ELY VIEITEZ LISBOA

Superstições

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 02-02-2019 14:58 | 64
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Dizem que ter superstições é um atraso, é ignorância... Acredito, aceito, mas tenho cisma da afirmação sábia de Cervantes: Yo no creo en bru-jas, pero que las hay, hay... Assim, sigo o ditado português: meio barro e meio tijolo. Por exemplo: por que só me levanto primeiro com o pé direito? Usar roupa do avesso? Jamais! Bolsa no chão? Nem pensar...Fica pobre e professor pobre é pleonasmo. Lembro-me até de um episódio pitoresco. Estava em um Banco, sentada, esperando o gerente. À minha frente, um jovem colocou sua bolsa no chão. Deu-me tanta gastura que não consegui tirar os olhos da bolsa. O rapaz, desconfiado, segurou-a firme, no colo, cismado com minhas intenções...

E como explicar certas coisas? Dizem que todas as pessoas do signo Sagitário, sofrem dos pés.  Entende-se. Se nosso símbolo é o Centauro, meio gente, meio animal. É um belo signo, os sagitari-anos acreditam nos próprios sonhos, são em geral grandes professores, têm compromisso com a felicidade e a alegria de viver. Otimistas, alegres, fáceis de conviver. Mas meu problema é complicado. Nasci em um vinte e um de dezembro. Assim, sou meio sagitariana e meio capricorni-ana. Desse segundo signo, diz-se: São crianças velhas e velhos jovens...

O leitor poderá contestar: Acreditar em horóscopos?! Sim e não. Como tudo na vida. Não existem verdades pétreas. Tudo são hipóteses. Como nas teorias post-mortem. Os ateus não acreditam na alma. Somos só corpo, carne. Morreu, acabou. Os espiritualistas falam em céu, inferno, purgatório, limbo, reencarnação, ida e volta para o aperfeiçoamento, para o resgate. E aí vem o grande poeta Manuel Bandeira com um poema muito conhecido, que tem um final complexo, de difícil interpretação. O poema é Momento num Café, do livro Estrela da Manhã. Ele descreve um enterro que passa e os vivos, distraídos, "estavam todos voltados para a vida"; um só, mais sábio, talvez mais vivido, "se descobriu num gesto largo e demorado" (..). Ele sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade / Que a vida é traição / E saudava a matéria que passava / Liberta para sempre da alma extinta".

Fácil de interpretar porque apenas um foi mais respeitoso, ele era mais sábio, mais amargo, sabia que a vida não tem muito sentido, é uma luta feroz, é traição. Intrigantes, porém, são os versos finais, que afirmam o contrário de tudo que aprendemos: Ele saudava a "matéria que passava, liberta para sempre da alma extinta". Como explicar a afirmação do poeta, que diz ser a matéria eterna, livre para sempre da alma morta?! A única explicação viável é que Manuel Bandeira prega a teoria da eterna reciclagem. Morre-se, os vermes nos comem, os pássaros comem os vermes, ou, poeticamente acreditaremos em outro notável poeta, o nosso Carlos Drum-mond de Andrade, que no seu famoso poema Congresso Internacional do Medo (do livro Sentimento do Mundo) nos fala dos vários tipos de medo e termina de forma magistral: "cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, / depois morreremos de medo / e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas". Drummond também alicerça-se na teoria da reciclagem, porque renasceremos FLORES, amarelas e medrosas sim, mas FLORES, o que é muito poético.

Comecei com superstições, cismas, acabei com teorias complexas dos nossos grandes poetas. Não me culpem. A tarde está cinzenta, estranha, propícia para elucubrações meio sem sentido. Você, leitor, por acaso é sempre racional, aristotélico?

Eu não. Sou um poço de dúvidas. Amo todas as hipóteses e não opto matematicamente por nenhuma. É mais prático e atraente.

(*)Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br