ELY VIEITEZ LISBOA

O Monstrinho Edonhento

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 15-12-2018 13:29 | 312
Foto de Reprodução

Escrever para crianças é uma arte difícil, quase mágica. As crianças veem um mundo diferente daquele dos adultos. Elas criam, são encantadas. Movidas pela fantasia, tudo é possível. Os adultos acabam ficando cegos de lucidez. Viram matemática e lógica.

Há autores sábios que guardam o Eu infantil dentro de si e depois o transformam em livro. Emília é o Monteiro Lobato que não cresceu. Por isso ela é livre, não tem papas na língua, não obedece às regras nem às leis. Vale tudo no mundo da fantasia infantil.                                                                                                                                                                        

Produzir boa literatura infantil é, pois, algo dificílimo. É preciso haver uma dosagem exata de encantamento, com pitadas sutis de didática. Qualquer erro desanda a receita.

Um dia desses lembrei-me de uma obra infantil da década de 80: O Monstrinho Medonhento, de Mario Lago. Homem talentoso, ele deixou sua marca no teatro, no cinema, na literatura, na música e na televisão.  O compositor carioca foi letrista, ator, poeta, radialista. Com mais de duzentas músicas famosas, como Fracasso, Atire a Primeira Pedra, seu "Ai que Saudades da Amélia" é tão famoso que "Amélia" virou verbete no Aurélio: "Mulher que aceita toda sorte de privações   e/ou vexames, sem reclamar, por amor a seu homem". 

O Monstrinho Medonhento (1984) encanta até hoje, por sua atualidade. A história do Medonhento nasceu de uma pergunta feita por sua esposa: "Será que os filhos dos monstros não acham desagradável a profissão dos pais?". As elucubrações continuam: Quem é bom já nasce feito? Filho de Monstro é monstrinho? No século XVIII as teorias contraditórias de Rousseau e de Hobbes continuam sem resposta. Os questionamentos de Mário Lago também.

O livro é criativo, atraente, repleto de perguntas filosóficas, quase uma parábola. Realça-se a deliciosa onomástica das personagens: Medonhento era filho do seu Monstro Terrível e dona Monstra Perigosa. Moravam no palácio dos Horrores, na Monstrolândia. O Conselheiro do rei, Pega-Mata-Esfola, os padrinhos de Medonhento são a bruxa Gota-de-Veneno e o feiticeiro Pé-de-Fogo.

A história passa-se na Cidade dos Homens. Na trama central, de acordo com os pais, Medonhento é um acidente genético, um parto da montanha, às avessas. Tem voz de anjo e de flor. E quando vira gente, o lindo garoto Alfredo, quer salvar o mundo, com seu idealismo quixotesco. 

Mário Lago, com seu talento, é um Midas. Tudo que toca vira ouro.  O Monstrinho Medonhento é a prova disto, com sua temática atual detectando problemas vitais do Homem e do Universo.

(*)Ely Vieitez Lisboa  é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br