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Elisa Grande Vergani: Superando limites com muito bom humor

“Nós estamos onde precisamos estar”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 28-04-2019 08:32 | 2485
Elisa atualmente trabalha como assessora parlamentar do presidente da Câmara, Lisandro Monteiro
Elisa atualmente trabalha como assessora parlamentar do presidente da Câmara, Lisandro Monteiro Foto de Arquivo pessoal

A bacharel em Direito pela Libertas Faculdades Integradas, Elisa Grande Vergani, é jovem extrovertida e que dificilmente se deixa abater pelas adversidades da vida. Vítima de um acidente que a deixou  paraplégica, aos 21 anos, Elisa afirma que, apesar de tudo, não foi uma experiência ruim e que abriu seus olhos para o mundo, no sentido de perceber a importância que as pessoas têm umas para as outras, e em como não conseguimos fazer nada sozinhos. Filha do engenheiro agrônomo Célio Vergani e da bancária aposentada Marilisa Vergani, Elisa está noiva do fazendeiro e estudante de veterinária Thales Vilela, e diz que seus planos agora é construir sua vida e ser aprovada na OAB. Sorridente e bem humorada, ela recebe a reportagem do Jornal do Sudoeste e nos conta um pouco de toda esta trajetória e dos momentos difíceis e dos felizes também pelos quais passou.

Jornal do Sudoeste: Você já morou fora do Brasil, como foi essa experiência?
E.G.V.: Eu tinha 15 anos e foi uma fase um pouco louca, porque sempre fui adiantada na escola e no último ano do ensino médio, quando eu tinha de 14 para 15 anos – época em que a maioria tem 16 e 17 anos -, havia aquela necessidade de escolher em qual faculdade e o quê eu iria estudar, mas não tinha noção de nada. Tive vontade de estudar medicina e naquela época mudei da ETFG para o Objetivo, porque queria focar no colegial. No entanto, surgiu essa vontade de fazer intercâmbio nos EUA, fui para Rushford no Minnesota. Não era um sonho, mas foi uma saída para essa pressão que eu sentia em decidir meu futuro acadêmico. À época, estava na metade do terceiro ano e fui, fiquei 10 meses onde morei em uma casa de uma família tradicional americana e foi uma experiência bastante válida.

Jornal do Sudoeste: Sentiu vontade de voltar?
E.G.V.: Sim, morria de vontade de voltar. Não era daquelas pessoas que vai e quer ficar, pelo contrário, queria voltar de qualquer jeito. Era um lugar muito frio, o inverno geladíssimo. Apesar disto, eu gostei bastante. Já falava inglês, tinha me formado na Fisk, onde também fiz conversação. Cheguei a Rushford totalmente perdida, e por mais que você saiba falar Inglês, até você se adaptar, é uma barreira muito grande. Felizmente, cheguei um mês antes de começar os estudos e, neste meio tempo, consegui me adaptar muito porque o adolescente americano fala muito rápido. Costumo dizer que antes do meu acidente foi a experiência mais louca que eu vivi, era muito jovem e despre-parada, e só quando cheguei lá fiquei pensando o porquê eu tinha feito aquilo, ido para um lugar completamente estranho e sozinha.

Jornal do Sudoeste: Quando voltou, como foi este retorno?
E.G.V.: Foi a partir deste intercâmbio que eu comecei a dar aulas de Inglês, mas antes disto me mudei para Ribeirão Preto onde fiz cursinho, tinha vontade de estudar Relações Internacionais – todo mundo que faz intercâmbio quer fazer este curso. Eu tinha esse sonho, mas também tinha vontade de estudar medicina (era um pouco viciada na série House). Por fim, fiz um ano de cursinho, não passei em nenhuma faculdade de medicina, mas passei em Relações Internacionais na UNESP, em Franca. Até então, eu não esperava por isto e já estava, inclusive, matriculada no cursinho novamente quando me ligaram da UNESP dizendo que havia uma vaga, pensei até que fosse trote. Acabou que fiz a matricula, comecei a dar aula de inglês, trabalhava o dia todo e me deslocava à noite para Franca para estudar.

