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Michele Luz: Uma jovem que reflete a vida por meio da arte

“São tempos difíceis para os sonhadores”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 27-01-2019 11:31 | 1447
Michele Luz em um de seus trabalhos experimentais para a faculdade de Publicidade e Propaganda da UEMG
Michele Luz em um de seus trabalhos experimentais para a faculdade de Publicidade e Propaganda da UEMG Foto de Arquivo pessoal

A universitária Michele Luz, que neste ano se forma em Publicidade e Propagada, adora mergulhar no conhecimento e tem uma maneira diferente de enxergar e encarar a vida. Apaixonada por cinema e fotografia, ela pretende fazer destas áreas sua profissão e já produz trabalhos extremamente profissionais, com um olhar peculiar e inspirado por gênios do cinema, da pintura, da literatura e da fotografia, entre eles o cineasta Pedro Almodóvar, a pintora mexicana Frida Kahlo, o poeta e dramaturgo alemão Brecht e o fotógrafo italiano Oliviero Toscani entre outros. Muitas são suas referências e ela não esconde sua paixão pelo campo da Filosofia e Sociologia, áreas do conhecimento pela qual ela descobriu quem era a Michele. Filha caçula da professora Rosélia Rosa Luz, que foi diretora da Escola Municipal Ibrantina Amaral por muito tempo e do policial militar aposentado, Clivaldo Igor Luz, irmã do Lucas Romeu e Gustavo Igor Luz, hoje, com apenas 20 anos, ela tem sonhos grandes e talento suficiente para realizar todos eles. Divertida, comunicativa e sempre sorridente, é com esse espírito que ela concede esta entrevista para falar um pouco da sua vida, das suas reflexões e da maneira como encara a vida.

Jornal do Sudoeste: Como foi a infância?
Michele Luz: Não sei bem como definir minha infância, mas me diverti muito com meus irmãos, lembro que soltava pipa, andava de bicicleta, que eu brincava muito com a minha prima Laura e, em resumo, foi uma infância muito feliz. Tenho muitas memórias engraçadas justamente por isto, por ser muito moleca e por gostar de me aventurar. Eu já levei sete pontos brincando em uma rede com meus irmãos – caí e bati o queixo na quina no piso (risos); também levei 14 pontos por causa da mordida de um cachorro de minha bisavó e a minha tia para me defender foi dar uma paulada nele e acertou a minha testa (risos).

Jornal do Sudoeste: Você sempre foi assim: muito agitada?
Michele Luz: Sempre. Meus professores falavam que eu vivia no mundo da lua, porque eu ficava maquinando muitas coisas na minha cabeça, mas melhorei muito depois que comecei a ler. Isso me deixou mais calma, paciente e concentrada. Antes eu tinha muita dificuldade de me manter concentrada, mas isso, acredito, é porque penso muito e tenho muitas ideias e quero produzir tudo, mas nunca tive dificuldade de aprendizagem, pelo contrário.

Jornal do Sudoeste: E como foi a escola (ensino fundamental e médio)?
Michele Luz: É um assunto delicado, ambas essas fases foram responsáveis por quem eu sou hoje. Meu ensino fundamental foi todo no Ibrantina Amaral e lá havia muitos projetos: empreendedorismo, escrita, audiovisual e produzíamos muito e o saber ia para além da sala de aula. Recordo-me de editar muitos vídeos meus e de meus amigos, de produzir muito texto e ser elogiada pelos professores. Essa também foi uma fase que sofria de muita dor de cabeça por causa da hipoglicemia e não sabia que era isto, então eu precisava faltar e ficar em casa por conta deste problema e meus professores eram muito compreensivos e me respeitaram porque sabiam que era uma necessidade. Então cresci com muita liberdade de pensamento para questionar, criticar e entender o mundo e sinto que isto é muito responsável pelo o que faço hoje.

Jornal do Sudoeste: E o ensino médio?
Michele Luz: Foi uma fase de muita introspecção para mim. Foi um momento que entrei em contato com a arte, passava horas assistindo filmes e desenvolvi uma paixão pelo cinema muito grande e também pela fotografia. Foi uma fase que tentei enxergar a vida por outro ângulo. Acabei saindo muito do meu comodismo, o que pode ter gerado certa crise existencial, mas que foi muito importante para meu desenvolvimento e me tornar uma pessoa mais forte e para entender a importância da arte para a minha vida. Nesse período comecei a pesquisar sobre Frida Kahlo e a me interessar muito pelo surrealismo, por Salvador Dalí entre outras coisas.

