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João Pedro: Um educador que acredita no poder da empatia

“Não concordo que cortar verba da educação seja a solução para momentos de crise”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 03-06-2019 13:42 | 1248
 João Pedro é formado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto e atualmente ministra aulas no Clóvis Salgado
João Pedro é formado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto e atualmente ministra aulas no Clóvis Salgado Foto de João Oliveira

O professor de História, João Pedro Menezes Jacinto é um jovem que tem ganhado espaço entre seus alunos pela maneira leve e divertida de ensinar. Professor na Escola Estadual Clóvis Salgado, desenvolve projetos que agradam aos alunos e tornam mais leve a assimilação de conteúdo e estimulam o envolvimento de seus educandos. Não por acaso, um de seus projetos concorre ao Educador Nota 10 e, mesmo que não haja o reconhecimento merecido, já lhe rendeu o título de professor mais legal entre seus alunos. João é natural de Ibirací, filho de Maria Silvia Andrade de Menezes Jacinto e de João Roberto Jacinto e atualmente divido seu tempo entre a escola e os estudos do seu mestrado em História da Educação. É sorridente e bem humorado que conta um pouco da sua trajetória ao Jornal do Sudoeste e fala sobre suas percepções da educação.

Jornal do Sudoeste: Como foi a infância em Ibiraci?
J.P.M.J.: É uma cidade que tinha na época entre cinco e seis mil habitantes, é uma cidade minúscula. Foi onde tivemos muita liberdade para brincar na rua; corríamos a cavalo, de bicicleta, andávamos por todos os espaços da cidade. Foi um lugar muito tranquilo de passar a infância porque ficávamos na praça até às 22h e não havia riscos; quando se falava em assalto, por exemplo, ficávamos até assustado por ter acontecido, era raro. É uma cidade onde todo mundo conhece todo mundo, tanto que quando voltei para dar aulas lá eu era o neto da dona Nilvi, ou filho do João Roberto, ou da Silvia, que era a minha mãe. Na infância tivemos um supermercado, onde aos sete anos passei a trabalhar como empacotador, ganhava R$ 1 por dia (me achava riquíssimo). Entre os nove e dez anos passei a trabalhar no caixa (era uma espécie de gerente e já fazia compras com os fornecedores, porque nesta época minha mãe começou a trabalhar em Franca já que nossa situação financeira não estava boa; meu pai foi para a roça e eu e meus irmãos tocamos o mercado, até que meus pais venderam o estabelecimento e nos mudamos de vez para Franca.

Jornal do Sudoeste: Por que você quis estudar História?
J.P.M.J.: No Ensino Médio eu tinha muita dúvida em relação ao curso, e inicialmente minha intenção era estudar Publicidade e Propaganda porque eu gostava muito de trabalhar com organização de eventos e coisas afins, no entanto, um professor de física, que tinha o apelido de Jiló, disse que isto era coisa de quem não sabia o que queria fazer da vida – então passei a pensar no que eu queria, já que o que eu achava que queria... Depois disso, eu pensei em jornalismo, tinha amigos que faziam o curso,  e pensei que poderia ser legal, mas não cheguei a prestar vestibular. Prestei vestibular inicialmente em Letras na Facef, passei – aquilo queria dizer que eu estava no caminho certo; no segundo ano, passei em História da Universidade Federal de Ouro Preto e em Letras da Universidade de São Paulo. Eram áreas que eu vi que era possível; no terceiro ano, na mesma época era possível usar a nota do ENEM do ano anterior e como eu tinha 18 anos, vi que era possível ir para Mariana e fui, a intenção era ficar até o fim do ano, após eu prestaria vestibular para História na USP, mas não passei por um ponto. Por fim, decidi ficar em Mariana, já havia me adaptado. Mariana é uma cidade do tamanho de Paraíso e que recebe muitos turistas.