Jornal do Sudoeste: E como foi o curso?
E.G.V.: Eu me decepcionei bastante, cheguei lá e não fazia ideia do que se tratava, foi muito clichê toda esta história: a menina que tinha feito intercâmbio e foi fazer Relações Internacionais (risos). Não me identifiquei com nada do curso e fui me desanimando; estava exausta também, porque acordava muito cedo para trabalhar, além de que era muito teórico e não tinha prática. Então decidi trancar o curso, fiquei seis meses parada, e nesse período comecei a dar aulas. Entretanto, ainda no curso de RI, tinha na grade a disciplina de Direito Internacional, nada aprofun-dado, mas foi uma das matérias que eu mais gostei e fiquei apaixonada. Diante disto, decidi prestar vestibular na Libertas Faculdade Integradas, em Direito, fiquei super bem colocada. Nesse meio tempo, tive alguns problemas na escola em que dava aula e fiquei desempregada por um tempo.

Jornal do Sudoeste: Como foi essa fase?
E.G.V.: Eu já estava no meu segundo ano de curso e, nesta mesma época, tinha terminado um relacionamento de muito tempo, fiquei muito deprimida porque parece que tudo aconteceu ao mesmo tempo: o fim do relacionamento, o desemprego, enfim, foi um baque. Fiquei mal uma época, mas meu pai, que é uma das pessoas mais maravilhosas da minha vida, assim como toda a minha família, começou a me chamar para sair  - ele sempre foi festeiro, minha mãe já é o contrário, gosta de ficar em casa, acho que tenho um pouco dos dois. Então, diante desses convites de meu pai, que sempre gostou de roça e andar a cavalo, decidi ir e comecei a sair com ele e a sua turma, que também é minha turma do coração. Em uma cavalgada que fui a São Tomás de Aquino, acabei vendo um moço que fiquei muito apaixonada – hoje é o meu noivo –. Mas não rolou nada naquele momento, porém em uma segunda cavalgada que fui, em Monte Santo de Minas, encontrei-o novamente e aconteceu. Esse começo de relacionamento foi muito bom para mim, porque me deu o ânimo que eu precisava para recomeçar. Fazia dois meses que estávamos juntos e fomos a São Tomás assistir a um show do Peão Carreiro e Capataz e na volta aconteceu o acidente.

Jornal do Sudoeste: Quando aconteceu esse acidente?
E.G.V.: Foi em 2015, eu estava no meu segundo ano de faculdade. Nesta época estava dando aulas de inglês em um cursinho para pessoas que iriam prestar concurso público para o Banco do Brasil e, também, fazia aulas de piano – sempre gostei de música, e, diante de tudo o que tinha acontecido, estava mais preocupada em desmarcar os compromissos do que com o que tinha realmente acontecido. O acidente foi uma comoção muito grande porque envolveu muitas pessoas, estávamos em quatro no veículo, além de mim, estava meu noivo (Thales) a Adriana e o Felipe, que não ficou tão mal como o restante e conseguiu pedir ajuda. O resgate foi muito rápido, fiquei consciente o tempo inteiro, mas o Thales a  Adriana logo ficaram em coma.

Jornal do Sudoeste: Como foi passar por essa experiência?
E.G.V.: Foi algo muito assustador, mas não digo que foi uma experiência ruim, porque a todo o momento tinha algo que me fazia rir e que me divertia. Logo depois fui transferida para Passos, e lá, toda machucada e no estado que eu estava, fiquei preocupada com os meus compromissos e nem tinha terminado de ser resgatada. Nos primeiros quatro dias fiquei internada e tive que ficar estabilizada para só então poder operar a coluna. A Santa Casa de Passos é um hospital maravilhoso, com pessoas maravilhosas e, é algo até engraçado, porque até então eu tinha visto apenas o teto do hospital, porque fiquei o tempo todo deitada. Depois que me recuperei, fui lá pessoalmente agradecer pelo acolhimento e foi a primeira vez que eu realmente vi o hospital. O acidente foi o que mudou a minha vida completamente.

