ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 08-05-2019 14:33 | 136
Foto de Reprodução

Baús e profecias
Todo escritor possui um baú,  virtual ou físico, e que abriga rascunhos, esboços e livros que nunca foram terminados. Ideias que não duraram até o capítulo 2 ou lembranças vertidas para o papel e que não culminaram em nada – ao menos não, ainda.  No meu pequeno baú de madeira de vez em quando busco algumas reminiscências. Foi assim que encontrei um primeiro capítulo de um romance de ficção científica, que justamente jamais saiu desse primeiro capítulo e que escrevi aos dezesseis, dezessete anos. O problema é que a história era centrada em um futuro distópico e apocalíptico parecido demais com Mad Max e Blade Runner, tanto que não consegui fugir das referências visuais e considerei mais honesto interromper o trabalho. Relendo o projeto de texto ainda impregnado de linguajar adolescente, considerei curiosa a cena que então construí: o personagem principal dirige um aerocarro por uma via cercada de radares que controlam a velocidade, identificam motoristas e veículos, rastreiam seu interior. Ao menor sinal de irregularidade e lá, naquele futuro fictício que criei, uma torre de controle lança um raio de fótons que incinera o aerocarro e seus ocupantes.  O texto foi redigido em meados da década de 1980! Hoje, fora o voo e a incineração, tudo o mais já surgiu. A diferença é que ao invés de um raio, recebemos uma multa. O exame eletrônico do veículo hoje se chama “Scanner” e a ficção profética, como tantas outras, demonstra que o futuro está aqui, é hoje. Vivemos em um mundo científico e tecnológico para além da conta do que poderíamos imaginar trinta anos atrás.

Serviço Público
O magistrado é um servidor público, além de agente político. Sua obrigação é julgar, tanto que é dotado de jurisdição, o poder constitucional de dizer o direito, de julgar seu semelhante. O que difere o juiz dos políticos que compõem a administração pública direta (prefeitos, deputados, etc...) é que estes são eleitos e o juiz de direito é concursado. Ou seja, a diferença, além de intrínseca ao ofício, é somente na forma de ingresso no serviço público. Nosso patrão, nosso e dos integrantes dos outros poderes, é o povo, servimos a ele e por ele somos pagos através do erário composto pelos impostos que todos pagamos. Servir ao povo, todavia, não significa necessariamente acatar-lhe as vontades, e isso é importante que se destaque, porque o juiz raramente agrada seus jurisdicionados. Magistrados devem se preocupar com a imagem do Poder Judiciário e cuidar da manutenção da credibilidade das instituições da República. Isso, todavia, é bastante diferente de julgar conforme os humores e a opinião pública, para agradar e ser elogiado por bandos de barulhentos. Juízes não compõem arquibancadas de torcedores e não podem ser guiados por formadores de opinião. Juízes formam opinião.

Diga não ao patrulhamento
Não sou contra a livre manifestação do pensamento, muito antes pelo contrário e ainda que esse direito seja exercido de forma superlativa e até mesmo chata, excessiva e cansativa, por causa da internet e das redes sociais. Todos vivemos da ressaca causada pelo excesso de informações que, antes, recebíamos. Agora, as recebemos, replicamos e geramos. Quando estafei, a primeira ordem médica foi: fique longe de eletrônicos! Não foi a toa. Viver informado é, de certo modo, viver controlado e sem vida privada. Piora muito quando somos patrulhados pelo que dizemos e fazemos através de fogo amigo ou inimigo. Isso é muito distinto de simplesmente discordar. Tem gente a toa o suficiente para permanecer censurando moralmente conteúdos que discorda, defeito que é muito maior que a simples falta do que fazer. É a completa ausência de educação democrática e respeito às diferenças e ao pensar do outro. Diga não a todo e qualquer patrulhamento ideológico.
RENATO ZUPO – Magistrado, Escritor