CRÔNICA JOEL CINTRA BORGES

Exorcizando os demônios...

Por: Joel Cintra Borges | Categoria: Cultura | 03-03-2019 08:55 | 463
Dr. Joel Cintra Borges
Dr. Joel Cintra Borges Foto de Reprodução

Foi o velório mais bonito que já vi. A grande sala cheia de belas mulheres de meia idade, muito charmosas com seus grandes óculos escuros, algumas com lenços no pescoço. Todas muito bem vestidas, mas, com roupas discretíssimas.

Bem no centro do salão, o caixão de Rafael Utrilho, um homem ainda moço, alto, magro, naturalmente elegante. Não estava com os óculos Ray-ban que lhe eram característicos. Tinha os olhos fechados, a face lívida e uma aparência calma. Partia como vivera, de maneira desassombrada, serena, fina e com a elegância de sempre.

Rafael era uma figura singular. Se cidade pequena tem gente nobre, ele era um legítimo representante dessa nobreza, não só pelos laços de família, mas, pela fidalguia, pelo modo cavalheiresco com que sempre se portava.

Muito bem casado, esposa bonita e de sangue bem azul, morava na fazenda de sua família. Não apenas administrava, mas também pegava no pesado, arando terra com o trator, debaixo do sol quente. Em outras ocasiões, cuidava das vacas, que olhava com carinho, tudo muito bem organizado.

Parecia um bom moço e o era, se descontarmos os quinze dias de férias que tirava por ano! Tudo ia correndo tranquilo, quando alguma campainha interior soava e ele virava outra pessoa. Deixava o trator, tomava um banho, vestia-se de forma elegante, entrava no Opala e saía sem dar qualquer explicação.

Dirigia o carro até uma ou outra cidade vizinha de maior porte e ia para uma chacrinha elegante, uma casa de mulheres agradáveis, como as gueixas do Japão. E ali ficava ele dez, doze, quinze dias, bebendo uísque, conversando, vadiando, exorcizando seus demônios.

Quando, enfim, se dava por satisfeito, quando seu lado escuro se acalmava de novo, pagava tudo com a maior satisfação, pegava o carro e voltava para casa como se nada tivesse acontecido. E ainda tinha uma coisa: se era mal recebido, não discutia, não brigava. Entrava o carro de novo e ficava fora mais quinze dias!

Não morreu de velhice ou de infarto. Morreu como viveu: em uma das voltas para casa, o carro capotou e o nobre cavalheiro Rafael Utrilho dessa vez não voltou para casa!