ELY VIEITEZ LISBOA

Contrato de Risco

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 22-12-2018 16:45 | 835
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Por que sofrer para a aprendizagem? Que cegueira é essa que acomete o ser humano, diante dos abismos?

A vida é uma escola perversa. Há regras inexorá-veis. Pouco se passa da experiência. O resto é tudo ao portador, na hora, ali no vivendo. Cada história é uma história, una, original, sem carbono. Ludibriaram o homem, presenteando-o com o livre arbítrio. Na verdade, suas opções têm mordaças implícitas e explicitas. O homem nasce e morre escravo da sociedade, da cultura, dos costumes, da família. Se age com uma pitada de originalidade, muda de trilha, descobre um atalho, vira ovelha negra, é um pária. Todos os seres humanos devem obedecer robotica-mente. A quem? Quem, o Grande Legislador?

Diante de quadro tão deprimente, os filhotes de homem sendo adestrados desde a tenra infância, qualquer chama de coragem, de originalidade, de ousadia, é apagada. Não se pode amar Prometeu, a lei é ser subserviente, subalterno, obediente. No entanto, há os que ousam. Benditos os que resolvem procurar veredas próprias, não se importando se acabam em impasses. Ébrios de coragem, eles se lançam apaixonados, creem na luta, alimentam sonhos. As batalhas belas são abismos, sempre vitórias de Pirro: paga-se caro demais. Parafraseando Guimarães Rosa, fazemos tudo para harmonizar as coisas aqui embaixo, todavia há alguém lá em cima brincando conosco. O axioma popular prega: Deus põe, o Diabo dispõe. Luta-se para tornar a vida mais lúcida, o mundo com sentido, mas tudo acaba em completo nonsense. Há uma dose de ironia nos desacertos? Por que sonho e realidade não se casam?

Muitas vezes nos cremos felizes. Depois se estraga a receita, o barco sempre faz água e o cúmulo maior do absurdo é, após toda a perda, pensa-se que poderia ter dado certo. Em um insight, fica-se racional, chegam as respostas. Por que sempre tarde demais? A tragédia dos erros humanos traz todas as soluções dos mais cruciantes problemas sempre com data vencida. Ai a vida já virou remédio falso, sem efeito, mero placebo.

O mundo é uma estranha Caixa de Pandora. Alguém a abre, surgem todos os males, mas o homem reincide no sonhar. Deve ser por causa da maldita esperança que sobra dentro do baú fatal. Contudo há certa beleza nesses seres bizarros, os humanos. Em sua feitura houve uma casual (ou deliberada?) pitada de pertinácia. E ele renasce, após dolorosas quedas. Tira (de onde?!) forças inesperadas e recomeça sua busca de infinito, a pedra filosofal da jamais encontrada felicidade.

(*)Ely Vieitez Lisboa  é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br