Jornal do Sudoeste: Você se recorda com detalhes daquele momento?
E.G.V.: Não foi como nos filmes, que a pessoa fica “meu Deus, não sinto minhas pernas”. Mas ao mesmo tempo que não foi, tinha sido. Eu me lembro que sentia um peso muito grande, era inverno e estava muito frio; tinha quebrado a coluna e perfurado o pulmão. Meu noivo estava consciente e me gritava, mas não conseguia me levantar, e eu gritava de volta, mas não fazia ideia de onde é que ele estava. Essa é uma lembrança muito víva ainda: nós tínhamos comido em algum lugar e eu estava com uma bota que estava machucando meu pé, mas a tirei e vim descalça dirigindo, era algo que eu fazia sempre, e, quando chegaram alguns amigos que estavam logo atrás de nós, eu pedia para a Renata tirar minha bota, mas ela falava que eu estava sem, era neste momento que eu percebia que não estava sentindo as pernas. Depois de um momento fomos resgatados e levados para a Santa Casa.

Jornal do Sudoeste: E como sua família recebeu esta notícia?
E.G.V.: A Marli, que é uma amiga do Lisandro e nossa também e ainda está muito presente em nossas vidas, queria ligar para o meu pai, mas eu temia a reação dele por causa do carro que eu havia batido. No entanto, neste momento havia visto o Thales passando em uma maca (ele havia tido duas paradas cardiorrespiratória), e achava que não ele não aguentaria e pedi para chamarem meu pai; mesmo sem muita noção do que tinha acontecido ainda, eles chegaram e foi uma comoção muito grande e, apesar de ainda achar que levaria uma bronca, não aconteceu, a situação foi muito séria. Logo após fui transferida para Passos, onde fiquei 15 dias na UTI e 20 dias no hospital. Até então, ainda não tinha nem pensado nessa ligação entre ter quebrado a coluna, não estar sentido as pernas e que não andaria mais, não pensava em nada disto naquele momento. Três dias depois da minha cirurgia, uma terapeuta ocupacional foi conversar comigo, a Walkiquia, e foi ela quem disse que talvez eu não voltasse a andar.

Jornal do Sudoeste: Como foi para você ouvir isto?
E.G.V.: Eu não sei explicar ao certo, não foi uma sensação muito triste e, na verdade eu não tinha acreditado. Quando a realidade te atinge mesmo é algo muito pesado. Mas até então eu estava tranquila; meus pais haviam ficado muito chateados, porque já sabiam. O doutor Marcos Becker, que havia nos socorrido junto a outros médicos – que me são muito queridos –, em determinado momento falou que eu não andaria nunca mais para meu pai, sem saber que era meu pai, que ficou em choque, mas a partir daquele momento eles tiveram conhecimento desta possibilidade. Mas não lhe dizem isto imediato, dizem que foi feita a cirurgia, mas que a medula não foi seccionada. Só depois descobri que isto é algo que raramente acontece. Durante todo esse tempo internada, sempre recebia visitas e sempre aparecia alguém para mexer nos meus pés e me questionar em qual estavam mexendo e, assim, fui me acostumando com a ideia de que não sentia mais as pernas. A partir daí, fui recuperando o movimento dos braços, porque fiquei muito fraca.

Jornal do Sudoeste: Houve complicações?
E.G.V.: Sim, não queriam me dar alta de jeito nenhum, mesmo eu já me sentindo recuperada e já na fisioterapia, mas é porque meu pulmão não se recuperava. Um especialista do hospital decidiu que eu precisava fazer outra cirurgia, que para mim foi muito mais tensa, porque eu já estava bem mais consciente. Senti muita dor depois disto, mas logo meu pulmão voltou ao normal e eu fui para casa. Cheguei poucos dias antes do meu aniversário, que é em agosto. Entretanto, quando recebi alta, foi um momento difícil porque dá muito medo tento em vista que no hospital você tem todo o suporte daquela equipe que já está acostumada com isso. Foi quando subi na cadeira de rodas pela primeira vez, e foi um momento difícil porque ali eu percebi que ficaria em uma cadeira por muito tempo, mas não digo que para sempre.

Jornal do Sudoeste: E como foi estar em casa novamente?
E.G.V.: Foi um momento muito emocionante, porque todo o tempo que estive fora a minha cachorrinha não se alimentava e quando cheguei ela voltou a comer. Ela sentiu mesmo esse clima pesado; estava ruim para mim e para minha mãe que estava no hospital, mas para eles aqui em casa deveria estar pior porque não tinham muitas notícias. Aqui, voltei a retomar a minha vida. Nesse meio tempo, precisei fazer alguns exames e fui à Santa Casa, onde visitei o Thales e foi muito emocionante, porque ele estava muito magro, tinha ficado muitos dias em coma, conversamos e voltei para casa. Até então, ele não sabia da minha situação, mas pouco tempo depois ele saiu do hospital e a Adriana também. Hoje já não sinto mais culpa, mas naquela época me sentia muito responsável pelo o que tinha acontecido porque era eu quem estava dirigindo, mas não tinha feito nada de errado e não tinha bebido. Não consigo me lembrar ao certo o que aconteceu exatamente, mas recordo que um carro passou por nós com o farol alto, mas não era uma estrada que eu não estivesse acostumada a dirigir.

