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Milena Lopes: o esporte como base da construção social

“Se você investe em esporte, você melhora a saúde, a escola, reduz a criminalidade e uso de drogas. Investir no esporte é barato e tem muito efeito positivo para a sociedade”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 19-05-2019 09:26 | 2068
Milena é coordenadora de esportes em Paraíso e desenvolve o projeto “Florescer de Ginástica Rítmica”
Milena é coordenadora de esportes em Paraíso e desenvolve o projeto “Florescer de Ginástica Rítmica” Foto de João Oliveira

A técnica em esporte formada pela Universidade Estadual de Londrina (PR), Milena Cristina de Souza Lopes Bujato, desde pequena sempre foi apaixonada pelos esportes e tinha a convicção de que esta seria sua carreira. Quando descobriu que em Londrina havia um curso específico onde ela poderia estudar todas as vertentes do esporte e contribuir para a formação de atletas, não pensou duas vezes e encarou o desafio. De volta a região, Milena atuou como coordenadora de esportes em Guaranésia e, após prestar concurso em Paraíso, começou aqui o projeto “Florescer de Ginástica Rítmica”, que tem feito muito sucesso. Filha do comerciante Célio Bujato e da professora de matemática e química Maria Inês de Souza Lopes Bujato, Milena é casada com comerciante Cristiano e mãe da pequena Iasmim, de seis anos. Milena é natural de Monte Santo de Minas, mas decidiu se mudar para Paraíso recentemente, e é com carinho que recebe o Jornal do Sudoeste para contar um pouco da sua trajetória.

J.S.: Como foi a infância e juventude em Monte Santo de Minas?
M.C.S.L.B.: Foi uma infância muito proveitosa, porque há 32 anos era tudo mais tranquilo, tínhamos a opção de brincar com os avós, se divertir com coisas simples, brincando na rua ou no quintal de casa.

J.S.: Desde pequena você tinha está inclinação para os esportes?
M.C.S.L.B.: Sempre. Eu sempre achei que fosse trabalhar nesta área, ou sendo professora de Educação Física, ou trabalhando com jornalismo esportivo, mas esta última não era uma área que eu tinha tanta aptidão (risos). Entretanto, sempre busquei o esporte e minha mãe havia me dito para eu estudar o que me fazia feliz. Nas minhas buscas achei em Londrina (PR) um curso voltado para a profissão de treinador, era em tempo integral. Foquei neste vestibular e passei. Fui estudar para ficar quatro anos, mas acabei ficando oito e só retornei a Minas porque fui aprovada em um concurso para coordenador de esportes, em Guaranésia. Era a minha área, apesar de trabalhar com isto em Londrina, mas não era concursada e naquela época tínhamos essa visão da estabilidade que o concurso público nos proporcionava.

J.S.: Como foi esse período estudando algo tão específico como técnico em esportes?
M.C.S.L.B.: O técnico em esporte é uma versão de curso europeu nesta área, porque na Europa você não gradua em bacharel, mas dentro do esporte, ou saúde ou licenciatura. E como a maioria dos meus professores fizeram mestrado e doutorado na Europa, eles trouxeram isso para a gente. E de fato é algo muito interessante, porque eu vivi o esporte desde a iniciação, desenvolvimento e alto rendimento, plenamente. Aprendemos todas as modalidades e cada um treina para uma, mas vivenciamos os esportes de modo geral quase que 24 horas por dia. Na faculdade eu fiz parte das atléticas, participei de competições e gosto muito de praticar, mas meu talento mesmo sempre foi ajudar as pessoas a se tornarem atletas e não ser uma propriamente dito.

 

J.S.: Como foi sair de uma cidade pacata como Monte Santo e se mudar para Londrina?

M.C.S.L.B.: Londrina é um grande centro esportivo, uma cidade que vive esporte e tem equipes de diversas modalidades que atuam dentro do cenário brasileiro. Eu morava próximo a um ginásio e estava frequentemente assistindo a campeonatos. Mudar para lá foi me transformar adulta, porque fui criada em cidade pequena, meus pais trabalhavam muito e eu tive babá até os 12 anos, e não era independente. Lá, aprendi a resolver minhas coisas sozinha e fui me tornando mais independente. No começo, eu vinha para casa todos os meses, depois comecei a vir de três em três meses e, por fim, uma vez por ano. Isso aconteceu porque lá eu fui crescendo e tendo a oportunidade de fazer vários cursos e no final de semana de trabalhar. Minha mãe me mantinha e, apesar da faculdade ser gratuita, tinha essas despesas de moradia e eu precisava ajudar de alguma forma meus pais e, para isto, trabalhava dentro da área de recreação e lazer. Afinal de contas, precisava ajuda porque eu também tinha sonhos. Acabei tendo a oportunidade de assistir a um Panamericano no Rio e era aquilo que eu queria para mim. Quando eu vejo alguém ganhar, meus olhos enchem de água porque eu vejo o esforço, a dedicação e todo o trabalho fruto do treinador e daquele atleta, sendo que muitos desses atletas trabalham e precisam de algo a mais para se manterem, ninguém se aposenta sendo atleta.