Jornal do Sudoeste: Você não acha isso incomum para uma jovem da sua idade?
Michele Luz: Acredito que seja bastante incomum, mas no Ensino Médio duas matérias foram muito importantes para mim: Sociologia e Filosofia. Quando tinha aulas sobre Friedrich Nietzsche, Carl Marx entre outros filósofos e sociólogos eu ficava muito arrepiada e me sentia muito inspirada. Eu segui o caminho da Comunicação Social, mas foi na Sociologia que eu me encontrei. É quando tenho aula de Sociologia que sinto que tudo faz sentido e me sinto muito sortuda de estar ali tendo aula com aquele professor. Foram estes os momentos mais importantes para mim e que me permitiram uma ascensão intelectual e reflexiva;  a arte veio como pilar para isto tudo. Assistia a um mesmo filme diversas vezes porque queria entender como aquela cena era montada e, nas aulas de literatura, quando precisava fazer um trabalho, sempre fazia um curta-metragem e atuava. Percebi que a arte e conhecimento eram duas coisas fundamentais para mim. A faculdade veio para solidificar isto porque eu sentia que a arte era a saída. Vi com Adorno, que é um filósofo e sociólogo alemão, que a única possibilidade de fugir de toda a nossa linguagem fascista, das praticas como ela são e da própria indústria cultural é por meio da arte e a arte tem uma responsabilidade muito grande. Sempre senti a necessidade de passar essa reflexão para frente: durante um tempo foi pela escrita, depois a fotografia, depois o cinema e em alguns momentos fiz tudo isso simultaneamente.

Jornal do Sudoeste: Você acredita que arte e a educação podem combater a violência?
Michele Luz: Acredito. A arte tem uma responsabilidade social e política sobre tudo. A arte não é diversão e entretenimento, arte é para politizar, para acrescentar alguma coisa naquela vida, para mudar uma realidade, nem que seja para consolidar uma memória social. Durante a ditadura os artistas não conseguiram mudar o regime militar, mas conseguiram consolidar essa memória. Tudo o que a gente sente e se sensibiliza desse período vem através disto. Muitas das verdades que foi esse período no Brasil nós conseguimos acessar através do que esses artistas produziram, até porque os livros de História não contavam isso e demorou muito para termos o mínimo de consciência social e percebemos que estamos perdendo isto novamente e, novamente, vamos “emburrecer” muito. Chico Buarque disse: antes da ditadura o Brasil tinha conseguido se elevar muito crítica e politicamente, que tínhamos uma consciência mais firme e com a ditadura perdemos isto e não conseguimos nos recuperar mais. Acredito que em tempos de violência, nós precisamos criar: não basta fazer uma música para dançar e esquecer e fingir que nada está acontecendo, precisamos fazer uma música para conscientizar e politizar. Existe um artigo de Pierre Bourdieu em que ele fala como a televisão torna a violência mais ativa na sociedade: em resumo a TV banaliza a violência. Bourdieu também fala da consciência de classe: quando nós vemos um pobre morrendo, nós não nos sensibilizamos e fingimos que ela não existe e quando a gente vê esse pobre morrendo nós nos sentimos aliviados porque o nosso medo e morrer pela mão daquele pobre. Faz sentido. A violência foi e é banalizada. Tudo é estatística e a gente não se sensibiliza por número, se nós não nos sensibilizamos por quem é o outro, vamos deixar que a violência aconteça e se torne algo natural. Acredito que a arte pode vir justamente para combater isto e nos fazer refletir e sensibilizar pelo ser humano.

Jornal do Sudoeste: Você acha que falta arte em Paraíso?
Michele Luz: É uma questão difícil de falar porque eu mesma não mostro o que eu produzo e sou uma pessoa muito reclusa nesse sentido. Mas acredito que em Paraíso há grandes artistas e que produzem de tudo: poesia, audiovisual, literatura, música, de tudo um pouco. O que falta, no meu ponto de vista, talvez seja espaço para que eles mostrem sua arte. O problema da arte em Paraíso, talvez, é que ela seja usada como forma de promoção de algum interesse: ninguém patrocina a arte pensando nela, mas no que aquilo pode gerar de visibilidade em uma campanha política, por exemplo.

Jornal do Sudoeste: Além desse universo cinematográfico você também gosta de literatura?
Michele Luz: Sim, mas nunca fui muito de romance, porque eu tenho a necessidade de entender todo o contexto histórico e social em que aquela obra foi escrita e perco muito tempo pesquisando, então é algo que me deixa cansada. Porém, eu amo poesia e teoria. Meu poeta favorito é o alemão Bertolt Brecht, que também foi dramaturgo; os poemas dele são todos de cunho político, ele fala sobre fome, sobre guerra, miséria, política, são poemas muito engajados e verdadeiros. E meu teórico favorito... gosto muito do Adorno, que fala sobre indústria cultura, mas acho que meu favorito seria Pierre Bourdieu; e teórico brasileiro seria Marcos Napolitano, que é da área da História da Arte.

