LÍNGUA SOLTA

Passagem

As palavras... não chegarão nunca a enunciar essa coisa estranha, rara e misteriosa que é um sentimento. José Saramago
Por: Michelle Aparecida Pereira Lopes | Categoria: Cultura | 22-04-2019 15:08 | 2201
Michelle Aparecida Pereira Lopes
Michelle Aparecida Pereira Lopes Foto de Reprodução

Sempre podemos nos perguntar de onde veio alguma palavra. De modo geral, sabemos que nossa língua portuguesa originou-se do latim, contudo, como nosso vocabulário é extenso, há palavras que se originaram de outras línguas, dentre as quais as dos povos indígenas que por aqui viviam quando os portugueses chegaram e as dos povos africanos. O léxico de nossa língua é rico em diversidade e ascendência; por isso mesmo, desperta muito interesse.

Dentro dos estudos de língua e de linguagem, a área responsável por descobrir a origem das palavras de uma língua é a Etimologia. Esse ramo dos estudos linguísticos investiga a procedência das palavras e descreve como se deram suas mudanças e sua evolução ao longo dos anos, além de deixar registrado o seu primeiro significado. Há vários dicionários etimológicos, por meio dos quais qualquer falante de língua portuguesa pode conhecer a origem de uma palavra de sua língua.

Para o texto de hoje, recorri aos estudos etimológicos, porque escolhi falar sobre a origem da palavra Páscoa, que nomeia o feriado comemorado neste domingo. Para isso, usei como fonte de pesquisa dois importantes dicionários etimológicos publicados em nosso país: o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, escrito por Antonio Geraldo da Cunha e Por trás das Palavras: Manual de Etimologia do Português, de Mario Eduardo Viaro.

Etimologicamente, a palavra Páscoa originou-se do nome hebraico phesah (ou do aramaico pasha); passando pelo grego paskha e pelo latim pascha. Phesah, cujo significado é “passagem”, nomeia a festa anual judaica de celebração da “passagem” do fim da escravidão no Egito para a liberdade na Terra Prometida; é chamada também de “Festa da Libertação”.

O domingo de Páscoa é assim nomeado pelos cristãos devido à crença de que os acontecimentos envolvidos na morte e na ressurreição de Cristo tenham ocorrido durante a festa phesah. Isso acontece por uma coincidência: na última ceia junto aos apóstolos, Jesus, que era judeu, fez a divisão do pão ázimo, uma das tradições judaicas. Desse modo, acredita-se que essa última ceia tenha se passado durante a phesah. Isso fez com que a palavra Páscoa, termo usado em língua portuguesa, passasse a nomear o dia da ressureição de Jesus Cristo; ou ainda, resgatando-se a etimologia do termo, a “passagem” de Jesus da morte à vida eterna. É sempre bom lembrar que pode haver outras explicações, a apresentada aqui é conforme a etimologia da palavra Páscoa, encontrada nos dicionários mencionados anteriormente.

Conhecidas as origens etimológicas da palavra Páscoa, convido o leitor a pensar um pouco mais na significação dessa festa, sobretudo para os cristãos. Se considerarmos, a frase de José Saramago usada como epígrafe deste texto, uma palavra é incapaz de expressar exatamente a grandiosidade daquilo que sentimos. Usamos a palavra para nomear o sentimento, porém o sentimento é sempre maior que qualquer significado possa apreender. Talvez, isso ocorra com os cristãos que celebram a festa chamada Páscoa: por mais que o nome dessa celebração seja significativo, não consegue exprimir a felicidade produzida pela ressurreição de Cristo naqueles que nEle creem... Feliz passagem! Feliz Páscoa!

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MICHELLE APARECIDA PEREIRA LOPES: Doutora em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos e pesquisadora da constituição discursiva do corpo feminino ao longo da história. É docente e coordenadora do curso de Letras da Universidade do Estado de Minas Gerais - Unidade de Passos.