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Vinícius Zamó: Trabalhando em prol do próximo apesar das dificuldades

Todo mundo tem direito, mas para cada direito há um dever social
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 20-01-2019 08:13 | 7098
O delegado de Polícia, Vinícius Zamó, está em Paraíso há seis anos e pretende se aposentar
O delegado de Polícia, Vinícius Zamó, está em Paraíso há seis anos e pretende se aposentar Foto de Arquivo Pessoal

O delegado da Polícia Civil em São Sebastião do Paraíso, Vinícius Zamó, conheceu Paraíso quando passava pelo município para ir a Belo Horizonte, onde fazia a Academia de Polícia. Era uma cidade tranquila e que ele desejava morar por ser próximo da sua terra natal, Araraquara (SP). Os planos foram adiados para mais tarde, e, em dezembro 2012, chegou a Paraíso, onde passou a desenvolver seu trabalho e fazer o melhor para a população mesmo diante das dificuldade enfrentadas pela delegacia do município. Sempre pesaroso pela situação da Polícia Civil, ela lamenta não poder fazer muito mais aos munícipes desta terra que, segundo ele, pretender criar seu filho e se aposentar. Casado, pai de um menino de três anos, Zamó é filho mais velho do casal Carlos Renato Zamó (in memorian), que também foi delegado de polícia, e Ivanil Santina de Oliveira Zamó. É receptivo, como sempre quando é procurado pela reportagem do Jornal do Sudoeste, que Vinícius Zamó conta um pouco da sua trajetória na polícia e da dura rotina vivida por um delegado.

Jornal do Sudoeste: Como foi sua formação?
Vinícius Zamó: Minha formação inicial é como programador. Quando eu fiz o segundo grau, já fiz um técnico voltado para a área de informática, na minha época podíamos fazer isso, hoje não sei se ainda existe. A minha vontade era entrar para a área de Sistema de Informação, que era algo que eu gostava muito. Porém, ao terminar o curso técnico, descobri que não era o que eu queria e como meu pai estudou Direito, assim como mais da metade da minha família, o que era praticamente uma tradição, acabei indo para o Direito e gostando muito daquilo. Eu achava fácil, isso porque quem estuda programação e começa a ver algoritmos e matemática aplicada, quando você sai disso e se depara apenas com textos e interpretação, é muito fácil. 

Jornal do Sudoeste: Você pretendia ser delegado?
Vinícius Zamó: Meu pai foi delegado, mas deixou o cargo em meados de 1980, ele nunca gostou da profissão. Eu digo que a carreira me escolheu, porque também nunca foi um desejo meu ser delegado; dizem que é o concurso que escolhe o candidato e não o candidato que escolhe o concurso. No segundo ano prestei concurso para ser estagiário do Ministério Público, isso nos idos de 1999, e passei. Passei a gostar muito do Direito e nesta época meu pai era auditor concursado da Receita Federal – ele sempre foi concursado. Inicialmente ele foi investigador, passou a delegado, não gostou da área e se tornou auditor da Receita. Continuei estudando até me formar em 2004. Formei com a pretensão de entrar no Ministério Público, o que hoje também não quero e nem passa pela minha cabeça. A época que eu era estagiário o MP era uma instituição linda, voltada realmente para o bem e hoje percebo que é uma instituição que só pensa nela mesma.  Não a vejo da mesma forma de quanto eu era estagiário e acredito que se eu tivesse entrado lá teria brigado muito. Porém, eu amava o estágio, trabalhava com a área do meio ambiente, cidadania, análise de gastos e desvios de dinheiro público, isso há 15 anos. Era a minha pretensão.

Jornal do Sudoeste: E o que mudou?
Vinícius Zamó: O falecimento do meu pai, em 2005. Eu era muito apegado a ele. Quando ele veio a falecer eu já estava em um estágio bem avançado em vários concursos que estava prestando, entre ele o MP do estado de Rondônia e na Defensoria Pública em São Paulo, mas nunca quis polícia, não era minha área, mesmo porque meu pai nunca me aconselhou a seguir esta profissão. Todavia, com o falecimento dele passei a enfrentar muito problema com ansiedade e aconteceram coisas que transformaram a minha vida em um inferno. Nunca gostei de ser alguém que dependia de pai e mãe e sempre corri atrás do meu e sempre me virei. Diante disto, continuei prestando concurso, estava indo bem, mas tudo virou de ponta cabeça, acredito que tenha sido por conta de toda essa situação vivida, não passava em concurso e não sabia o que faria. Meu pai tinha falecido, eu não tinha dinheiro para pagar cursinho para prestar os concursos e então tive que dar meus pulos e estudar por conta própria. Foram dois anos de muita dificuldade e então decidi prestar concurso para delegado em Minas e São Paulo, acabei sendo aprovado nos dois, mas também para o MP de São Paulo, Pernambuco e de Minas Gerais. Estava indo para a segunda fase nesses cinco concursos, acabou que não passei no MP, e me voltei para os concursos para delegado, sendo aprovado para o cargo aqui em Minas. Então decidi ir para João Pinheiro.