Jornal do Sudoeste: Como foi a reabilitação e a retomada da sua vida?
E.G.V.: Logo depois fui para o Hospital Sarah Kubitschek, onde tive que reaprender tudo. Graças a Deus, não tive nada nos braços e é algo que tenho a meu favor porque ainda tenho certa independência. Lá eles reforçaram muito esta ideia do esporte, que eu sei que é uma maneira saudável de reabilitação, mas não é a minha praia mesmo. Existe esta ideia de que sua reinserção na sociedade será por meio do esporte e eu pensava “pronto, serei um jacu do mato e nunca mais vou sair de casa”, e não havia nenhuma possibilidade de eu me tornar paratleta, iria fazer o que eu sempre fiz: tocar violão, sair com os amigos enfim, eu tentei fazer um esporte, mas não rolou. Voltei do Sarah mais acomodada, que é um Hospital para ensinar a viver na cadeira de rodas, embora ainda houvesse a esperança quando fui de sair de lá andando. Retomei a minha vida, voltei para a faculdade, fiz um semestre em casa e em 2016 já estava indo para a faculdade novamente. Foi um período de muita aprendizagem, muito mesmo. Reconheci-me como pessoa, como alguém mais limitada que antes, mas ciente de que não existem limites. Eu não consigo fazer tudo, mas sei que sempre tem alguém que possa fazer por mim e me ajudar. Essa foi a maior lição: humildade e gratidão. Não existe outra saída, se você precisa de algo tem que ser humilde e agradecida àqueles que lhe dão a mão. Aprendi muito sobre empatia, que era uma palavra que eu nem conhecia muito, mas como precisava que as pessoas se colocassem no meu lugar, aprendi a me colocar muito no lugar dos outros.

Jornal do Sudoeste: Hoje você é assessora do vereador Lisandro Monteiro, como aconteceu isto?
E.G.V.: Foi uma surpresa muito grande. Eu já o conhecia das cavalgadas e ele era amigo do meu pai, mas ainda não era meu amigo. Ele conta que voltou rezando da Aparecida do Norte e que não sabia quem chamaria para trabalhar com ele, e diz ele que meu nome sempre vinha a mente, mesmo sem saber o porquê. Alguém próximo a ele tinha me dito que ele estava pensando em me chamar e se eu aceitaria caso houvesse o convite, eu disse que talvez sim. Quando ele ganhou a eleição, fomos a uma festa que ele deu e ele fez o convite e aceitei. Eu sempre fui alguém que sempre gostou de ajudar aos outros e nunca soube dizer “não”, e quando surgiu esta oportunidade foi uma luz, porque eu poderia ajudar aos outros de outra forma. Nós começamos a trabalhar juntos e foi algo divino, porque deu muito certo eu, ele e o Cleiton. Estamos aí, bem firmes.

Jornal do Sudoeste: Após tudo isto, finalmente se formou?
E.G.V.: Sim! No ano passado, agora falta só tirar a OAB e estou estudando bastante. Foi muito emocionante porque, não somente quando aconteceu o acidente, mas vários momentos depois, eu achei que não conseguiria concluir. Eu achei que não daria conta, que não daria certo, mas deu. Estou agora com outros projetos, focar na minha reabilitação; eu não sou completamente independente, apesar de que tirei carteira de motorista, dirijo meu carro entre vários outros pontos, outros eu ainda não consigo. Além disto, quero casar, ter minha própria casa e minha independência.