Jornal do Sudoeste: Quais são seus cineastas?
Michele Luz: Godard e Almodóvar, mas gosto também dos filmes da Nouvelle Vague. Também gosto muito do Cinema Novo: Glauber Rocha e Cacá Diegues. Sobre Almodóvar, ele é incrível e seus filmes são todos melodramáticos, ele é um artista que foi muito influenciado pelo “Movida Madrilenha”, que foi um movimento espanhol característico pela composição forte das cores e temas polêmicos; seus filmes são compostos pelo contraste do azul e vermelho – muito bonito, além da presença da temática LGBT. Ele é meu favorito porque ele assume um papel social e político.

Jornal do Sudoeste: Você acredita que o cinema perdeu essa característica?
Michele Luz: Hoje o cinema é para divertir e entreter e ninguém quer que seja diferente disto: um cinema política e questionador. No Brasil nossa realidade já foi muito diferente, tivemos o Cinema Novo, que teve como principal nome Glauber Rocha, foi um cinema que assumiu a responsabilidade de revelar a identidade e a realidade nacional: quem é o povo brasileiro: eram filmes de cunho político, ofensivos ao regime militar e vieram para politizar. Eles acreditavam que depois disso nós não voltaríamos a nos aproximar do cinema Hollywoodiano, mas não foi o que aconteceu. Acredito que o fato de sermos tão reféns desse cinema de Hollywood é porque não queremos nos enxergar como pessoas subdesenvolvidas, como um povo que passa fome e que tem vergonha de mostrar essa realidade para o restante do mundo.

Jornal do Sudoeste: O que você pensa sobre a música atual, acredita que seja uma música pobre?
Michele Luz: Paupérrima. Acredito que seja resultado da indústria cultural. A música vem para divertir, entreter e cai no mesmo sistema no cinema. A música acaba fugindo dessa necessidade de se engajar e politizar. O que acontece hoje é que os artistas não se veem com responsabilidade de produzir algo politizado, é pura cultura de massa, não é algo para refletir, mas sim para distrair. Hoje acredito que o Rap é o único estilo  que continua muito engajado e que continua cumprindo esse papel social e político de falar sobre a realidade do brasileiro.

Jornal do Sudoeste: Como é fazer Publicidade e Propaganda?
Michele Luz: Eu gosto muito do meu curso. Porém, o que eu mais gosto, para além da Publicidade, é questão da comunicação social; gosto muito de estudar as teorias, gostei muito de semiótica, sociologia da comunicação. Também gosto muito das disciplinas de audiovisual e fotografia e é uma área que pretendo seguir. Formo neste ano, é um ano de muito sufoco e já estou refletindo muito sobre o que farei no futuro. Como disse, pretendo trabalhar com fotografia e audiovisual, mas ainda não sei como será isso ao certo: se será mais publicitário ou se terei a oportunidade de trabalhar com curta-metragem, direção, que já são áreas que eu trabalho e gosto muito.

Jornal do Sudoeste: Você acredita que a publicidade é muito mais do que vender uma marca?
Michele Luz: A publicidade vem para informar um produto e a propaganda para mudar um comportamento. A propaganda é de cunho ideológico, sempre. Hoje as pessoas não estão interessadas em saber simplesmente que um produto existe, não queremos apenas consumir um produto, mas um conceito. As pessoas querem saber como aquela marca se posiciona e acredito que estamos caminhando para um futuro de consumo mais consciente. Mais do que pensar em mudar um comportamento, as marcas também estão se reinventando por perceber que a sociedade está mudando. Estamos repensando nossa maneira de existir e há a necessidade das marcas também fazerem o mesmo. Então, estamos preocupados em consumir marcas que nos representam e se tenho conhecimento que uma delas usa de trabalho escravo, então não vou consumir aquele produto. Aos pouquinhos as pessoas estão se atentando a isto.

Jornal do Sudoeste: Qual é o balaço que você desta caminhada até agora e o que pretende para o futuro?
Michele Luz: Até aqui foi uma jornada de conhecimento. Fui uma adolescente muito intensa que refletia e questionava tudo, foi um momento de muita introspecção porque eu me descobri, descobri quem eu era, o que eu gostava; foi tudo muito denso e hoje eu me sinto mais leve, mais tranquila e que tudo flui muito melhor por ter vivido tudo isso. Para meu futuro, a longo prazo, gostaria muito de trabalhar com Sociologia da Comunicação ou com História da Arte, quero muito ser professora universitária, e quero também estudar cinema e produzir muito nessa área, fazer cursos e me especializar mais. Porém, como diria Amelie Poulain do cineasta francês Jean-Pierre Jeunet “são tempos difíceis para os sonhadores”.