LÍNGUA SOLTA

Livro: objeto cultural da humanidade

Por: Michelle Aparecida Pereira Lopes | Categoria: Cultura | 07-05-2019 16:43 | 608
Michelle Aparecida Pereira Lopes
Michelle Aparecida Pereira Lopes Foto de Reprodução

A inspiração do texto de hoje veio das datas comemorativas do mês passado: nos dias dezoito e vinte três de abril celebraram-se, respectivamente, o Dia Nacional e o Dia Internacional do Livro. Para alguns, os livros são os companheiros das horas de lazer, para outros, uma fonte de conhecimentos; há ainda, aqueles que fazem do livro um objeto de estudo, pesquisando sua história e elaborando análises que nos ajudam a compreender a relação dos homens com esse objeto, ao longo dos tempos. Uma das linhas de pesquisa que faz isso é a dos Estudos Culturais; para essa linha, o livro é tido como um objeto cultural: nele, o homem imprimiu marcas de individualidade; para a sua produção, o homem mobilizou práticas culturais específicas. Além disso, após ser produzido, o livro passou a difundir representações e a instituir determinados gestos de leitura, bem como por meio dele é possível compreender algumas questões sociais relevantes para cada sociedade. Por isso se diz que a história do livro está interligada à história da própria humanidade. Como nem sempre, o livro teve a configuração que tem hoje, proponho conhecermos um pouquinho mais dessa história, nos parágrafos seguintes.

O papiro é um dos primeiros suportes textuais a permitir a circulação da escrita, porém esse suporte, para ficar aberto, exigia o uso das duas mãos, logo, quem lia o papiro, não poderia fazer nenhuma anotação, ou seja, leitura e escrita não poderiam ser concomitantes, como fazemos hoje. O papiro também não foi um suporte textual acessível a todos, porque, na época, apenas escribas, sacerdotes e os membros da realeza sabiam ler e escrever. Depois do papiro, vieram os pergaminhos e logo após, o códice – ou códex, já num formato bastante similar ao que temos hoje: folhas escritas na frente e no verso, organizadas, compiladas e amarradas. Mas esse suporte era um objeto grande e pesado, que exigia ser apoiado em uma mesa para que fosse lido, ao mesmo tempo em que era de difícil transporte. As mãos do leitor estavam livres para as anotações, mas era penoso carregar o códex; difícil imaginarmos alguém sentado em uma varanda, lendo um livro daquele formato, apoiado no próprio colo.

Na Idade Média, havia também as tabuletas enceradas: pequenas tábuas sobre as quais se escrevia com cera. Em relação ao códex, as tabuletas eram privilegiadas, como tinham tamanho reduzido podiam ser carregadas e comercializadas pelos mercadores, ampliando um pouco a divulgação do texto escrito. Contudo, como a reprodução da escrita nas tabuletas dependia de trabalho manual, o processo era caro, dificultando o acesso à palavra escrita aos menos privilegiados.

Os custos tornaram-se um pouco mais baratos com a invenção da prensa, de Gutenberg, em 1450. A prensa, além de permitir a reprodução fiel de um texto, também possibilitou a criação de outros suportes para o texto escrito: folhetim, livreto e livro, muito similares aos que conhecemos hoje. Os livros se difundiram, adquiriram status e prestígio nas sociedades letradas e acabaram por se tornar, já no século XVIII, objetos representativos das classes sociais mais abastadas: os livros eram objetos de ostentação, pois sinalizavam que seus donos dispunham de dinheiro para adquiri-los e de tempo livre para leitura; aqueles que pertenciam às classes menos favorecidas dificilmente liam livros, pois não possuíam nem dinheiro para comprá-los, nem tempo para lê-los.

Por meio da história do objeto cultural livro, contada de modo bastante breve, inferimos que a cada formato do suporte textual relacionam-se gestos de leitura bastante singulares. Essa conclusão é útil para analisarmos os gestos de leitura contemporâneos, quando nosso suporte não tem sido somente a página impressa, mas também uma tela, do notebook, do smartphone, ou mesmo dos dispositivos do tipo e-reader. O historiador francês Roger Chartier nos chama atenção para o fato de que o suporte digital, inevitavelmente, impõe configurações distintas ao velho hábito da leitura, como por exemplo, a possibilidade de o leitor selecionar, dentre vários conteúdos que tem à disposição, simultaneamente, aquele que mais lhe seja útil, ou mais lhe desperte a curiosidade. Vale destacar que são novos gestos, mas não gestos piores, ou melhores que os anteriores. Livro e, consequentemente, a leitura passam por um processo de ressignificação e relação social com ambos vem adquirindo sentidos diferentes dos que se impuseram anteriormente. Já não é possível considerarmos que leitura seja apenas o das obras impressas, há que se considerá-la, mensurá-la e validá-la também nos suportes digitais. Quanto ao livro? Importa menos o fato de que hoje ele não seja, necessariamente, físico; o mais importante é que a sociedade não se livre dele, jamais! Pois, como escreveu Silas Fonseca, “Eu do livro não me livro e nem quero me livrar, se do livro, eu me livro como livre, vou ficar?”

MICHELLE APARECIDA PEREIRA LOPES: Doutora em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos e pesquisadora da constituição discursiva do corpo feminino ao longo da história. É docente e coordenadora do curso de Letras da Universidade do Estado de Minas Gerais - Unidade de Passos.