PARAÍSO 197 ANOS

A minha viagem até Paraíso

Por: Redação | Categoria: Cidades | 28-10-2018 16:13 | 54
Foto de Reprodução

Ivan Maldi

Ontem me lembrei de antigas viagens que fazíamos de trem. Talvez eu estivesse neste momento, fazendo as mesmas viagens através da memória, coisa fantástica que a mente nos permite percorrer com tamanha exatidão.

Ainda sinto o cheiro de mato verde, que entrava através da janela, e vinha ao meu encontro de maneira bem suave. A delicadeza da brisa é encantadora e gera um contentamento enorme em mim. 

No trem partiam muitas pessoas, era fantástico andar entre os vagões e conhece-las. O diálogo com quem estava do lado era muito agradável.

O trem saia de Pratápolis e logo chegava a São Sebastião do Paraíso, e os outros passageiros continuavam viagem até Campinas, e depois de baldeação, seguiam até São Paulo, capital.

A calma do trem nos convidava a contemplar a vista, a paisagem e a estabelecer um simpático diálogo com quem sentava ao nosso lado. Fazíamos grandes amigos.

Tínhamos os elegantes assentos de madeira ou almofadados. Sentia no ar o cheiro do pão com mortadela, o lanche do momento e, como este supria a nossa fome.

Nós descíamos em São Sebastião do Paraíso com o final da nossa viagem. Nesta encantadora e bela cidade, repleta de belos e coloridos ipês.

Assistíamos no cinema os grandes sucessos do momento. Ficávamos com os braços cruzados a fim de que nossas mãos se encontrassem discretamente. Em um suave encontro mais que acolhedor. A parte negativa era quando tínhamos que soltar as mãos, quando a luz acendia com o arrebentar da fita, que rompia de tanto o filme passar de cidade em cidade, devido seu uso e desgaste.

Foi um tempo de encanto, encontros e desencontros. Como tudo na vida.

Os bailes de carnaval no Clube Paraisense, na Liga Operária. O lança perfume até quando foi permitido,  era apenas para gelar ou refrescar a pele do calor.

Engraçado lembrar tudo isto, parece que foi há anos, décadas, mas a memória me refrescou tão bem, que lembro como se fosse ontem.

Parece que estou dentro do trem neste momento. A locomotiva apita e joga fumaça no ar. Nós acenamos na janela com alegria e despedindo das pessoas na estação da vida. O trem começa suavemente a andar...

Saudade, imensa saudade, que se pudesse, voltaria no tempo pra andar na praça para namorar. Paquerar era apenas olhar nos olhos e andar juntos. Andávamos em círculo na praça, os homens de um lado e as mulheres de outro. Sinto saudades da mesa posta e você disposta.

Lembro-me da Maria no auge de sua juventude, era uma moça encantadora, tinha um “corpão”, e, quando passava, os moços assobiavam de tão bonita.

Gostávamos de ouvir os seresteiros.

Tudo na vida passa. E nós fomos passageiros dessa história. O trem deslizou por nós e deixou lembranças que contamos com amor. Pois a vida é feita de momentos, situações que passam, então, devemos aproveita-la.

Ivan Maldi - membro da Academia Paraisense de Cultura