OBRAS MULHERES

Projeto em Paraíso propõe a leitura e discussão de obras escritas por mulheres

Por: João Oliveira | Categoria: Educação | 03-06-2019 13:50 | 693
Olhos d’água, de Conceição Evaristo. Autora foi homenageada da Olimpíadas de Língua Portuguesa 6ª edição neste ano
Olhos d’água, de Conceição Evaristo. Autora foi homenageada da Olimpíadas de Língua Portuguesa 6ª edição neste ano Foto de Reprodução

Os clubes de leitura são espaços onde leitores compartilham suas percepções sobre as obras lidas ao mesmo tempo em que promove uma troca saudável de experiências e, também, de olhar crítico sobre o texto trabalhado. Em Paraíso, a psicóloga Sarah Lara Naves, com um grupo pequeno, decidiu tornar isto uma realidade no município, formando um grupo que se reúne todos os meses na clínica de psicologia do Espaço Ser e Tempo. Todavia, o foco do grupo é a literatura feita por mulheres, proposta que nasceu com o intuito de viabilizar essa literatura tão apagada ao longo da história. Durante as reuniões, o grupo discute os aspectos gerais e também utilizam textos apoiadores, assim como as percepções de cada um sobre a leitura.

O clube "Leia Mulheres" é inspirado em um projeto homônimo que começou em 2014 com a escritora Joanna Walsh ao propor a hashtag "readwo-men2014", ou em português "leiamulheres2014, com objetivo de se ler mais mulheres, já que, conforme observa a professora de Língua Portuguesa, membro do grupo e doutoranda em Linguística, Alline Rufo, a maioria da literatura publicada, divulgada e estudava é masculina. Segundo explica, isto é fruto de um processo histórico-cultural do apagamento dessa mulher escritora.

"Um exemplo é a mundialmente conhecida J. K. Rowling, autora de Harry Potter, que, no inicio da sua carreira, começou a mandar o manuscrito da sua obra para editoras apenas com iniciais e seu sobrenome como conselho de sua editora para ser publicada e despertar interesse dos leitores. Ou seja, uma forma de apagar o gênero da autora. Assim, a hashtag é importante para mostrar a importância das escritoras e valorizar suas obras, estimulando a leitura e discussão das mesmas", ressalta.

No Brasil, a iniciativa começou em 2015 com as amigas e ativistas Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henri-ques, que transformara a ideia de Joanna Walsh em algo pre-sencial em livrarias e espaços culturais que posteriormente se espalhou para diversas cidades do Brasil. É possível acompanhar o trabalho de vários Leia Mulheres pelo site "leia mulheres.com.br".

"Em São Sebastião do Paraíso decidimos começar um "Leia Mulheres" porque, além de gostar muito de ler e discutir literatura, queríamos ter um propósito. O clube de leitura de escritoras foi uma escolha acertada. O primeiro encontro ocorreu no mês de março, no Espaço Ser e o Tempo e a primeira obra escolhida foi a coletânea de contos Olhos D"água de Conceição Evaristo, que foi homenageada da Olimpíadas de Língua Portuguesa 6ª edição neste ano", ressalta a professora Alline Rufo.

A escolha da obra, conforme explica Rufo, se deu por conta da importância da autora. "É um mulher negra, mineira, doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), que concorreu a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e coleciona obras de grande importância. Em Olhos D"água a autora retrata a realidade da população negra brasileira, suas dores e amores, principalmente de mães e jovens mulheres da periferia. Sem sentimentalismo, fala sobre o cotidiano dessa população, gerando nos leitores momentos de angústia, choro e reflexão", ressalta.

Para próxima reunião a obra elegida pelo clube foi um clássico da literatura britânica, Jane Eyre de Charlotte Brontë, obra mais conhecida da autora, publicada em 1847. O livro em questão traz uma crítica social e moral, colocando-se não só à frente de seu tempo, mas sendo, ainda, uma leitura atual ao apresentar como protagonista um mulher forte e independente. 

Para Alline Rufo, quando se olha criticamente para nossas leituras, pessoais ou acadêmicas, percebe-se que estas estão povoadas de nomes de homens, majoritariamente brancos. "A um primeiro momento parece ingênuo pensar que tal fato seja um problema, no entanto, quando observamos que a história é construída sobre um ponto de vista narrativo é como se deixasse que outros contassem nossas próprias narrativas, a partir do seu olhar", avalia.

"Ao escolhermos ativamente ler mais mulheres (principalmente, mulheres negras), mudamos a narrativa ou deslocamos o nosso olhar para uma nova percepção de uma realidade que pode não ser a nossa e a literatura tem esse potencial magnífico, de nos fazer colocar no lugar no outro e compreender suas vivências, nos tornando mais empáticos e solidários. Assim, iniciativas como essas são importantes e necessárias. Tais discussões são comuns em grupos de estudo/acadêmicos em universidade, então uma iniciativa que tange mover a sociedade como um todo precisa sim ser valorizada e divulgada", acrescenta.

Para a Historiadora e Psicóloga Paula Souto Machado, durante muito tempo as mulheres estiveram silenciadas e desconsideradas dentro da sociedade. "Suas ideias eram sequer ouvidas. Estamos no século XXI e, embora tenhamos conquistado muito espaço, ainda estamos em luta constante. No campo da literatura, na maioria das vezes, as mulheres são apresentadas de formas caricatas, muitas vezes (d)escritas por homens. O que pensam e como agem são apenas reflexos estereotipados do que a sociedade, ainda bastante machista, julga adequado e aceitável para o comportamento e pensamento feminino - "a bela, recatada e do lar", ou são retratadas como histéricas transgressoras".

Paula destaca ainda que, nesse sentido, o projeto é importante porque nos estimula a consumir um retrato de mulheres, escrito por mulheres, permeado de vivências femininas reais. "Não estamos mais silenciadas, nossas ideias têm valor e devem ser ouvidas, nossas vivências são, em muitos aspectos, afetadas pelo evento de ser mulher - mulheres que não seguem o padrão idealizado e irreal, mulheres que estão na luta cotidiana, que enfrentam o mundo com ideias próprias" destaca.

A psicóloga Sarah Lara reforça que o projeto busca dar visibilidade maior às mulheres que durante muito tempo foram ofuscadas. "Agora é que estamos tendo uma visibilidade maior, mas o mercado de trabalho ainda é muito restrito. O "Leia Mulheres" pretende dar visibilidade tanto às escritoras contemporâneas quando as escritoras clássicas. Por que literatura e psicologia? Porque acreditamos que as artes de maneira geral faz com que a pessoa entre em contato com aspectos de suas vidas e a estimule falar sobre e, também, estimular o sentimento de empatia, no sentido de se colocar no lugar do outro e pensar com o outro ao seu lado. Acreditamos que a literatura pode contribuir para tudo isto", ressalta.

Segundo explica Sarah, o contato com as artes e, principalmente, literatura pode ajudar o ser a lidar melhor com seus sentimentos por meio de uma identificação de um personagem da literatura. "O Leia Mulheres propõe que pensemos sobre aqueles personagens e a partir deste contato, consigamos repensar nossa existência.

Deste modo, o clube, além de divulgar a leitura feita por mulheres, também nos estimular a refletir sobre a vida. Acredito muito no poder dessas artes. A literatura permite as pessoas ver o mundo de uma forma diferente e muitas das vezes desperta sentimentos nas pessoas que estavam adormecidos ou até mesmo nunca sentido", completa.

Jane Eyre, de Charlotte Brontë, é um clássico do século XIX e discute temas importantes como o espaço da mulher na Era Vitoriana