LITERATURA PARAISENSE:

Poeta Noraldino Lima - Parte 1

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cultura | 14-11-2018 22:24 | 2209
Noraldino Lima, poeta e político paraisense, interventor de Minas Gerais, em 1946
Noraldino Lima, poeta e político paraisense, interventor de Minas Gerais, em 1946 Foto de Reprodução

Noraldino de Souza Lima nasceu no dia 12 de janeiro de 1885. Filho de América Brasiliana do Souto Lima e Francisco Martimiano de Souza, um funcionário público que trabalhava como fiscal de fronteiras entre São Tomás de Aquino e o atual município de Patrocínio Paulista. Após frequentar a escola primária do professor Gedor Silveira, onde foi colega do também jovem poeta José da Matta, Noraldino exerceu o magistério primário, por pouco tempo, numa escola rural, na região onde seu pai trabalhava.

Despertou sua vocação para o mundo das belas letras, ainda nos primeiros anos escolares e deixou sua terra natal, em 1905, para estudar no Colégio Espírito Santo, na vizinha cidade de Monte Santo de Minas, dirigido pelo professor Américo Benício Paiva. Desde essa época, sonhava em alçar voos mais altos. Decidiu continuar os estudos numa cidade com melhores condições de acesso ao ensino superior. Ainda como estudante em Monte Santo, publicou seu primeiro livro de poesias, Albores, obra que mostrou seu domínio acurado da técnica literária e sublime inspiração poética.

Deixou o sudoeste mineiro para inscrever seu nome na história política e literária. Foi para Juiz de Fora, onde ingressou no Ginásio Granbery, dirigido por missionários norte-americanos da Igreja Metodista, onde concluiu o curso secundário. Dotado de inteligência diferenciada e sem ter nascido em berço de ouro, teve que trabalhar como inspetor de alunos, no referido estabelecimento, para manter os seus estudos. Nessa mesma instituição, pertenceu ao corpo docente e concluiu o curso superior de Farmácia, em 1907, quando conheceu sua futura esposa Dona Dejanira Vieira, colega de estudos e filha de tradicional família de políticos do Espírito Santo. Casou-se como ela, sendo o casal agraciado com dois filhos: Carlos Alberto e Paulo Augusto.

Quando estudou no Granbery, foi reconhecido como brilhante poeta e orador. Conquistou prêmios em concursos literários, participou do grêmio estudantil e foi redator de uma revista editada pelo corpo discente do estabelecimento. Concluiu o curso de Farmácia, em 1908, quando publicou seu segundo livro intitulado Meridionais. Dois anos depois, já casado, iniciou nova etapa de sua vida, transferindo-se para a capital do Estado. Ainda em 1910, iniciou o curso na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, e para ganhar a vida, exerceu o magistério no Colégio Isabela Hendrix e em outros colégios da capital. Antes de concluir o curso de direito, foi trabalhar na Secretaria de Finanças do Estado, sendo nomeado chefe do gabinete do secretário Teodomiro Carneiro Santiago. Para finalizar, relembrando um pouco de sua produção poética, transcrevemos abaixo dois sonetos de sua autoria.

Freira
Noraldino Lima

Com a mão pousada sobre o níveo seio
e orfando o seio sob a mão nevada
flôr de cera, estrangula-se no meio
de círios e cilícios ajoelhada. 
Há no seu todo o aspecto de quem veio
dessa que fulge além doce morada,
onde ela, entre a esperança, entre o receio,
tem a alma sofredora mergulhada. 

Reza, e a oração se vai, longe do mundo;
soluça, e no gemido cavo e rouco
palpita um drama que não tem segundo. 

Súbito treme, e se confunde, e cora...
É que lhe bate ainda no peito um pouco
do coração que ela deixou lá fora.

Penhasco
Noraldino Lima

No cimo agreste e nu desses velhos penhascos
Entrevistos no azul da abóbada solene,
Vem desfilando, há muito, a multidão infrene
Dos trovões à gandaia e da procela aos chascos.  

A pique sobre o mar são belicosos cascos
Da terra contra a vaga indômita e perene
Como que, no sopé granítico, sirene
Adormece o furor dos tubarões carrascos.  

Arremesso do caos, o retorcido tope
Vibra, na confusão de fanfarras e trilos,
Vendo passar-lhe em frente as eras, a galope... 

Rebentam, pelo oceano, as ondas uma a uma,
Os penhascos, porém, alteiam-se tranquilos
Os pés dentro da vaga e os píncaros na bruma.