, quando meu filho era pequeno. Eu trabalhava em escola de zona rural, então saía de casa não era nem 6h e voltava por volta das 14 ou 15h. Tinha que deixar meu filho com a minha mãe, não fosse ela me auxiliar neste momento e o apoio do marido e da minha família, de repete essa conciliação da vida profissional e pessoal não tivesse sido tranquila. Mas deu certo, hoje tenho um filho que se tornou um moço de bem e está muito satisfeito com a minha vitória.

Jornal do Sudoeste: Quais são seus próximos planos?
Elenir Novaes: Levar este projeto no Campos até o final do ano, que cresceu em todos os sentidos e precisa de novos desafios. Profissionalmente, recebi alguns convites, mas estou analisando, não sei o que fazer. Estou esperando esse cenário se desenvolver mais, porque até dezembro estou por conta do projeto no Campos. A Fundação Mais Educação vai continuar mantendo contato para saber como tem se desenvolvido o projeto e a Globo News deve vir ao município fazer uma reportagem sobre o projeto “De cor e salteado”. E em dezembro vamos à Brasília onde seremos homenageados.

Jornal do Sudoeste: Isto é muito importante para Paraíso, não?
Elenir Novaes: Sim. É bom para nós, para a cidade e para os professores, porque mostra que não há somente coisas negativas acontecendo, já que muitas das vezes o que é destacado na mídia é um deslize que um professor comete em uma hora ruim... nós também somos humanos e erramos. Às vezes se dá tanta atenção a fatos isolados e não enxergam toda uma vida de dedicação à educação para que essas crianças tenham uma oportunidade melhor em suas vidas através do conhecimento, somente o conhecimento transforma.

Jornal do Sudoeste: A Educação vale à pena...
Elenir Novaes: Sem dúvida. Temos que trazer à memória aquilo que dá esperança. Temos que lembrar que estamos ali para ajudar na formação do ser humano, é um propósito de vida. Não podemos desistir porque se você escolheu esta profissão, tem que se manter firme já que há muitos que dependem do seu agir. Diante de muitas dificuldades, às vezes nos questionamos o porquê estamos fazendo isto, mas aprendi desde cedo com a minha mãe que devemos nos deitar com a consciência tranquila de que fizemos de tudo com aquilo que tínhamos nas mãos naquele momento. Às vezes ficamos angustiados porque não conseguimos ajudar a todos, não conseguimos ir além, porque ficamos dependendo de outros, mas não podemos perder a esperança. Não podemos falar de educação sem essa utopia, de que vai melhorar. Você não pode perder o seu alvo: que não é dá as respostas, mas oferecer as melhores perguntas e fazer aquele aluno pensar e conhecer, conhecimento não ocupa o espaço.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz desses 44 anos bem vividos e 25 anos de profissão?
Elenir Novaes: Meu marido diz muito isto e eu repito sempre, a palavra tem sido gratidão. Gratidão é a memória do coração. Nesses 44 anos de vida e 25 de carreira, agradeço a Deus por me dar sabedoria e a tranquilidade de enfrentar os obstáculos sem desistir; também agradeço, principalmente, a minha família, que me apoia muito. Minha mãe e meu pai souberam criar uma família que anda em união; o meu esposo também é uma bênção e me apoia e incentiva em tudo o que eu faço; ele entende mais de informática que eu e me ajuda muito quando preciso, todo este apoio foi fundamental para que eu vencesse. É difícil citar nomes, porque muitas pessoas me ajudaram ao longo dessa trajetória, então minha gratidão é eterna e vai a todos os cantos por onde passei. Ao longo desta trajetória, sempre encontrei pessoas boas e que colaboraram e me ajudaram muito. A reflexão que eu trago disto tudo é que não posso desistir. A esperança precisa se manter firme, independente da circunstância, e tenho que ter confiança de que tudo tem o seu tempo e vêm na hora certa.