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Lucas Cândido: dedicado à pesquisa e à preservação das identidades culturais de Paraíso

“Se você não tem a educação como fio condutor, você não consegue nada”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 16-12-2018 22:42 | 1501
Lucas Cândido é pesquisador de festas populares, professor de História e integrante da Companhia de Reis Barreiro e Água Limpa e chefe do Departamento de Cultura em Paraíso
Lucas Cândido é pesquisador de festas populares, professor de História e integrante da Companhia de Reis Barreiro e Água Limpa e chefe do Departamento de Cultura em Paraíso Foto de Arquivo Pessoal

O professor de História e chefe do Departamento de Cultura de São Sebastião do Paraíso, Lucas Cândido de Oliveira, é um profissional que se dedica à pesquisa de festas populares e que entende a importância de se manter e perpetuar estas tradições. Lucas viveu na zona rural até os 16 anos, quando veio para Paraíso trabalhar e dar continuidade aos estudos, mas nunca deixou de manter ligações fortes com as tradições familiares, sempre muito devoto aos Santos Reis e a Santo Antônio. Desde pequeno integra a Companhia de Reis Barreiro e Água Limpa, onde é o Palhaço. Filho caçula do casal Roldão Cândido de Oliveira e Olanda Aparecida de Oliveira, irmão da Joice. Lucas está noivo da Marília e agora caminha para iniciar seu doutorado, seguindo a linha de pesquisa de festas populares e que, segundo destaca, são se suma importância para o município.   

J.S.: Você vem de uma origem “rural”. Como foi essa fase e seu processo de formação acadêmica?
L.C.O.: Fui criado no bairro rural Barreiro, próximo ao distrito de Termópolis, lá iniciei meus estudos no Grupo Escolar “José Caetano da Silva”. De lá, nos mudamos para a Itaguaba, onde estudei na Escola Municipal Ibrantina Amaral – que hoje funciona no Verona, mas tem origem na zona rural. Vivi na roça até meus 16 anos, onde ajudava meus pais nos serviços do campo. Depois disto vim para Paraíso, estudava na parte da manhã e fazia cursinho à noite, na Escola Estadual Clóvis Salgado. Com 17 anos passei na UNESP em Franca e nesta mesma época passei em um concurso da Prefeitura e fui efetivado. Assim, trabalhava aqui e a noite viajava para estudar. Formei-me em 2010 e depois fiz duas pós-graduações, uma em Ensino de História e Geografia e outra em História Cultura, após fiz mestrado em História Social, na PUC em São Paulo e agora estou caminhando para meu doutorado.

J.S.: Por que você decidiu estudar História, o que o motivou?
L.C.O.: Foi uma decisão que eu tomei quando estava do 7º ano do Ensino Fundamental. A História veio para mim de uma admiração pelos professores de História Osni Guerra e pela Silvia Mano. Eu achava o máximo a forma como o Osni dava aula porque ele ia contando a história e fazendo anotações no quadro e não consultava nenhum papel; isso me inspirou muito e decidi estudar História. No início meus pais foram um pouco reticentes enquanto esta decisão, meu pai queria que eu estudasse Medicina, mas naquela época, para meus pais, que eram muito simples, eles tinham essa ideia de que eu deveria estudar ou Medicina ou Direito. Direito, como eu não tinha muito conhecimento, acreditava que era apenas para tirar bandido da cadeia, não tinha a noção que tenho hoje de que é uma área muito ampla; talvez se fosse hoje, seria uma carreira que eu gostaria de seguir. Porém, como já tenho mestrado e estou caminhando para um doutorado em História, não sou de abandonar e vou continuar por este caminho. Nunca tive dúvida do que eu queria estudar e que seria na UNESP; na época meu pai disse que se eu não conseguisse, a gente dava um jeito, pagava a faculdade, mas não era o que eu queria e tudo deu certo: passei na primeira chamada da UNESP. Sempre fui muito católico e pedi muito para meu Santo Antônio e os Santos Reis.

J.S.: Foi uma fase difícil? Teve algum momento em que pensou em desistir?
L.C.O.: Eu morava na Wenceslau Brás e vinha trabalhar na Casa da Cultura a pé, não tinha carro na época. Aqui, no final do expediente, ia para o banheiro onde me arrumava porque não dava tempo de voltar em casa e pegava o ônibus aqui próximo. Foram quatro anos assim, ia estudar sem jantar e somente quando eu retornava é que eu jantava, tomava banho e ia dormir, mas nunca tive vontade de desistir. Agora, quando penso no doutorado, e no quando isso será cansativo, bate um desânimo, não pelo estudo, mas do desgaste que isso irá me causar, porém, acredito que nada é por acaso... não era algo que eu estava buscando, mas veio e vou seguir, fácil não vai ser, mas tomara que tenha um retorno futuramente.