Jornal do Sudoeste: Hoje Lisandro é o presidente da Câmara, é muito tumultuada a rotina?
E.G.V.: Acredito que mais para ele. Nós sabemos a situação do município atualmente e as demandas são muitas. Antes de começar a trabalhar aqui eu não era tão engajada politicamente e era aquele tipo de pessoa que não tinha muita noção desta divisão dos Poderes Executivo e Legislativo. Enfim, gosto muito de trabalhar aqui e das pessoas. É um lugar onde há muitas pessoas com o coração no lugar certo e que querem o bem da cidade, não apenas o bem próprio. E o Lisandro, por exemplo, é uma pessoa de um coração muito bom e o que ele pode fazer para ajudar ele faz, e se tiver que dizer que algo está errado, ele vai falar. E eu tenho esperança de que as pessoas que estão aqui hoje irão fazer muita diferença.

Jornal do Sudoeste: Hoje, falando de acessibilidade, você acredita que falta o olhar para as pessoas que têm suas limitações?
E.G.V.: Tenho até vergonha de falar sobre, porque antes eu era completamente alheia e são situações que não percebemos porque não sentimos na pele. A Mara Gabrilli, que é uma deputada federal, tem um projeto que se chama “calçada cidadã”, e fala algo que é muito interessante: que este projeto não é somente para o cadeirante, mas para a mãe que anda com carrinho de bebê, para a mulher que usa salto alto, para o cego que se locomove com auxílio de uma bengala, é um projeto para toda a população. Em Paraíso, há lugar que você não consegue passar se estiver de sombrinha porque são calçadas muito estreitas. Falta o olhar da cidade para a cidade neste sentido, mas fico feliz com a população, porque são muito prestativos e sempre tem alguém para lhe ajudar e, apesar da infraestrutura não ser adequada, sempre tem alguém ali para lhe dar a mão.

Jornal do Sudoeste: Você sente preconceito por parte das pessoas?
E.G.V.: Acontece, e acredito que o preconceito com o deficiente físico é mínimo em relação a alguém que sofre de uma deficiente mental, o negro ou homossexual, mas existe. Esse preconceito é no sentido da pessoa lhe olhar e achar que você não é capaz de fazer algo; outra coisa (até engraçada), é que muita gente não lhe olha, parece que tem medo. Eu não sei se eu era esse tipo de pessoa, hoje em dia, quando encontro um cadeirante, eu olho mesmo. Todavia, já passei por uma ou duas situações em que pessoas me olharam e falaram que eu não tinha tal direito, mesmo sabendo que sim. Por exemplo, filas: não sou o tipo de pessoa que quer passar na frente por ser cadeirante, sou muito tranquila em relação a isto, mas o que as pessoas não entendem é que a preferência não é porque aquela pessoa tem pressa, mas porque ela pode estar sentido dores e, depois do acidente, tem dias que eu não consigo nem trabalhar. Apesar do preconceito ser mínimo, é algo que me doeu muito e me fez pensar muito no que as pessoas que são vítimas dele passam diariamente. Não é justo discriminar alguém por ela ser diferente e nem por nenhum motivo.

Jornal do Sudoeste: Você agora está noiva, como foi isso?
E.G.V.: Muita gente acreditou que não ficaríamos juntos, fazia apenas dois meses que estávamos namorando e aconteceu tudo o que aconteceu, e eu também não achava que ele tivesse alguma obrigação em estar comigo. Acredito que não tenha sido nada fácil para ele, mas ele nunca demonstrou isto e que algo mudou o que ele sentia por mim, pelo contrário, só aumentou. Era um relacionamento muito recente, mas agora já são quatro anos.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz de toda essa caminhada?
E.G.V.: O que temos que aprender com a vida é que é impossível viver sozinho. A minha família durante a minha recuperação, assim como em toda a minha vida, sempre foi muito maravilhosa e sempre tive muito apoio, depois do acidente mais ainda. Foi algo que não me surpreendeu, porque eu sempre soube que seria assim. Costumo dizer que eu fui a pessoa certa para acontecer tudo o que aconteceu, não sei como seria se tivesse sido com outro, se eu daria conta tendo em vista tudo o que eles viveram... Mas enfim, acredito que foram 25 anos muito bem aproveitados e ainda tem muito a acontecer, acho que desperdicei muitas oportunidades que poderia ter sido melhor aproveitadas, mas não me arrependo de nada. Nós estamos onde precisamos estar, é o que eu penso, e sempre fazendo o melhor que a gente pode e que nem sempre é o que a gente quer, mas tentamos.