Jornal do Sudoeste: Havia decidido ficar...
J.P.M.J.: Sim, era uma cidade que eu andava por todos os lugares a pé ou de bicicleta, mas tive algumas crises ao longo do curso e pensei em transferir para o Jornalismo, mas não cheguei a fazer isto porque eu pensava que estava acabando. Desisti desta ideia e acabei sendo aprovado no concurso aqui para Paraíso, porém eu ia me formar no final de 2015, faltava um ano para isto. Entretanto, mesmo depois de formado não fui chamado, então fui trabalhar em Ibiraci e morar no sítio com meus pais nos dias que eu não trabalhava. Nesta época fiz disciplina na Unesp de Franca, em História, estudava para conseguir entrar no Mestrado de História e aperfeiçoar meus conhecimentos de Espanhol, que é uma língua que eu gosto muito de aprender e ensinar. No final do ano, me mudei para BH, onde tinha um mestrado na UFMG que eu queria muito fazer e que eu faço atualmente: História da Educação. Este mestrado me dava a possibilidade de estudar a História da Educação num período que nenhum mestrado pesquisa: a história da educação no Brasil Imperial. Os manuais que eu pesquiso são de 1831 a 1834, um período que tem poucos mestrados que te dão a possibilidade de estudar. Então, estava em BH, trabalhando e estudando até que fui chamado para vir trabalhar em Paraíso, e aqui estou há dois anos.

Jornal do Sudoeste: Como foram esses processos de mudança?
J.P.M.J.: Nunca é fácil, você precisa crescer na marra e quando saí de casa eu nem sequer tinha noção do que era ter conta em banco, pagar minhas contas todo mês e etc. Em Mariana fui para morar com seis pessoas, depois passei a morar com oito. Era uma república mista e era preciso um respeito muito grande uns com os outros; eu era um pouco líder e cobrava as obrigações em relação aos cuidados com a casa. Neste sentido, me tornei muito adulto em pouco tempo. Também, ir para BH foi complicado, era uma capital e, apesar de morar perto do meu emprego, demorava 30 minutos para chegar até lá. É outra realidade. Também me assustou muito o fato de você estar sozinho, você não conhece ninguém – há o lado bom nisto, mas também há o lado ruim. Apesar de tudo, foi uma experiência muito boa e aprendi muito lá, principalmente sobre a minha profissão. Ser professor não é fácil, você tem sempre que estar buscando novas metodologias, novos trabalhos, projetos e sempre estar criando. Sou um professor que os alunos estão sempre elogiando neste aspecto porque eu gosto de criar.

Jornal do Sudoeste: Já conhecia Paraíso quando veio para cá?
J.P.M.J.: Eu vim a Paraíso uma vez, quando tinha seis anos. A época teve um concurso de trabalhos sobre os 500 anos do Brasil e o trabalho do meu irmão foi indicado. Viemos para cá, a homenagem aconteceu no Clóvis Salgado, onde 16 anos depois vim dar aula. Quando cheguei ao Clóvis, via que a escola não me era estranha e, com o tempo, trabalhando, aos poucos fui lembrando daquela época. Prestei meu concurso também no Clóvis Salgado e estava torcendo para não passar, não achava que tinha nascido para dar aula e hoje percebo que todos os caminhos me guiaram a isto, desde a minha infância quando ganhei uma lousa da minha avó para escrever (para me tornar uma criança mais comunicativa), aos 11 eu ganhei um mimeógrafo para fazer minhas atividades e aos 12 passei a ajudar os outros alunos; hoje percebo que era para ser assim.

Jornal do Sudoeste: A educação passa por muitas polêmicas atualmente. Quando começou pensou que seria assim?
J.P.M.J.: Não. Quando escolhi estudar História ainda não havia esse contexto de perseguição e, na época, não existia a menor possibilidade de você gravar o professor na sala porque era um ambiente onde esse profissional era respeitado. Houve muitas mudanças e você precisa tomar cuidado com o que fala tendo em vista essas ferramentas de comunicação que eu me questiono se estão sendo utilizadas da maneira adequada. Acredito que muito pode ser resolvido em um diálogo, pois se há algo da aula do professor que incomoda, por que não conversar com ele? Ademais, quando escolhi estudar história, vivíamos um momento de muita esperança no país: a Copa estava vindo, o pré sal traria riquezas, a economia estava crescendo, o país parecia estar evoluindo politicamente e parece que tudo isto, a partir de 2013 desmoronou, em 2014 acentuou com os movimentos anticopa, em 2015 com abertura do impeachment da Dilma, que foi concretizar-se em março de 2016; a partir daí, parece que a sociedade entrou em uma depressão, onde nada evolui e sai do lugar. Tudo isso atingiu a educação, principalmente os cortes de verba, que vieram desde o governo da Dilma - apesar de ter usado em sua campanha o lema “Pátria Educadora”... Temer e Bolsonaro continuaram com essas políticas de cortes...