J.S.: Por que ser professor, você quis estudar História para seguir este caminho?
L.C.O.: Sempre quis ser professor porque sempre acreditei na educação. Eu trago a educação para tudo na minha vida: para meu trabalho, sala de aula, relacionamento, para tudo. No meu ponto de vista, se você não tem a educação como fio condutor, você não consegue nada. A educação não é só ensinar, é ter a humildade de ouvir o outro e também aprender, seja com os erros ou acertos do próximo. Por meio da educação você consegue ir muito além, é um projeto de vida. Graças a Deus, na minha vida as portas sempre estiveram abertas. Acredito que é por meio da educação que transformamos o mundo, e não é uma educação apenas voltada para busca do conhecimento, mas uma educação que deve ser aplicada no dia a dia, nas relações com o próximo.

J.S.: Como surgiu essa oportunidade de trabalhar para a Prefeitura?
L.C.O.: Eu prestei concurso para agente administrativo, em 2007. Era mais de mil candidatos para 27 vagas. Passei e fui chamado, à época eu dava aula no Clóvis Salgado, porque assim que comecei a faculdade já comecei a pegar algumas aulas de substituição. Quando fui chamado, era para ser vinculado ao Pronto Socorro, mas como estudava História fui até ao RH e explique minha situação e que queria algo voltado para a Educação, mesmo não tendo que escolher. Assim fui conduzido para a Educação e posteriormente para o Museu. Durante três anos trabalhei no Museu e quando vagou o cargo de chefe do Departamento de Cultura fui convidado para assumir.

J.S.: Você também tem uma história com a Folia de Reis. Como começou isto?
L.C.O.: É uma história um pouco engraçada, porque sempre tive medo de palhaço, não gosto de ver. Todavia, fui me tornar justamente o palhaço da Companhia de Reis Barreiro e Água Limpa. Chega a ser incoerente. Porém, as máscaras de palhaço ainda me causam medo, é algum trauma de infância. Minha história com a Folia vem da vida toda porque meus pais sempre foram devotos dos Santos Reis e sempre receberam as companhias em casa. Então minha infância sempre teve essa relação com a Companhia e com a Festa Junina, porque meu pai também é devoto de Santo Antônio e reza terço há 68 anos. Assim foi minha infância e sempre gostei muito.

J.S.: E como você se tornou o Palhaço?
L.C.O.: Em 2001 um tio meu quis resgatar uma Companhia de Reis que existia no Barreiro, mas que ficou alguns anos parada. Em 2001 pedi para carregar a bandeira e meu pai autorizou. Confesso que gostava de carregar a bandeira porque geralmente as pessoas fazem promessa para carregá-la e eu ia à frente da Companhia sem fazer nada. Na época, faltava palhaço, e o fardamento passava de pessoa para pessoa e ninguém gostava desse papel por causa do desconforto por ser uma roupa quente e ter ainda uma máscara de couro. Em um final de ano na escola, na 4º série, fizemos uma apresentação de Folia de Reis eu me vesti de Palhaço; para isso tinha que falar o ABC, eu era o único que sabia. Recordo que em um jantar que teve na minha casa, os palhaços que ali estavam não sabiam recitar esse ABC e como eu tinha esse conhecimento, vesti a farda. Um dos foliões, o Gustavo Queiroz, me incentivo a permanecer, ele carregava a bandeira e eu vestia a farda; ele achou que deu certo e até hoje nunca exerci outra função dentro da Companhia que não fosse a do Palhaço. Eu não sabia fazer outra coisa, mas sabia recitar os versos decorados e também improvisar.

J.S.: Qual a importância de manter essas tradições vivas e de se ter esse registro?
L.C.O.: O mundo está em plena transformação, e a cultura popular não é estática, é dinâmica. Isso significa que você não consegue preservar um bem imaterial, no caso as festas, sem mudanças, essas vão acompanhando as transformações ao longo dos anos. Por exemplo, no último ano tinha chapéus de Congo com fita de led, isso há cinco anos era inimaginável.  Assim, observamos as transformações. Já quando falamos da preservação e do registro, a minha intenção que essa tradição permanecer da forma que era, isso é impossível, porque a festa popular é feita por pessoas e as pessoas mudam, mas é preservar o básico: no caso da Festa de Reis é a religiosidade, trazer a representação da visita dos Reis Magos às casas das pessoas; o que muda são os instrumentos musicais, o jeito de cantar, de estruturar os versos, a dança, mas a Bandeira e visitação não pode mudar. O mesmo acontece com o Congo: a única coisa que não pode mudar é a religiosidade com os santos padroeiros; o resto pode tudo mudar, mas o cerne dela, que é essa cultura negra, que já não é somente negra devido à miscigenação, permanece inalterada; a questão do batuque, o Congo não existe sem isso. Há também a questão de todas as outras religiões africanas, como Umbanda, o Candomblé e seus deuses. Isso não pode acabar e é o que representa o Congado.

J.S.: Corre o risco de essas tradições acabarem?
L.C.O.: Enquanto os mais velhos forem ensinando os mais jovens, nós teremos a continuidade da cultura popular, o dia que isso parar de acontecer é bem possível que acabe. Mas se analisarmos nossas festas, nossas crianças e mulheres estão sempre envolvidos. O Congo, por exemplo, não participavam mulheres e crianças, isso já mudou e essa aceitação é uma forma de preservar a festa. Por isso acredito que seja difícil acabar; temos pelo menos 20 Festas de Reis em Paraíso, é festa o ano todo; pode acontecer de acabar um grupo, mas acaba um e surge outro.

