FERIADO

Cientista Social usa a tribuna e defende feriado da Consciência Negra em Paraíso

Por: João Oliveira | Categoria: Cultura | 27-02-2019 20:40 | 10220
Eloíse destacou que mais importante que a data, é poder ter um dia de folga para poder ir àqueles que precisam de alguém que os inspirem
Eloíse destacou que mais importante que a data, é poder ter um dia de folga para poder ir àqueles que precisam de alguém que os inspirem Foto de ASSCAM

A cientista social, Eloíse Iara Braghini David, fez usa na tribuna na Câmara Municipal, segunda-feira (25/2), para falar sobre polêmica que vem envolvendo feriado municipal do Dia da Consciência Negra, no dia 20 de novembro. Ela defendeu a permanecia do feriado e disse que o descanso é necessário para que o cidadão possa parar e refletir sobre a vida. A data vem sendo alvo de polêmica desde que entrou na Casa Legislativa projeto de lei para destituí-la como feriado municipal. Projeto atualmente se encontra com pedido de vista do vereador Marcelo de Morais.

Eloíse iniciou sua fala questionando estigma de que “o povo brasileiro não gosta de trabalhar”. Ela contrapôs, afirmando que o brasileiro trabalha muito e que grande parte de povo é pobre e, entre esses pobres, a maioria é de pessoas negras. “Não sou eu dizendo isto, é um estudo de 20 anos das ciências sociais que mapeou isto para tentar entender o porquê a maioria do povo que passa fome é negra; o porquê eu não vejo as pessoas negras em espaços de poder. Vocês, vereadores, têm a capacidade de impor a vontade de vocês sobre a vida de muitos. E porque essas pessoas que têm a capacidade de impor a vontade de poucos sobre a maioria não é negra e, pior ainda, não são mulheres negras”, questionou.

Estou dizendo tudo isto porque acredito que todos nós deveríamos ser iguais, gostaríamos que fôssemos, mas não somos. O fato de uma pessoa ser negra, a vida vai ser diferente para ela; o fato de uma pessoa ser mulher, a vida vai ser diferente para ela; o fato da pessoa ser mulher e negra a vida será completamente diferente daquela que uma minoria brasileira irá experimentar”, apontou.

“Quando falamos em Dia da Consciência Negra, sou extremamente procurada e vou a lugares diversos para falar sobre racismo para crianças e adolescentes negros. No ano passado, em uma conversa com cerca de 400 crianças negras, eu disse a elas que não precisavam se sentir envergonhadas por serem negras e por serem chamadas de negras, que não precisam se esconder com nomes como ‘morena’, ‘mulata’, que eles eram negros e deveriam ter orgulho da pele e de suas feições; que não precisam se humilhar pó serem pessoas negras e não precisam esconder essa identidade”, destacou.

Destacou que o Dia da Consciência Negra foi a única vez em Paraíso que ela viu o tema ser tratado de forma ampla na mídia. “As pessoas negras em Paraíso trabalham muito, não podem estar aqui na Câmara como eu estou porque sou profissional autônoma, eu vim de uma família de classe média, mas outras pessoas negras não são e não podem estar aqui. Falei com várias pessoas negras que não puderam vir hoje à Casa Legislativa porque estão na faculdade: eles estudam, trabalham o dia inteiro e chegam 1h da madrugada para levantar às 5h”, acrescentou.

Eloise lembrou que quando foi instituída a data em Paraíso, ela pôde começar a falar às crianças negras sobre quem elas poderiam ser. “Não são assuntos que chegam às escolas. Na escola chega o racismo, todos os dias. Como eu vou lidar com crianças negras que estão com a autoestima lá embaixo se eu não tiver um dia do ano para isso. A sociedade criou o feriado porque ninguém tem tempo de nada, trabalhamos o dia inteiro. Se você cria um feriado, você tem a opção de parar para hoje falar disto ou daquilo. É muito importante o feriado porque ele proporciona ao povo a opção de parar para pensar. ‘Negócio’ é negar o ócio e o ócio é o momento que você para, põe a mão na cabeça para refletir e a gente precisa disto”, afirmou.

“A semana do Dia Consciência Negra acontece duas semanas após meu aniversário, é uma semana que eu tiro para ir para todos os lugares falar sobre o tema com pessoas que talvez nunca tivessem ouvido sobre isto antes e talvez nunca tivessem visto um exemplo a ser seguido e ser inspirada e a gente só cresce quando é inspirada. As melhores ações de nossas vidas acontecem porque fomos inspiradas por bons exemplos e eu me inspirei muito no meu pai, que agora está trabalhando. Mas cadê essas pessoas? Eu não quero estar sozinha nesta. O Dia da Consciência Negra é o único dia que aparece na mídia em Paraíso o tema racismo, se não houvesse esse dia não existiria racismo em Paraíso, mas a gente sente que existe todo dia. Precisamos desta data”, diz.