Jornal do Sudoeste: Foi um começo difícil?
Vinícius Zamó: Sim. Foi uma delegacia muito complicada. João Pinheiro fica no Noroeste de Minas e fomos para lá porque meu sogro tinha uma propriedade naquela região, então teríamos casa para morar e isso facilitava as coisas. Quando comecei, já passei a gostar do trabalho, é um trabalho dinâmico, de justiça, mas é cansativo porque você faz papel de psicólogo, de médico e etc. e você tem que conhecer de tudo um pouco para desenvolver o seu trabalho. Nunca quis ser delegado, mas acabei gostando ao conhecer todas as instituições. Porém, aquela delegacia me sugava completamente, porque eu era sozinho, tinha que dar conta de uma cidade de 80 mil, mas não apenas essa cidade, também respondia por Braslândia de Minas e Vazante, somando era quase 200 mil habitantes para apenas um delegado à disposição 24h por dia. Em 2011 eu pedi para sair, porque não aguentava mais. Trabalhei muito e cheguei a ter muito problema de saúde.

Jornal do Sudoeste: é uma profissão que deveria ser mais valorizada?
Vinícius Zamó: Sem dúvida. É uma profissão que deveria ser mais valorizada pelo Estado, não somente a Civil, mas a Militar também. Existe sim um repúdio da população quando se fala em polícia, porque nós só somos bons quando há a necessidade dela, fora isso somos muito hostilizados, tidos como austeros, brutos e não é bem assim. Aqui nós enfrentamos de tudo o que você pensar. Deveríamos valorizar demais o delegado de polícia, não apenas o diretor de uma delegacia, mas também àquele que preside uma investigação policial. Não falo apenas de questões financeiras, mas em tudo. Financeiramente acredito que ganho menos do que eu merecia – e não acho que ganho pouco, porém outras profissões recebem muito mais e trabalham muito menos, nós trabalhamos 24h por dia.

Jornal do Sudoeste: Como surgiu Paraíso nessa história?
Vinícius Zamó: Sou natural de Araraquara e meu caminho para ir a Belo Horizonte para fazer a Academia de Polícia era Paraíso. Gostava daqui, achava uma cidade tranquila, perto da minha cidade e decidi me estabelecer aqui, é uma escolha que eu deveria ter feito antes, mas como não ganhava o suficiente, tinha medo de não conseguir sustentar a família. Depois disto acabou tudo dando certo e quando meu antigo chefe, o doutor Ramon Tadeu Bucci, já aposentado, disse que eu poderia escolher, então disse que eu viria para Paraíso e ele cumpriu sua palavra e vim para cá, em dezembro de 2012.

Jornal do Sudoeste: O que mudou nesses seis anos?
Vinícius Zamó: Paraíso cresceu muito durante esse tempo que estou aqui. É uma cidade muito boa, uma população muito boa. Digo que aqui vocês não são mineiros, são paulistas, assim como em Juiz de Fora, no Vale do Aço, são as características do povo carioca que predomina. No Norte e Noroeste é muito diferente. Cada região tem suas peculiaridades. Acabei gostando muito daqui, por ser perto da minha mãe, e acabamos criando um círculo de amizade muito bacana eu e os outros delegados; não somos apenas colegas de trabalho, mas nos tornamos uma família, trabalhamos juntos, convivemos juntos, nossos filhos convivem juntos e um cuida do outro. Gosto demais de Paraíso e não pretendo ir embora. Vim para aposentar e aqui criei laços.

Jornal do Sudoeste: O que falta para a delegacia de Paraíso?
Vinícius Zamó: Desde que vim para Paraíso perdemos mais de 15 investigadores e seis escrivães sem reposição nenhuma. Em termos de delegados até que estamos bem, hoje somos em seis na regional que atende no município; eu até daria conta de fazer muito mais do que eu faço se houvesse uma distribuição de pessoas para me ajudar. Hoje faço todo o trâmite, do começo da investigação a conclusão do inquérito, praticamente  sozinho. Se cada delegado tivesse quatro investigadores, dois escrivães, seria outro nível de prestação de serviços. É terrível receber uma vítima na delegacia e não ter como dar o suporte devido a ela; isso me corrói por dentro, não ter o suporte estatal que a vítima precisa. Outra situação que me deixa muito arrasado e ter uma vítima que precisa ser necropsiada e ter que mandar esse corpo para Formiga ou outras regiões  - é o cúmulo do absurdo ver a família passar por essa situação e ainda ter que gastar do próprio bolso por um serviço que o estado deveria prestar. A população também tem que reagir e entender que a PC não somente prende bandido, mas presta diversos outros serviços. Precisamos de investimentos urgentes porque se nós sucumbirmos, a população também sucumbe. A Polícia Militar em Paraíso também faz um belo trabalho e a população tem que elogiar demais esses meninos; claro que toda família tem os seus problemas, mas são educados e são austeros quando precisam ser.