J.S.: Houve algum momento em que você pensou em desistir?
M.C.S.L.B.: Tive. Apesar de ser uma faculdade pública, eu tive muito problema porque o nível hierárquico/financeiro era muito alto e eu não conseguia acompanhar meus colegas em muitas coisas, então fiquei naquele grupinho dos excluídos e era chamada de “Mirna”, porque era mineira e coincidiu com uma personagem de novela da época que tinha este nome e vivia na roça (risos). Apesar disto, a universidade foi muito acolhedora e o paranaense é muito acolhedor. Londrina é um lugar lindo e encantador.

J.S.: Você teve uma inclinação maior para o lado da Ginástica Rítmica?
M.C.S.L.B.: A Ginástica Rítmica foi meu primeiro estágio. Eu tinha um projeto junto com a filha da minha professora, a Bruna, que inclusive hoje é treinadora da seleção brasileira de balé e começou junto comigo e trilhou seus caminhos; nesse projeto, “Ginástica para Todos”. Eu ficava com a parte de preparação física, ela com o Balé, depois passei para a parte de ginástica artística e assim caminhou. Depois fui trabalhar na Associação Londrinense de Ginástica Artística (Alga), onde tive a oportunidade de assistir aos jogos da seleção brasileira, que naquela época tinha um centro fixo em Curitiba. Foi uma fase muito bacana. Londrina respira a Ginástica Rítmica e na minha época o centro de base dessa seleção era lá.

J.S.: Como foi deixar Londrina?
M.C.S.L.B.: Foi difícil, mas foi para um bem maior. Eu era coordenadora de um projeto que chamava “Minas Olímpico” e era tudo o que eu queria: formar atletas. Era um projeto de cunho social e esportivo, e trabalhava todas as modalidades, além de coordenação motora que é algo que eu gostava muito e acredito que deveria ser trabalhado extracurricular porque se a criança não for atleta, ela poderá ser um bom cirurgião, um advogado, enfim, o que ele quiser ser já que terá um raciocínio mais rápido, enfim, eu acredito que o esporte também te dá condições para seguir outras carreiras. Acredito na profissão de desportista e no esporte como ferramenta de educação, como ferramenta social para ajudar crianças em situação de vulnerabilidade, e também como ferramenta de inclusão e de carreira.

J.S.: Apesar dessa importância toda, não é devidamente valorizada a questão do esporte, não é mesmo?
M.C.S.L.B.: Sim, mas acredito que melhorou um pouco nos últimos anos. Hoje existem incentivos que ajudam o atleta a se manter no esporte, porque não é todo mundo que é patrocinado. Já vimos atletas de elite como, por exemplo, o Diego Hipólito, que disse em entrevista que teria que parar por falta de condições, e ele ainda tem uma formação militar e uma renda fixa, mas mesmo assim, o esporte exige muito do atleta porque é muito medicamento, fisioterapia, alimentação, viagens, é muita coisa e tudo isso custa caro e não dá para ficar tirando do próprio bolso porque, afinal de contas, esses atletas estão representando nosso país e sua imagem é sempre usada como sinônimo de sucesso, a exemplo do Airton Senna. Então por que não investir no esporte? Vamos investir! E se você investe em esporte, você melhora a saúde, escola, reduz criminalidade, uso de drogas, enfim, investir no esporte ainda é barato e que tem muito efeito para a sociedade.

J.S.: Como foi o início da Academia de Ginástica Rítmica?
M.C.S.L.B.: Eu abri a academia dentro da Arena João Mambrini (Olímpica), comecei o projeto de Ginástica Rítmica e fui às escolas acompanhada por uma amiga (porque nosso público alvo é a criança), e notava que as meninas não demonstravam interesse. Eu havia passado no concurso da Prefeitura de Paraíso como técnica de esporte e poderia exercer qualquer esporte e em conversa com o secretário da época, tive essa ideia porque era o que dava para começar sem nada e demos início. Quando abrimos as inscrições, logo já estávamos com 200 alunos. Monte Santo viu o sucesso que foi em Paraíso e depois de um ano abri lá. E aos poucos fomos crescendo. Tenho planos de continuar fortalecendo este esporte em Paraíso e temos muitas meninas boas competindo aqui em Paraíso e Monte Santo. A minha meta é esta, lógico que atentando ao esporte como ferramenta de inclusão e saúde, mas sem esquecer a competição, que é o que me move.