Por fim, Eloíse Iara, destacou que em muitas de suas palestras o que ela mais diz é que não se trata de uma guerra de homem contra mulher ou de pessoa negra contra pessoa branca, “é simplesmente o fato de que um não sabe o que está acontecendo no mundo do outro. E se você não fala o outro não sabe o que está acontecendo com você e isso não pode ser tirado da gente”, ressaltou.

MANIFESTAÇÕES

O vereador Marcelo de Morais fisse que o projeto foi colocado em tramitação para que esse assunto fosse encerrado. Manifestou que existe proposta de emenda da vereadora Cidinha de tornar a data ponto facultativo e que havia proposta que contemplasse não o dia, mas a Semana da Consciência Negra em Paraíso. Disse que pediria vistas e que tinha a intenção de chamar lideranças para dialogar sobre o tema. O vereador chegou a convidar Eloíse Iara para participar das discussões sobre a tramitação do projeto.

O vereador Sérgio Aparecido Gomes parabenizou Eloíse pedindo que levasse abraços fraternos ao seu pai, o advogado José Edites David. “Você não teve a oportunidade de ter professores negros, mas eu tive o Zé Edites e me recordo até hoje dele me concedendo o grau de bacharel em administração. Aprendemos muito com ele durante sua vereança, com sua perspicácia e, principalmente, com o respeito que ele tinha para com os seus companheiros. Muitas vezes tínhamos posições políticas divergentes, mas dialogávamos e o respeito mútuo e sincero existe até hoje”, destacou.

Serginho recordou da luta em conquistar o feriado do Dia da Consciência Negra e disse que discordava de Marcelo de Morais, em relação a tudo o que vem acontecendo envolvendo a data. “Enfrentamos uma batalha e uma pressão muito grande enquanto estávamos na Comissão de Finanças em relação a este projeto e vendo cada comentário absurdo, graças a Deus de uma minoria. Esse projeto só não foi votado porque não deixamos ele sair da Comissão. A nova Comissão tem um posicionamento, que a gente respeita, mas também têm que respeitar o nosso e a nossa defesa em relação ao processo de uma lei”, disse.

O vereador felicitou a cientista social pelo seu posiciona-mento sobre a lei e destacou que revogar o feriado representaria um retrocesso. Citou inúmeros municípios em que o feriado vigora e que a história negra precisa ser respeitada e falada. “Estou aqui para fazer a minha parte e a farei bem, principalmente sobre o que diz respeito ao feriado da Consciência Negra e cobrar como feriado municipal”, destacou.

Marcelo, que atualmente é presidente da Comissão de Finanças, Justiça e Legislação rebateu a crítica do vereador sobre a Comissão e que existe uma predisposição em arquivar o projeto, falou sobre todo o trâmite de um projeto e que o objetivo da Casa é fazer tudo da maneira mais correta possível para que não haja problema. A cientista social, Eloíse Iara, concordou, mas disse que veio para Paraíso quando se formou acreditando no potencial de desenvolvimento do município, e que Paraíso tem perdido muitas oportunidades de fazer a diferença e de ser um exemplo para cidades vizinhas.

“Não existe isto de quer acabar com o racismo, para de falar dele, é um assunto que precisa ser discutido. Eu entendo os trâmites políticos de vocês, eu tenho consciência disto, mas eu estou no outro lado e eu sou ‘a coisa’ na prática. O que estou fazendo e que muitas outras pessoas que assim como eu também estão fazendo no município é algo que deveríamos abraçar como cidade pioneira que para no Dia da Consciência Negra. Pode ser que o movimento negro em Paraíso não esteja tão bem articulado como eu vi em outros municípios, mas é que a gente não tem nem a oportunidade de tentar. Tem sim que abraçar essa causa e colocar como prioridade”, completou.

A vereadora Cidinha Cerize justificou que a proposta de ponto facultativo foi busca o equilíbrio para que ninguém ficasse desamparado. “O dia não deixará de existir e ter sua importância e haveria equilíbrio a democracia sem tirar o respeito e o meu reconhecimento as pessoas negras. O plenário é soberano e a emenda é para que o feriado seja ponto facultativo, quem quiser terá, quem não quiser não terá, é uma determinação de cada empresa. Estou muito tranquila e a minha intenção era continuar contemplando o projeto do vereador Sérgio, mas também atender a uma outra demanda que chegou a mim”.