LÍNGUA SOLTA

Uma coluna para se falar sobre língua, linguagem e fala

As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo. (Ludwig Wittgenstein)
Por: Michelle Aparecida Pereira Lopes | Categoria: Do leitor | 04-04-2019 14:02 | 567
Michelle Aparecida Pereira Lopes
Michelle Aparecida Pereira Lopes Foto de Reprodução

Há cerca de um ano, venho publicando textos aqui no Jornal do Sudoeste: reflexões sobre temas da minha área de estudo e trabalho – a língua portuguesa. Desse convívio amistoso entre mim e a equipe do Jornal do Sudoeste, surgiu a possibilidade de uma parceria periódica e, assim, a ideia desta coluna, que decidimos por chamar de Língua Solta

Quinzenalmente, a Língua Solta aparecerá por aqui comentando temas que envolvem a língua portuguesa – questões gramaticais e de uso coloquial da língua -; esclarecendo o campo de trabalho dos linguistas; abordando questões sobre leitura e tecendo reflexões sobre a área das humanidades, por que não? A Língua Solta não tem a pretensão de ser uma coluna teórica, tampouco acadêmica, mas sim um espaço de conversa sobre as questões de língua/linguagem que permeiam nossas relações sociais, sem que nem nos demos conta disso. Espero que os leitores gostem dos textos que circularão por aqui periodicamente.

Para o texto que inaugura oficialmente a coluna, escolhi tratar da Linguística – ciência à qual tenho me dedicado há quase dez anos. Quando falamos em Linguística, há muito que se esclarecer! Por se interessar pelo estudo da linguagem, suas origens são muito antigas, já que a língua e a linguagem sempre despertaram grande curiosidade no homem. No Ocidente, o campo dos estudos de linguagem tem sua origem num passado bem remoto, desde a Grécia antiga, quando os filósofos já se interessavam pela linguagem e pelas relações entre as palavras e o pensamento; esses estudos objetivavam elaborar gramáticas que prescrevessem o certo e o errado no uso da língua. Houve também, a fase dos estudos filológicos, cuja preocupação voltava-se unicamente aos textos escritos, os mais eruditos e muito antigos.

A grande reviravolta nos estudos sobre as línguas ocorreu no século XIX, com a descoberta do sânscrito – língua ancestral do Nepal e da Índia. A partir das comparações entre o sânscrito e outras línguas conhecidas - latim, grego, línguas eslavas, célticas e germânicas foi possível compreender a variação diacrônica de uma língua, ou seja, que toda língua passa por mudanças, evoluindo ao longo do tempo. Iniciavam-se os estudos chamados de histórico-comparatistas. Apesar de um grande avanço para a área, podemos dizer que a Linguística ainda não era necessariamente uma ciência, tal qual a conhecemos hoje.

A mudança de status só veio a ocorrer na passagem do século XIX ao XX, com Ferdinand de Saussure, linguista genebrino, com forte embasamento na Linguística Comparatista. Saussure foi diretor e professor da École Pratique des Hautes Études, em Paris, onde ministrava aulas. Dono de um pensamento visionário e de uma personalidade perfeccionista, Saussure procurava entender, além da evolução de uma língua no tempo, o funcionamento dela em um determinado momento; buscava também orientar seus estudos com extremo rigor metodológico. Logo depois que Saussure faleceu, dois de seus alunos, auxiliados ainda por um terceiro, compilaram as anotações das aulas ministradas pelo linguista e publicaram o Cours de linguistique générale  (CLG), chamado no Brasil de Curso de Linguística Geral. Na obra, definem-se pontos importantíssimos para que a Linguística se tornasse, de fato, uma ciência: um objeto de estudo próprio – que é a língua, e uma metodologia específica de investigação e análise. Por tudo isso, Ferdinand de Saussure é considerado o pai da Linguística, ciência que observa e analisa o funcionamento de uma língua, como manifestação da capacidade humana da linguagem.

Depois de Saussure, a ciência Linguística não parou mais e hoje seus estudos seguem diversas teorias, dentre as quais, as que estudam a fonética de uma língua, outras que investigam as manifestações das muitas variantes linguísticas relacionando-as a aspectos socioculturais, por exemplo, ou ainda os estudos de linguística computacional, voltados para a melhoria da interface homem/máquina. Tudo isso faz da Linguística, neste século XXI, um amplo campo de estudo teórico-metodológico no qual se desenvolvem pesquisas a partir da observação do uso da língua na sociedade e cujas contribuições extrapolam as fronteiras da própria ciência.

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MICHELLE APARECIDA PEREIRA LOPES: Doutora em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos e pesquisadora da constituição discursiva do corpo feminino ao longo da história. É docente e coordenadora do curso de Letras da Universidade do Estado de Minas Gerais - Unidade de Passos.