LITERATURA PARAISENSE:

Poeta Fábio Mirhib - Parte 3

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cultura | 07-11-2018 23:30 | 183
Foto de Reprodução

Uma leitura atenta dos livros de poesia de Fábio Mirhib - Goivos Negros, publicado em 1949, e Luzes Ocultas, publicado em 1959 – permite constatar a existência de duas fases bem diferenciadas em sua brilhante trajetória de produção poética. Pelo menos essa foi a minha percepção intuitiva de leitura. Ambas são acompanhadas com técnica primorosa, linguagem balizada pela norma culta e estilo romântico. A primeira das duas fases trata-se dos “primeiros poemas”, inspirados em paixões juvenis, outros dedicados aos seus queridos pais e aos seus amigos paraisenses de juventude. É comum encontrar nesses poemas, temas históricos, encenados na mitologia grega, usando linguagem bem mais clássica do que popular. Entretanto, na segunda fase aparece um autor mais próximo do leitor, mais filosófico, definindo sentimentos e grandes embates do ser humano, diante dos infortúnios da vida. Persiste a temática amorosa, mas transparece uma linguagem mais próxima do leitor comum.

Em 6 de fevereiro de 2010, aos 72 anos de idade, o grande poeta cumpriu sua travessia neste mundo. O corpo físico retornou à generosa terra e sua obra ficou no coração dos paraisenses. Na história cultural de São Sebastião do Paraíso ficou sua memória, como poeta brilhante, orador eloquente, advogado competente, compositor, locutor e, sobretudo, como todo ser humano, na luta pela sua plenitude de vida terrena. Aliás, o significa memória? Além das lembranças existentes no plano psicológico, no domínio da história, é tudo o que uma pessoa deixa de bom para as gerações posteriores. Por esse motivo, nossas reverências à memória do ilustre poeta paraisense de coração. A seguir transcrevemos extratos de sua produção.

Adeus
Fábio Mirhib

Oh Porto Alegre amada, adeus, vou indo
Joia do sul, adeus! Inda te avisto
Qual um sonho de amor... e tudo isto
Traduz-me o pranto em meu olhar caindo... 

Ei-lo, o Guaíba, sonolento e lindo
Qual do Amazonas a caudal, um misto
De ternura e de amor ...eu não resisto
De teus encantos ir-me despedindo...

Não te contemplo mais. Recordo agora
Um rosto adolescente em flor, a prenda
Por quem minha alma êxul suspira e chora... 

Deus meu do céu, calmai os prantos meus
Dai que eu bem possa ter uma oferenda
A esta cidade ama um verso – Adeus!

Prosa poética de Fábio Mirhib: 

“Bálsamo - Falaram-me de um bálsamo. Sabe-se que ele existe num horto desconhecido. Não seria onde florescem os sagrados lótus? Ou talvez onde as esperanças perdidas vão morrer em silêncio! Em vão experimentei o sabor das uvas dos teus lábios e tentei penetrar nos abismos de tua alma. Não! Bálsamo não existe! A sagrada mentira, no entanto, me atormenta. Tocai os címbalos! Espantai os albatrozes! Apagai as estrelas! Quero fechar meus olhos, sozinho, no deserto que imaginei. As águas não precisam de corvos para zombar de sua agonia. Inútil uma vela acesa nas mãos de um gênio moribundo. Seu olhar tem fogo sagrado, mas incande-scente.”

“Cicatrizes - Meu coração estava tão assinalado de cicatrizes que eu jurei nunca entregá-lo a ninguém. As palavras falsas que recebesse responderia com bofetadas na boca mentirosa. Entretanto, quando te conheci, não mais ocultei o covarde que sou. Sonhei outra vez, sorri outra vez, sofri outra vez e chorei outra vez. E acrescentei, sem protesto, mais uma cicatriz à coleção desmoraliza.”

“Amores - As rosas se amaram tanto que alguma, como prêmio desse sentimento nobre, receberam asas para que nascesse, também, a música dos beijos. Daí o aparecimento dos beija-flores. O bico dos beija-flores era um espinho que amou sonhando uma rosa desencarnada e divina. Foi a recompensa celeste para um amor impossível.”

Com a atual divulgação através das diferentes mídias proporcionadas internet, é possível destacar aqui mais um exemplo da trajetória de circulação do livro Luzes Ocultas. Um apreciador da poesia romântica, ao ler a referida obra, transcreveu uma belíssima mensagem contida numa das orelhas do livro, escrita pelo também ilustre poeta paraisense Noraldino Lima, que assim se expressou sobre a obra de Fábio Mirhib: “Escreva-nos mais ainda, jovem amigo das letras! Estarei sempre aqui na capital, vangloriando-me de que, em nossa querida terra, à qual ambos devotamos o mesmo amor, existem moços do seu quilate, capazes de criar algo impressionante e digno de representar a nossa cultura. Sinto-me feliz em pertencer a uma terra de poetas! “ Trata-se de um trecho de uma carta dirigida ao poeta cuja trajetória foi objeto desta sequência que escrevemos para registrar elementos históricos da literatura paraisense.