J.S.: Recentemente a Câmara Municipal prestou uma homenagem para as Companhias de Reis...
L.C.O.: Sim, precisamos elogiar a Câmara pela iniciativa porque as Festas de Reis são esquecidas pela população urbana por se tratar de uma festa de origem rural. Hoje, nessas transformações que acontecem temos a Festa de Reis urbana, mas ela é tradicionalmente rural, ao passo que o Congo não existe na roça por ser uma festa urbana.

J.S.: Fala-se muito em pouco investimento em cultura em Paraíso. Você enxerga desta forma?
L.C.O.: É uma questão complexa porque depende muito do que a pessoa entende por cultura. Muitas veem na Cultura um local para pegar dinheiro e encaram isso como apoio e incentivo. Todavia, há diversos grupos em Paraíso que não recebem um centavo da municipalidade, mas mesmo assim mantêm suas apresentações. A Cultura apoia com aquilo que ela pode, ou com som ou com estrutura e o espaço para a apresentação. O incentivo nós temos, mas não temos recursos financeiros. Uma fala tem que ser separada da outras: há apoio, mas não há recurso financeiro. Aqui na Casa da Cultura, por exemplo, o que poucas pessoas sabem é que cedemos o espaço para exposições artísticas, e diversos artistas paraisenses já fizeram suas exposições aqui. Esse é o apoio que podemos oferecer, mas ninguém vê isto, as pessoas estão acostumadas a enxergar o apoio vinculado ao dinheiro.

J.S.: Paraíso não tem um “calendário cultural”, como isso poderia ser resolvido?
L.C.O.: Essa é uma preocupação do Departamento de Cultura há muito tempo. Já programamos calendários diversas vezes, mas o problema principal é o cumprimento das datas. Se programamos um calendário, quando chega naquela data é preciso que ela seja cumprida, mas não é o que acontece. Já chegamos a programar alguns eventos e quando chegou no dia, a pessoa que estava marcado para aquela data simplesmente não apareceu ou desistiu da apresentação ou do evento na véspera. O calendário cultural do município nós conseguimos garantir, que são as Congadas e a festa do 1º de Maio, mas não posso garantir, por exemplo, o Carnaval dado à realidade financeira do município, mas pode ser que tenha. Então, a partir do momento que você coloca no papel, você tem um compromisso com a população que viu aquele calendário, e somos cobrados se não há cumprimento porque nós também fazemos a divulgação. Não tem muito tempo, nós chegamos a montar toda uma estrutura para um evento que aconteceria aqui na Casa da Cultura e os responsáveis não apareceram e não nos avisaram, é uma situação complicada.

J.S.: Você também deu aula no Ensino Superior. Como foi essa experiência?
L.C.O.: Até então eu só tinha dado aula em escolas estaduais, entre elas no Clóvis Salgado, Ana Cândida e Ditão, e também no Colégio Crescer, onde já estou há bastante tempo. Em todas essas escolas sempre fui muito bem recebido e nunca tive problema com alunos, sempre dei minhas aulas com muita qualidade, impenden-temente se é escola pública ou particular – porque eu faço aquilo que gosto, por amor a educação. Este ano foi a minha primeira experiência dando aula no Ensino Superior, surgiu essa oportunidade na UEMG/Passos e isto foi algo acrescentou muito na minha vida e me motivou a correr atrás do doutorado. Não acreditava que fosse conseguir entrar lá porque eu tinha apenas o mestrado e geralmente você concorre à vaga com pessoas doutoradas, ocorreu que acabou dando certo e fui chamado. Foi uma experiência muito positiva porque eu tive sorte com os alunos e com a faculdade e não me imaginava preparado para aquilo. Porém, tive um retorno muito positivo dos alunos porque você chegar, sem nunca ter feito aquilo antes e ser elogiado, é a melhor recompensa que eu poderia ter tido. O Ensino Superior foi um presente, poder ser orientador do TCC de alguns alunos  também foi outro presente, porque eu havia acabado de chegar.

J.S.: Professor não é bem valorizado. Como você lida com isto?
L.C.O.: Quem quer ser valorizado financeiramente deve buscar outra profissão. Agora, se você tem amor por aquilo que faz, que é a questão da educação, seja um educador. Você não precisa ser professor para ser um educador, há diversos campos, como a gestão escolar. Para mim não existe valorização maior do que fazer aquilo que você gosta e que você acredita.

J.S.: Qual o balanço que você faz da sua trajetória até aqui?
L.C.O.: Nesses 29 anos, não tive uma vida voltada para baladas, festas, shows ou vida social, foi uma vida voltada para a família, sempre valorizei a família, sempre fiz tudo com muito carinho, dedicação e tudo o que pego para fazer, faço com responsabilidade. São 29 anos bem vividos e que para a História não é nada, mas dentro de uma vida acadêmica e profissional, vi que tive uma progressão muito boa, muitas oportunidade que agradeço a Deus e ao trabalho do dia a dia.