ELY VIEITEZ LISBOA

O depósito dos sonhos falidos

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 19-01-2019 09:13 | 784
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Há muitas teorias que tentam explicar alguns mistérios do homem e do universo. O tempo cronológico, o da figura mitológica de Cronos, que devora seus filhos e o tempo psicológico, procedimento literário que ameniza a inexorabilidade deste tirano. Ora, o passado já se foi, o presente não existe, porque no momento em que ele parece acontecer, em um átimo já é passado. O futuro são hipóteses. É bom pensar na possibilidade de um tempo mítico, circular, passado, presente e futuro sempre, juntos, no eterno sendo.

Dentre as teorias, penso em uma outra. Há um Depósito para os Sonhos Falidos. Deve haver. Para onde vão eles então? São centenas, milhares, um número infinito. E lá haverá, com certeza, repartições: o andar dos amores não realizados, uma área especial para as paixões que se deterioraram. Departamento das traições, das infidelidades, das agressões físicas e psicológicas. Um lugar enorme para as concessões que minam os grandes ideais, deixando-os mirrados e ínfimos. Arquivos para tragédias inesperadas, mortes, suicídios, separações indesejadas. Um átrio tíbio e cinzento, como um purgatório: vão para lá as fantasias ingênuas, que mal afloraram e os amores platônicos. Há fichas desbotadas catalogando todo tipo de desencontros que misturam caminhos, abrem atalhos errados, desunem mãos que deveriam ficar sempre juntas. Pilhas de hipocrisias, mentiras, adultério, falsidade e inveja. Um quarto fechado, à prova de sons, para o ódio, que também existe e é até parente do amor. Uma sala pálida e fria das desilusões, do tédio. Amontoadas em um canto, empoeiradas, cheias de pátina do tempo, tanto elas são antigas; ali estão as mágoas, os desentendimentos, os desacertos. Lá atrás, um grande pátio para os mornos, os tíbios, os que não sabem amar nem odiar, que pensam ser a vida um caminho insulso, uma flor descorada e inodora.

É a poder de muitas lágrimas (que também podem ser batizadas de experiência) que se descobre tal Depósito. Pessoas ingênuas, às vezes até acham que é sabedoria, mas para encontrá-lo basta fazer uma meditação profunda, fechar para balanço. Analisando-se o passado, o resultado de todo mundo é mais ou menos o mesmo: cinco por cento de felicidade, noventa e cinco de tristeza, algumas realizações, dezenas de frustrações. Todos se sentem roubados (por quem?) e preocupam-se com sonhos falidos, que não se realizaram, areia fina que escapou pelos vãos dos dedos. O rascunho esboçado jamais foi passado a limpo. Tudo que se sonhou ficou longe da realidade: filhos, profissão, ideais. O amor eterno virou quimera, a Morte sempre visitando no inesperado, cedo demais, traições, hipocrisias, golpes baixos. Desânimo. A sensação é que se vive em planeta errado, em um barco à deriva em um mar enlouquecido.

Todavia o ser humano é de uma essência bizarra. Diante desse processo insano consegue ainda ver a beleza das flores coloridas. Percebe que outros seres humanos sorriem diante de momentos de ternura, pequenas conquistas que sublimam dores, pensam feridas, amenizam cicatrizes. Raras amizades cálidas adoçam os sofrimentos.

Enfim, se possível for visitar o Depósito de Sonhos Falidos, poder-se-á vê-lo, talvez, com outros olhos, entendê-lo. À sua frente, bela, plácida, diáfana, doce, ELA sorri, ELA que tudo explica: A ESPERANÇA.

(*)Ely Vieitez Lisboa  é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br