CRÔNICA JOEL CINTRA BORGES

Balduíno

Por: Joel Cintra Borges | Categoria: Cultura | 01-12-2018 12:40 | 36
Joel Cintra Borges
Joel Cintra Borges Foto de Reprodução

Papai era um grande contador de histórias. Embora direto, sem muitos rodeios e enfeites, penetrava com profundidade as nuances mais finas de cada situação. Também não era de mentiras, nem por brincadeira.

E quando o fato era engraçado, acompanhava a narrativa com aquele riso gostoso, que, embora econômico, parecia vir do fundo do coração. Eis um dos casos que ele gostava de contar.

Certa ocasião, quando mais novo, foi com um amigo até São Paulo. Cidade grande, movimentada, com os bondes elétricos e os carros “Ford de bigode”, que eram o suprassumo do grã-finismo da época.

E lá estavam os dois passeando pelo Viaduto do Chá, Praça da Sé, admirando as vitrines e certamente aquelas mulheres bonitas e tão diferentes da metrópole!

Nem precisavam dizer que eram do interior: as roupas contavam, bem como aquele jeito espantado, deslumbrado e desconfiado de mineiro na cidade grande!

Num momento em que se separaram, coisa de minutos, seu companheiro foi abordado por um malandro. Daqueles antigos e bem característicos, que não carregavam qualquer arma, a não ser uma conversa macia e insinuante e mil maneiras engenhosas de tomar uma carteira...

– Logo com quem esse homem foi se meter! – pensou papai, observando a cena e já com pena do gatuno. Porque ele falava com Balduíno, um homem alto e forte, Delegado de Polícia de Cássia, sudoeste mineiro, figura lendária pela coragem e frieza com que matava uma pessoa, o que não era raro naqueles tempos. Curioso, chegou mais perto para escutar a conversa.

– Pelo que vejo, o amigo é do interior. Dá até inveja na gente, que tem que viver no meio de bondes, jardineiras, automóveis e até espremidos por esse povaréu que anda sem parar pelas calçadas!

– Huum!

– Estou perguntando porque tive um amigo que se mudou, não sei bem se para Carmo da Cachoeira, Cachoeira dos Macucos, ou Itapecerica da Serra. Sempre faço confusão com esses nomes. Mas, ele se chama Antônio e usa um chapeuzinho meio de lado, será que o senhor não conhece?

Balduíno, que tinha entendido logo de início a situação, coçou a cabeça e ficou olhando para o homenzinho de terno claro, sapatos marrons com bicos brancos e chapéu Panamá. Coçou o queixo, como se estivesse pensando no que fazer. Enfim, resolveu responder, mas de uma forma que seu interlocutor nunca mais esqueceu:

– Talvez a pessoa que você procura seja esta aqui! – assim dizendo, abriu um pouco o paletó, o que deixou bem visível o cabo de um revólver 38, do qual nunca se separava.

Engolindo em seco e com os olhos esbugalhados, o homem de calças “boca-de-sino” afastou-se até misturar-se com a multidão. E simplesmente desapareceu.E ficaram os dois, dando boas gargalhadas, sem que os transeuntes soubessem por que...