ELY VIEITEZ LISBOA

O gênero do conto

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 24-11-2018 14:43 | 378
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Tentar definir Conto, de maneira clássica e sim-ples, parece algo fácil: é a forma narrativa, em prosa, de menor extensão. Entre suas principais características estão a concisão, a precisão, a densidade, a unidade. O contista deve conseguir captar um mundo, todo um episódio em um texto mais ou menos curto. É interessante também que haja  personagens.

Estabelecer regras fixas para o Conto é algo fortuito. Machado de Assis, exímio contista, já escreveu contos bem longos, até divididos em capítulos. Rubem Fonseca, com seus livros fortes, tem um conto em forma de poema. Lygia Fagundes Telles é a figura maior do Conto brasileiro contemporâneo. Sua obra é conhecida até no exterior. Realçar Clarice Lispector contista é algo sobejamente conhecido. Poder-se-ia ainda citar a famosa criatividade de Guimarães Rosa, avesso a regras até na linguagem.

Em abril de 2004, foi lançado o livro “Os Cem Menores Contos Brasileiros” (Ateliê Editorial, São Paulo).  Em matéria de divulgação, pouco antes, o organizador da coletânea de “contos mínimos”, vaticinava: “Em literatura, hoje, é escrever cada vez menos”. Tal afirmação é meio falaciosa. Como explicar o grande sucesso das obras de Guimarães Rosa e/ou de Clarice Lispector, que nada têm de sucintas e curtas?

Alguns contistas da antologia conseguem sugerir uma trama interessante, com pouquíssimas palavras. A primeira frase do Evangelho de São João é analisada, no prólogo, como um conto: “No princípio era o Verbo”. Realmente esta frase (verso, início, tese, intróito) pode ser interpretada de vários modos. É o começo de tudo, o preâmbulo da Criação. Mas conceituar a assertiva como um conto é puro arrojo. Alguns dos pretensos contos são, na verdade, verdadeiras tiradas inteligentes que nos estimulam a criar.

Assim, o teórico de literatura muito apegado a conceitos e regras terá dificuldade de definir este ou aquele gênero. Na prosa, crônica, conto, narrativa ou romance, todos podem propiciar discussões. Como exemplo expressivo, cite-se o famoso romance de José de Alencar, Iracema. Pela sua cadência e ritmo, já foi chamado de poema em prosa.

A Literatura, os costumes e o próprio homem são algo vivo, dinâmico e de extrema complexidade. Estabelecer regras fixas e imutáveis para entender o ser humano e seu mundo é mera falácia, total perda de tempo.

(*)Ely Vieitez Lisboa  é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br