CRÔNICA JOEL CINTRA BORGES

O bem e o mal

Por: Joel Cintra Borges | Categoria: Cultura | 06-01-2019 21:23 | 420
Joel Cintra Borges
Joel Cintra Borges Foto de Reprodução

Não raras vezes, quando presto serviço em uma propriedade rural, tenho que ir à moradia do vaqueiro. E em muitas ocasiões encontro uma casa pequena e sorrisos grandes, na face do casal, com os filhinhos em volta, na sem-cerimônia dos pés descalços!

Oferecem um café e conversamos sobre as vacas, os bezerros, o tempo, as crianças... Tudo na maior tranquilidade. E ele não é dono da casa em que mora, nem da hortinha em que às vezes planta uns pés de alface, ou de couve!

Quando o trabalho exige mais tempo, almoço com o fazendeiro, e não raramente o ambiente é completamente outro: ele fala que a arroba do boi está com preço baixo, que o café está com má cotação no mercado internacional... O fim do mundo!

Nesses momentos, sempre me vem à mente a pergunta: quem é o rico; afinal de contas, o que mora na casa grande ou o que mora na casa pequena?

O bem e o mal a gente é que põe. A vida é como uma grande refeição, um lauto jantar, em que colocamos os temperos à vontade. Se pusermos muito sal, a comida vai ficar salgada, e ninguém aguenta comer. Se pusermos açúcar demais, até o doce fica doce demais! Dessa forma, é necessário habilidade no uso dos temperos.

Como na vida. Uma pessoa, ou um casal, pode ser imensamente feliz numa casa grande, com vários carros na garagem. Riqueza não faz mal a ninguém. Nem pobreza: se a família ganha o suficiente para viver de forma digna e coloca um tempero chamado felicidade em sua vida, vive tão bem como seus vizinhos milionários!

Certa vez, descendo o Rio Araguaia, na divisa de Goiás com Mato Grosso, vi uns ranchos cobertos de folhas de palmeira à margem do rio. Paramos um pouco para descansar e eu peguei algum dinheiro, porque pensei que ia encontrar gente muito pobre. Ledo engano! Em um ranchão de madeira, vi um fogão de lenha com grandes panelas no fogo, com comida fumegante e cheirosa; travei contato com uma gente simples e hospitaleira, de sorriso aberto, e também moças e moços bonitos e alegres... Mais que depressa, guardei meu dinheirinho. Eles tinham mais que eu!