ELY VIEITEZ LISBOA

Carta a cronos

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 17-11-2018 12:10 | 294
Foto de Reprodução

Pode ser uma ideia bizarra, escrever uma carta a Cronos. Primeiro, desconheço seu endereço. Depois, hoje não se usa mais escrever cartas. É época dos e-mails, das mensagens curtas. Como enviar o recado? E com que finalidade? É que realmente, amo escrever cartas e este senhor destinatário tem me preocupado demais.

Como explicar? Quando se é criança, ele custa a passar, a impressão é que o tempo se arrasta e demora muito a se ter dezoito anos e sermos donos de nossos narizes... A mocidade voa e de repente, descobrimos que já temos mais de quarenta, ou cinquenta anos... É um susto.

Na Mitologia Grega, Cronos devora seus filhos. É uma realidade.  O tempo rouba, destrói sua beleza, o frescor da pele, o brilho dos olhos. O corpo muda, com estranhas sinuosidades desagradáveis. O máximo que nos é permitido é não envelhecer a alma. Se isto acontecer, nada mais vale a pena

Na Internet,  há um pps com fotos de atores e atrizes famosos, há uns cinquenta anos e depois, hoje. Repare-se como a beleza é fugaz e como estão as deusas e os deuses do cinema, no passado e agora, no presente. É uma metamorfose às avessas, de borboletas a lagartas...

Quero contar-lhe um episódio banal.  Em uma dessas reuniões de antigos colegas de escola, logo na entrada, uma amiga querida tirou uma foto minha da bolsa e colocou-a na minha cara. Horror! Quem era aquela adolescente linda, os bastos cabelos no ombro, os olhos grandes, o belo sorriso? Tive ímpetos de pegar a foto e rasgá-la em mil pedaços. A outra vez foi também terrível. Há pouco tempo eu saía de uma palestra, quando uma senhorinha gentil, gordinha, de cabelos brancos, mostrou-me uma foto grande, minha, dizendo enternecida: Fui sua aluna, na Década de 60! Olhe que linda você era! Ouvindo o tempo verbal fatídico, o imperfeito do indicativo, vi meu rosto sorridente, o cabelo em uma trança linda, até o ombro, o corpo esbelto...

Ah, Cronos, o senhor é inexorável, não negocia, nada permite, a não ser que a alma permaneça sempre jovem (às vezes, porque isto também é uma conquista pessoal). Apenas alguém é mais forte que sua sentença fatídica: o AMOR. Quando se ama alguém, nossos olhos viram uma luneta mágica. Eles não veem o que o tempo desmanchou, massacrou. Os Amantes se olham e com ternura, continuam vendo à sua frente, os mesmos rostos de cinquenta, sessenta anos atrás. Às vezes até mais bonitos, com uma interna e mágica luz própria. Este é o magnífico milagre do AMOR!

 

(*)Ely Vieitez Lisboa é escritora.

E-mail: elyvieitez@uol.com.br