CRÔNICA JOEL CINTRA BORGES

Os milhões da loteria

Por: Joel Cintra Borges | Categoria: Cultura | 19-01-2019 12:11 | 2273
Joel Cintra Borges
Joel Cintra Borges Foto de Reprodução

Quase todo mundo sonha com acertar em algum tipo de loteria, ganhar milhões, ficar rico, mas muito rico mesmo! E comprar carros, casas, fazendas, passear muito, encontrar, enfim, a tão sonhada felicidade.

Mas, será que essa reviravolta no destino, essa riqueza repentina, nos faria realmente felizes? Será que teríamos estrutura, psíquica e moral, para passarmos de proletários (ou classe média), a milionários, sem perigosas rachaduras em nossa personalidade?

Um trabalho sério é movido por dois fatores: vocação e precisão. Se não houvesse a necessidade, pouquíssimos de nós acordaríamos cedo para realizar tarefas que, ao fim do dia, relembramos com orgulho, esse orgulho sadio de sermos uma peça, ainda que pequenina, na engrenagem do Universo. É bem possível que, pouco a pouco, nos tornássemos preguiçosos e, passados os primeiros tempos de deslumbramento, sentíssemos o peso de nossa inutilidade e a angústia da hora vazia.

Há outro fator muito importante a ser considerado: necessitamos de praticamente metade de nossa vida para adquirir determinado conhecimento profissional, o qual (independentemente do status que tenha na sociedade) nos torna úteis e valiosos no meio em que vivemos. E de repente esse cabedal que nos custou tanto esforço é posto de lado, é esquecido. Ninguém nos chama mais para prestar serviços!

E no ângulo ético, no capítulo da moralidade, como seria a mudança? Difícil avaliar, pois não sabemos como realmente somos. O “Conhece-te a ti mesmo”, encontrado no Templo de Delfos, na Grécia, e popularizado por Sócrates, não é tarefa fácil de ser realizada. Entretanto, por nossas tendências podemos avaliar o que mora em nosso íntimo. Na maioria das vezes, a humildade, a constância, a moderação, necessárias na nossa atual situação econômica, serão trocadas pela prepotência, volubilidade e vícios, diante do falso brilho de uma polpuda conta-corrente! Será que conhecemos a fera que dorme em nosso peito?

O desejo de progresso é muito natural. Uma ambição saudável faz a pessoa esforçar-se mais, crescer em todos os sentidos, o que a torna mais feliz e até mais útil aos que a rodeiam. É muito justa também a busca de mais conforto, melhores condições de vida e de trabalho. O que não deve ser confundido com a ânsia de fortuna a qualquer preço.