Jornal do Sudoeste: Mas você tem feito o possível...
Vinícius Zamó: No que é possível, venho buscando fazer o meu melhor, mas se tivéssemos mais estrutura, apoio da sociedade como um todo, teríamos uma polícia muito melhor. Hoje a Polícia Civil sucumbe e isso é uma pretensão estatal: nós temos que morrer, desaparecer, para sempre garantir a impunidade dos maiores. A Polícia Civil e Polícia Militar hoje têm como foco trabalhar só com a periferia, e não é esse nosso foco. Assim como a Polícia Federal realiza um trabalho prendendo esses criminosos do colarinho branco, também é um trabalho da Policia Civil. Mas há um escudo que precisa ser quebrado. Nós temos esperança no novo governo, não no estatal, mas no federal. Esperamos que esse governo venha para dar respaldo para a segurança pública e nos dê amparo para trabalhar. Estamos esperançosos.

Jornal do Sudoeste: Hoje parece que a justiça é muito permissiva; prende um criminoso num dia e no outro ele está na rua. Isso o desanima?
Vinícius Zamó: Não, tenho consciência de que fiz o meu trabalho; se o juiz colocou esse criminoso na rua, perante a sociedade e minha consciência, estou muito tranquilo. Um caso recente: identificamos dois indivíduos que estão assaltando a cidade inteira, armados, pedimos a prisão, mas a Justiça indeferiu o pedido por “não haver necessidade”. Há situações que desanimam um pouco como, por exemplo, um caso onde pedi a prisão preventiva do suspeito sabendo que ele poderia matar outra pessoa, a justiça negou e ele cometeu o homicídio, só então a justiça autorizou a prisão dele, mas uma vida foi perdida.

Jornal do Sudoeste: Você acha que a educação é uma forma de combater o crime?
Vinícius Zamó: Acredito que o problema do brasileiro não é a educação, mas sim algo que faz parte da nossa essência, é o jeitinho brasileiro. Acredito que a escola precisa repensar o modelo de condução que tem pregado a “liberdade”, mas para mim isso é libertinagem. O indivíduo aprende muito sobre seus direitos, mas esquece que para cada um dele há um dever. Ninguém que chega aqui ergue o brado do dever, mas apenas o brado do direito. É o que precisamos melhorar na educação: todo mundo tem direito, mas para cada direito tem um dever social. Atualmente é liberdade disso, daquilo, daquilo outro, no meu ponto de vista, é o que vai afundar o Brasil.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você da profissão durante esses seis anos?
Vinícius Zamó: A polícia, em termos estruturais, está horrível; em termos sociais, temos visto o crime violento crescer, somente o crime violento,  embora Paraíso sempre tenha sido cotada com uma das cidades com melhores índices de crime violento do Estado e a gente ainda o é: no último ano fechamos com apenas uma tentativa de homicídio, o que para uma cidade com quase 70 mil habitantes é maravilhoso. Ainda há um grande problema no que se diz respeito ao roubo, que pode estar ligado a duas vertentes: a primeira delas é a falta de presença estatal no que diz respeito a geração de emprego; a segunda é repressão grave no crime de tráfico, isso porque eles precisam suprir aqueles valores com alguma coisa, é quando há o aumento dos roubos. São duas vertentes que precisamos trabalhar: a ausência estatal e a repressão ao tráfico. Não trabalho nessa área, mas vejo que é um problema que está em ascendência no que tange crime violento contra patrimônio, mas no que tange a vida, estamos tranquilos e aqui continua um Paraíso.  Furto também é um problema: há uma incidência de 60 furtos em média por mês, cuja apuração é pequena e isso se dá a falta de estrutura da polícia: como apuramos 60 casos de furto por mês? É humanamente impossível e às vezes sentimos vergonha por não conseguir atender a esta demanda e somos muito cobrados.

Jornal do Sudoeste: E qual o balanço da vida?
Vinícius Zamó: A saúde acaba sendo afetada pela profissão e todos nós, à frente das delegacias, acabamos sofrendo com problemas de ansiedade, culpa dessa vida ligada nos 220 volts 24 horas por dia. Isso é algo que ninguém vê, não sabem como é nossa vida. Vivemos a base de cobrança, não temos apoio de ninguém, inclusive da população, porque às vezes você está em um caso que precisa de uma testemunha e tem que brigar para isso. Falta muito apoio social, até mesmo pelo desconhecimento do que é a Polícia Civil. Nesses anos todos de polícia o que mais me chateou é a fama de “corrupto”, apesar da sua idoneidade. Tive que trabalhar muito psicologicamente por causa disto, porque sempre vivi dignamente, mesmo antes de ser policial; nunca tive problema em zelar pela minha honradez no que tange a ser uma pessoa honesta e quando entrei para a polícia tive que lutar contra acusações falsas, o que me chateou demais e ainda me magoa muito: essa dúvida contra minha honradez.