LINGUA SOLTA

Ler e navegar: o leitor e seus gestos de leitura

Por: Michelle Aparecida Pereira Lopes | Categoria: Cultura | 23-05-2019 14:36 | 1641
Michelle Aparecida Pereira Lopes
Michelle Aparecida Pereira Lopes Foto de Reprodução

O texto de hoje funciona como uma espécie de continuação do anterior, publicado no dia quatro de maio: naquele, falamos sobre o livro, objeto cultural da humanidade; neste, elaboramos algumas reflexões sobre quem faz a leitura acontecer: o leitor. Partimos do seguinte questionamento: quem é o leitor deste século XXI e que gestos de leitura ele faz? Falar em gestos de leitura significa que o leitor se constitui como sujeito a partir do modo como lê e das suas relações com os livros. A cada período histórico, um tipo de suporte textual desenvolveu gestos peculiares de leitura, ou em outras palavras, suportes textuais diferentes promoveram gestos de leitura distintos, logo há sujeitos leitores diferentes a cada momento da história.

Quando o homem lia nos papiros, suas mãos estavam presas, impedindo que se fizessem anotações. Mais tarde, com o códex - os livros imensos e pesados - a leitura passou a ocorrer com as mãos livres, uma importante inovação, simplesmente porque passou a permitir que o leitor também fizesse pequenas anotações; algo bem parecido com as leituras feitas enquanto se estuda algum material e, em outro papel, vão se fazendo lembretes e apontamentos.

A invenção da prensa reconfigurou o livro, tornando-o similar aos atuais, bem menores e de transporte fácil; por conseguinte, o modo de ler também se ajustou: a possibilidade de carregar o livro permitiu que a leitura se realizasse em qualquer lugar, tornando-se até mesmo um ato de lazer. Poucas coisas se alteraram até o século XX, quando o gesto de leitura estava bastante relacionado ao livro físico, sendo esse o suporte, por excelência, do texto escrito. Nos livros estavam os textos técnico-científicos - enciclopédias, dicionários, tratados de medicina, entre tantos outros, bem como o texto literário - os romances e as antologias poéticas. O gesto de leitura das obras físicas tornou-se representativo da erudição, da intelectualidade e do conhecimento, consequente-mente, o sujeito leitor, ou o que aparentava sê-lo, ganhou notoriedade.

Hoje, a humanidade dispõe das facilidades dos tablets, dos e-books e de muitos outros dispositivos criados nas últimas décadas do século XX, conhecida como era digital, ou da informação. Essa era tecnológica e informatizada trouxe novos hábitos, dentre os quais a leitura na tela; desde então, o leitor está reconfigurando seus gestos de leitura. Primeiramente, a ausência física do objeto livro já não é mais um empecilho para a leitura, ao contrário, tornou-se possível ler qualquer coisa, não apenas um livro, desde que esteja disponibilizado na rede. Alguns gestos diretamente relacionados à leitura mudaram muito, por exemplo, o modo como se fazia pesquisa e como ela é feita nos dias de hoje: há um tempo, o leitor contava apenas com os livros para buscar as informações de que precisava - quantos não estiveram em uma biblioteca realizando as pesquisas escolares? E hoje? Basta usar uma ferramenta de busca para se ter acesso a uma enorme quantidade de informação sobre o mesmo assunto. Ao leitor, cabe selecionar o que lhe interessa ler, ou não. O leitor navega na rede em busca das informações de que precisa, para isso, precisa ler tudo que aparece na tela, o tempo todo.

Alguns diriam que, para um leitor menos cuidadoso, a leitura em rede pode ser traiçoeira: por oferecer um mar de informações, a internet pode fazê-lo se perder. É fato que nem todos sabem se aproveitar bem dos recursos da internet, da mesma forma que muitos também nunca souberam se aproveitar dos benefícios dos livros físicos.

Longe de ser um texto para dizer que a leitura no/do papel deixará de existir, tampouco para dizer que há menos leitores que antes, este texto é para ajudar na percepção do "novo" leitor que vem se constituindo a partir das práticas de leitura singulares oferecidas pelos suportes digitais. Michel de Certeau disse "o leitor é um caçador que percorre terras alheias"; este texto é para dizer que o leitor do século XXI é um navegador da/na web: navega em um oceano turbulento de informações e, por isso, está construindo novos gestos de leitura para se adaptar a tudo de que dispõe.

MICHELLE APARECIDA PEREIRA LOPES:
Doutora em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos e pesquisadora da constituição discursiva do corpo feminino ao longo da história. É docente e coordenadora do curso de Letras da Universidade do Estado de Minas Gerais - Unidade de Passos.