ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 05-12-2018 21:45 | 99
Foto de Reprodução

Leitura
Lemos menos que chilenos e mexicanos. Da Argentina também sempre perdemos nesse quesito. O Brasil gasta mais com o ensino superior público do que inúmeros países ricos, o que não resolve o problema de nossa educação e deveria servir como alerta. Não dá para preocupar só com o topo da pirâmide sem cuidar de sua base. O ensino fundamental está repleto de cuidadores de crianças mimadas ou abandonadas pelos pais. Isso é puericultura, não pedagogia. O ensino médio não reprova e nem ensina, e em qualquer caso não instiga no jovem a aptidão para a leitura. Que advogados, médicos e engenheiros esses adolescentes irão ser? Com quatorze anos, adolescentes da minha geração liam Machado de Assis para fazer prova no colégio. Monteiro Lobato era lido nos primeiros anos de alfabetização. Hoje, esses autores são complicados e possuem uma linguagem inatingível para muitos jovens adultos provenientes de instituições de ensino públicas e privadas. Essa defasagem é tão óbvia que é gritada diariamente nos índices de evasão escolar e de falta de capacitação profissional. Quando a semente plantada é ruim, a árvore que dela surge é raquítica.

A farra das indenizações
Atenção.  Não estou fazendo apologia ao governo militar ou concordando com cassações e ditaduras quando digo que todo povo da história passa por períodos difíceis, por dificuldades e violência que deve sobrepujar, tornando-se mais forte. Portanto, natural que tenhamos percalços e sofrimentos ao longo da breve existência da nação brasileira. Não éramos, contudo, melhores antes dos governos militares, é bom que se diga. Vivíamos de quarteladas, repúblicas café-com-leite que disfarçavam votos de cabresto e um ditador “bonzinho”, Getúlio Vargas. O que quero dizer? Cassações, torturas e prisões durante a revolução (ou golpe) foram fatos questionáveis, mas superados pelas areias do tempo. Da dor nutrimos conhecimento. Não revanchismo. Estipular indenizações para jornalistas, artistas, agentes públicos, que padeceram de desvios institucionais e abuso de poder durante o regime de exceção é produzir outro tipo de injustiça à custa de dinheiro nosso, do povo. Considero correto indenizar quem sofreu dano, na medida de sua extensão e em valores razoáveis. Não é isso o que se vê: a Lei que cria os parâmetros indenizatórios pressupõe salários vitalícios do topo da carreira para indivíduos que foram cassados por poucos anos, para depois voltar ao exercício pleno de suas funções com o término da ditadura. No entanto, receberão salários vultosos para o resto da vida, estipulados conforme a presunção (errada) de que chegariam ao ápice do êxito profissional se não tivessem seu caminho truncado por desmandos militares.

Quem sofreu o quê?
O cantor Geraldo Azevedo sem querer deu o tom do que é a irresponsabilidade da classe artística ao manifestar sua opinião política publicamente. Afirmou em um show que foi torturado durante a ditadura militar pelo General Hamilton Mourão, vice presidente eleito e que incorpora a chapa recentemente vitoriosa de Jair Bolsonaro. Só um detalhe: quando esse fato supostamente ocorreu Mourão era um menino de 16 anos passando por exames admissionais no Colégio Militar. Geraldo Azevedo pediu desculpas inúteis, o estrago já estava feito. Se essa besteira foi detectada, imagine-se a quantidade de tantas outras que passam despercebidas diariamente na mídia. Ora, artistas consideram existencial ser de esquerda e os mais antigos reclamam de exílio e torturas. Eu já havia sido alertado por um amigo e oficial da reserva da época dos generais: tem muito famoso ativista político que jamais passou por um corretivo e que afirma em falso ter sido barbarizado nos porões do DOI- CODI. Não que isso não tenha ocorrido, mas é imperdoável que mintam para as novas gerações. A jornalista Miriam Leitão, também avessa à farra das indenizações aos excluídos políticos, afirma que no meio jornalístico – que ela então e até hoje representa – os profissionais de esquerda não eram tolhidos em seu sacerdócio pelo simples fato de que, se as empresas de informação e entretenimento utilizassem critérios ideológicos para contratar, não empregariam ninguém naquela época e não haveria quem colocasse em circulação os jornais.  Em pleno 1964 meu finado pai participou de uma passeata contra o regime militar de manhã, foi detido na hora do almoço e solto de tarde. Meu amigo artista, Heitor de Pedra Azul, fazia música e teatro de protesto em durante os governos dos generais e jamais lhe encostaram um dedo por isso. Como dizem no sertão mineiro, “muita calma nessa hora”. Sobretudo quando falseamos a verdade e iludimos gente sem instrução.

Perguntar não ofende
Se a direita suportou a esquerda por duas décadas, por que a esquerda não pode aturar a direita por, no mínimo, quatro anos?

O dito pelo não dito.
O mal-humorado é alguém sem imaginação” (Ruy Castro, jornalista e escritor brasileiro).