Jornal do Sudoeste: E como você analisa este quadro?
J.P.M.J.: Apesar desse fato, tudo isto me impulsiona e me incentiva a continuar e acreditar que estou no caminho certo. Hoje eu não me arrependo, e a aula se tornou para mim, num primeiro momento, um grande processo terapêutico. Era onde eu conseguia extravasar todo o meu lado criativo e que durante muito tempo era sufocado em outros espaços onde não tinha liberdade. Já fui questionado uma vez por uma diretora se eu tinha certeza que queria dar aula e hoje, quando vejo meus alunos curtindo minhas aulas, então eu percebo que nasci para isto – ou talvez as coisas foram me guiando para ser um profissional melhor.

Jornal do Sudoeste: Quando você recebe esse feedback positivo, como você se sente?
J.P.M.J.: É muito enriquecedor. Muitas vezes ouvimos do aluno que aquilo que você passou nem era um trabalho, de tão legal que foi desenvolver ou que querem fazer aquela atividade novamente, ou ainda que finalmente aprendeu a matéria. Isto nos faz se sentir valorizado, ao passo que isto não acontece no sistema, que não quer na sala da escola pública, bons profissionais, quer ali pessoas que vão repetir, não vão questionar e nem problematizar nada. Quando recebemos um feedback positivo é muito bom e acabamos nos incentivando mais, afinal de contas,  professor é um dos profissionais que mais têm afastamento por motivos de saúde, problemas psicológicos entre outros. A sala de aula é desgastante e você precisa pegar aquele peso dos alunos e retornar para ele de forma mais leve. São muitas energia ali dentro daquele espaço, e numa idade que não é nada fácil. É também um espaço onde eu aprendo muito com cada aluno, que tem histórias de vida lindas e, mais de uma vez, cheguei a casa e chorei pensando naqueles problemas.

Jornal do Sudoeste: E o que você pensa em termos futuros, como Professor?
J.P.M.J.:  Às vezes fico refletindo se no futuro terei espaço para ser professor, principalmente para o professor de História. Eu também não gostaria de ministrar aulas em outras áreas. Além disto, por meio da História você passa a se entender enquanto ser humano, e acredito que para mim foi um processo terapêutico muito bom durante a minha formação, afinal, entender a história da humanidade, você entende sua própria história e seu lugar no mundo.

Jornal do Sudoeste: E a sua visão sobre o mestrado em História da Educação?
J.P.M.J.: Quando estudamos a História da Educação percebemos como a educação sempre foi negligenciada no Brasil. Nunca foi um interesse nacional de que é necessária uma educação pública, gratuita e de qualidade para que melhorássemos com seres humanos e sociedade. Até hoje, na história recente, não houve um governante que mudou isto, mas é claro que houve avanços e hoje a educação está melhor do que há alguns anos. No início a educação pública e gratuita era para um público muito pequeno, e quando foi se tornando cada vez mais pública e gratuita, sua qualidade não acompanhou esse crescimento. Isto desde o Brasil império, e naquela época o público, não queria dizer gratuito.

Jornal do Sudoeste: Quando você estuda o Brasil, refletindo essas características do Império, como você encara a situação?
J.P.M.J.: Tem-se regredido muito frente ao que se desenvolveu e se conquistou na área da educação graças à luta de muitos profissionais. Depois de muitos anos você vê um desmonte da educação e pessoas defendendo isto usando como justificativa a crise. Mas há formas de enfrentar a crise sem precisar tirar da educação, há outras formas de fazer. Essas crises fazem parte da história da humanidade; não concordo que cortar verba da educação seja a solução para momentos de crise, há outras questões que dá para cortar, e muita gente sabe onde é possível fazer isto. Mas a negligência da educação é histórica, e nem sei se esses grupos de governantes já pisaram dentro de uma escola para saber o que nós vivemos ali dentro. Eu já dei aula em diversas escolas públicas, e acredito que as pessoas não têm noção do público que recebemos nessas salas de aula; a realidade ali é de alunos que vão para comer e dependem daquela comida porque aquela é a principal refeição do dia. Quando você corta a verba das escolas, você está tirando pequenos direitos de um povo que não tem seguridade social e que são as que mais perdem nesses momentos de crise.