J.S.: Por onde já passou nessas andanças com a Ginástica Rítmica?
M.C.S.L.B.: Foram muitos lugares como Campinas, Piracicaba, Londrina, Varginha e agora iremos para Uberlândia e temos dois campeonatos previstos para São Paulo. São lugares afastados porque não há muitos lugares onde existe a Ginástica Rítmica por perto. Em Minas há em BH, que para nós é muito longe e compensa mais ir a Campinas que é mais perto, e Poços de Caldas – onde pretendo ir e conversar. Tenho a intenção também de trazer um campeonato para Paraíso, nem que seja algo para iniciantes, mas é para chamar a atenção e mostrar o que é a Ginástica Rítmica para a população. O festival que realizamos fez muito sucesso e foi muito bonito e teve um crescimento porque as pessoas perceberam que o que é público também pode ser bom. Queremos por fim a este estigma de que o que é publico é ruim.

J.S.: Você acredita que as escolas deveriam adotar a Ginástica Rítmica?
M.C.S.L.B.: No ensino municipal, através do professor Murilo, ele faz um trabalho bacana da ginástica em si, e dentro da ginástica ele trabalha a acrobática, artística, rítmica; conheço outros professores que também desenvolvem a modalidade dentro de suas escolas, mas principalmente da rede municipal; no ensino estadual eu não vejo isso. Mas é preciso sim, da ginástica nas escolas. É preciso investimento, acolhimento e as escolas poderiam implantar como projeto, até mesmo a Ginástica Geral para enquadrar os meninos porque existe o preconceito de achar que por estar segurando a fita é isso ou aquilo, mas para mim é tudo estigma. Eu acredito que as escolhas são individuais e que devemos ter respeito e amor pelo próximo, se todos tivéssemos isso  o país seria outro. Existe também o estigma de que o atleta é vagabundo e desocupado, sendo que muitas das vezes sua rotina é muito mais árdua do que daquele que trabalha em um escritório.

J.S.: O esporte transforma?
M.C.S.L.B.: Sem dúvida. Eu vejo alunas minhas que vêm de uma situação de pobreza e tenho certeza que vão conseguir mudar a realidade de suas famílias, é minha aposta. É lindo saber que eu posso contribuir com isso, porque o talento é delas e não tem somente o meu esforço, mas o da mãe e da família que às vezes pega três ônibus para levar a menina no treino, não importa o horário; tem mãe que às vezes come um salgado para poder pagar o almoço da filha ou às vezes nem come, é comum isso.

J.S.: Qual o balanço que você faz desta trajetória?
M.C.S.L.B.: A minha história é a daquela menina que saiu de Monte Santo, que foi buscar uma faculdade mesmo sendo longe e se sentido insegura e se viu em um lugar totalmente sozinha, porém com o apoio da família. Minha mãe sempre me apoiou e sempre nos disse para estudar, porque ela trabalhava para que isso pudesse acontecer. E sempre foi assim, também tenho muito a agradecer aos meus avós, ao meu pai e a minha irmã. Meu balanço seria este: eu tive apoio em casa, fiz o que eu quis, mas me foram dadas as condições para que eu pudesse realizar isto e aprovei essas oportunidades. Tudo na vida são oportunidades e você deve estar preparado para abraçá-las, e agradeço muito aos meus professores também porque me abriram a mente, me ajudaram abrindo porta para que eu pudesse ir além e aprender mais. Eu vivi o atleta, desde a origem até o máximo dele e acredito que, dentro das minhas possibilidades, eu me considero uma pessoa vitoriosa. Eu tinha o sonho de ser técnica de alto rendimento, mas hoje tenho certeza que minha vida é ser base, formar o atleta. E quando o atleta for contrato, e o contratante reconhecer a boa formação dele e ele tiver sucesso, de alguma forma estarei compartilhando essa felicidade, por saber que contribuí para isso acontecer. Sou muito realizada, é isso que eu amo fazer.

Milena Cristina de Souza Lopes Bujato - Milena Lopes recebe das mãos da ginasta Angélica Kvieczynski, troféu pelo primeiro lugar no ranking geral da competição