CRÔNICA ELY VIEITEZ LISBOA

Meu pequeno zoológico

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 03-03-2019 17:22 | 272
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Em 2003, dois jovens inteligentes e sonhadores, ele geógrafo e ela, bióloga, ingressaram no Ibama, através de concurso público para o cargo de Analista Ambiental. Ele, saindo do Rio de Janeiro e ela, de Belo Horizonte, tomaram posse no Parque Nacional de Viruá, e na Reserva Biológica do Uatumã, em Balbina, respectivamente, ambos na Amazônia.

O que os dois não sabiam era o que o destino havia reservado para ambos. Em pouco menos de dois anos, estavam casados e frente à gestão do Parque Viruá, onde arregaçaram as mangas e transformaram um Parque, antes desconhecido, em um dos mais visitados e pesquisados da Amazônia.

Foram catorze anos de trabalho árduo, cujo legado justifica a competência e o dinamismo de Antônio e Beatriz, juntamente com sua equipe de apoio.

Até que, diante do sentimento de dever cumprido, resolveram direcionar a vida, do extremo norte, para o Sul da Bahia, escolhendo como futura morada a cidade litorânea de Porto Seguro.

Entregaram a casa, colocaram a mudança em uma transportadora. Até que tudo fosse concretizado, o que fazer com os bichos queridos? Duas cachorras, três gatas e um galo, criado como animal doméstico. Eles os puseram em um avião e nos mandaram como hóspedes pelo tempo necessário de três a cinco meses.

Foi a alegria do pedaço. Grande área verde, pássaros e flores. A bizarra turminha chegou meio estressada com a viagem longa, com pernoite em S. Paulo, mas logo todos se sentiram em casa: ração especial, água fresca, caminhas individuais. Para Gerald, o galo índio, meu marido providenciou um poleiro em lugar adequado, para ele dormir e não acordar a vizinhança muito cedo, ao raiar do dia.

Fomos informados que Lídia, cadela branca e esbelta, de belos olhos negros, era meio brava. Mordera até em um dos carregadores da mudança, tomando-o por um invasor. Dora, toda negra como um veludo, era mansa. Não houve problema. Logo as duas nos saudavam, com os rabos alegres, carinhas pedindo afagos, deixando-se acariciar docemente.

Preocupei-me com as gatas. Tenho cães desde quatro anos de idade, em amizades eternas, mas nunca tive um gato, animal mágico, sagrado por alguns povos. Dizem que eles atraem bons eflúvios e purificam o lugar. E o mais interessante: o gato é quem escolhe o dono. Fiquei alerta com estas possíveis idiossin-crasias. Duas irmãs, rajadas como duas oncinhas: a Piu e a Miu; a Nininha pensa que é cachorra, é arisca e não admite familiaridades. Miu é doce e tímida, tem uma predileção inconteste por Antônio. Piu foi a grande surpresa: olhou todo mundo e no meu quarto, diante da grande cama aconchegante, aboletou-se nela; ali era o seu lugar. Tentei argumentar com ela: não poderíamos dormir juntas, as duas, pois eu cheguei primeiro. Não a convenci. Ela veio para perto de mim, com seu elegante andar felino, esfregou a carinha nas minhas mãos, nos meus braços e convenceu-me. Cabíamos bem as duas ali. Depois, aos poucos, passou-me mais informações: era boêmia, às vezes dormia fora,  voltando só de manhã. Desconfiei quando percebi nos olhares que ela lançou para um gato, nosso agregado. Ele não tem dono: passa os dias aqui, fazendo a siesta debaixo das buganvílias, come na vizinha, que tem treze gatos; a pensão deve ser boa...

Aprendi mais coisas de minha gata provisória: ela dorme quase todo dia, só admite carinho no pescoço e gosta de escalar; eu já a vi subir em um armário de livros, de mais de dois metros de altura, para verificar o que havia lá. Ao ver que eram livros, desinteressou-se. Acho que ela não gosta de literatura.

Gerald andava meio nervoso, solitário. Falta de companhia feminina? A vizinha, que tem mais de vinte galinhas poedeiras, emprestou-nos uma bela franga New Ham-pshire. O casal custou um pouco a se entender; talvez ela fosse mais tradicional e não gostou do namorado imposto. Depois de muita correria e argumentação, flagramos os dois, lado a lado, íntimos.

A casa nunca mais será a mesma. Piu e eu, cada vez mais amigas. Vou sentir falta daquela carinha linda, dos seus belos olhos verdes, de acordar à noite, tentando nos entender cada um no seu espaço. Só não sei o que estarão pensando minhas Labra-doras, enterradas no jardim. Com certeza, Lara vai reclamar para São Francisco, a zona que virou sua casa. Juna, mais doce e maternal, entenderá e tentará convencer a irmã.  Afinal, será por pouco tempo. Algo é certo: daqui para frente, no futuro, faremos viagens a Porto Seguro para visitar nosso pequeno zoológico, que enriqueceu nossas vidas por alguns meses.

(*)Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br