Jornal do Sudoeste: Você tem perspectivas positivas para a educação?
J.P.M.J.: Acredito que a educação vai mudar muito nos próximos 20 anos; estamos caminhando para uma digitalização da educação e cada vez mais o uso das tecnologias é uma realidade que deverá fazer parte do ensino, no sentido de se ensinar ao aluno como fazer o uso correto dessas ferramentas. Neste sentido, como educador me sinto despreparado porque não somos preparados para esta realidade. Neste contexto, sobre o uso errado da tecnologia, eu trabalho sempre a questão da fonte com meus alunos, porque é preciso saber de onde aquela informação saiu e se cobrar isto, tendo em vista que a disseminação de notícias falsas se tornou um problema. Se não houve essa fonte, a informação perde a credibilidade e acredito que a educação caminha para esse viés, de não cobrar o conteúdo pelo simples conteúdo, mas de como o aluno se comporta diante da vida tendo como base este conteúdo ensinado.

Jornal do Sudoeste: Você é um professor que gosta de trabalhar com projeto e tem dois que estão correndo a prêmios. Fale um pouco sobre eles.
J.P.M.J.: Com o primeiro projeto estou concorrendo ao Educador Nota 10 e o outro ao Professores do Brasil. O primeiro é um projeto que se chama “Luz, Celular e Ação” onde os alunos do 9º ano, a partir de temas debatidos em sala de aula, propus que gravassem entrevistas com temas livres usando o celular – eles já usam o celular o dia inteiro, agora teriam que gravar uma entrevista com o aparelho. Essas entrevistas eram tema livres e pertinentes à sociedade, a maioria escolheu trabalhar homofobia, racismo, machismo, feminicídio, entre outros. A partir disto, fomos para a sala de informática, onde eles montaram um roteiro de produção definindo o papel de cada um. Finalizados, saíram entre cinco e seis reportagens muito boas. Com este projeto eles aprenderam a dialogar, a ouvir mais o outro e tem faltando muito isto na nossa sociedade: empatia.

Jornal do Sudoeste: E o outro projeto?
J.P.M.J.: O projeto que está concorrendo ao Professores do Brasil, que é um premio do Governo Federal, está sendo desenvolvido com alunos do 2º ano do Ensino Médio. Neste, nós lemos uma autobiografia, de um negro que foi escravizado chamado Mahommah Gardo Baquaqua, que foi trazido para o Brasil da África. Ele conseguiu fugir das amarras da escravidão para os EUA, onde começa a escrever uma autobiografia, a única de um ex-escravo do Brasil, e que não consta em grande parte dos livros didáticos. Um historiador chamado Bruno Véras reescreveu essa autobiografia. A partir deste material eu monto uma folhinha com os principais pontos da obra, com exercícios que são lincados ao ENEM para que os alunos possam estudar. A partir dessa leitura, eles têm que produzir um texto, se colocando no lugar do Mahommah. O relato dele é muito chocante. O projeto está concorrendo na categoria de aprendizagem criativa, já que trabalhou a questão da escravidão, o gênero autobiografia, autoconhecimento, respeito entre outras questões que a BNCC cobra das escolas.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz desses 25 anos?
J.P.M.J.: A vida é troca, troca do olhar, do sorriso, das palavras e você recebe o que manda para o universo, não tem como colher o que não se planta. Morar em várias cidades me mostrou que independente do espaço geográfico que você esteja, é importante sempre ter gratidão e olhar para o outro com sensibilidade, ter empatia, afinal, nós nunca sabemos o que outro está vivendo para julga-lo, e, infelizmente, é algo muito comum na nossa sociedade. Devemos exercitar mais a empatia em nossa vida e sentir um pouco da vida do outro. Digo isto por mim mesmo, acredito que ainda tenho muito para evoluir e a sala de aula me ajudou muito a ter um olhar sensível sobre o outro.