ELY VIEITEZ LISBOA

Risco máximo

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 08-06-2019 05:35 | 199
Foto de Reprodução

Viver é perigoso mesmo! Guimarães Rosa tinha razão quando  deu o alerta. E há os incautos que não acreditam ou ignoram a verdade terrível. Entusiasmado com o presente (de grego?) do livre-arbítrio, o homem sente-se senhor de sua existência. E os alçapões? E os impasses? Antes de levar a primeira lambada do látego da vida, ele acredita nos mitos, nas promessas, nas boas intenções. Após a primeira esfrega, tudo são dúvidas.

Não é preciso participar de uma grande celeuma, como a provocada pelo filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Ele investe alto para contar as doze horas finais do Cristo. Por falar nisso, assisti ao filme, mas com muito cuidado , lucidez, vendo mais a técnica, fotografia, desempenho dos atores, a truncagem notável da narrativa, enfim, o filme como cinema. É bem verdade que não sou tão corajosa. Sempre baixava os olhos nas cenas demasiadamente violentas. 

Ora, na vida os problemas são muito mais complexos. Primeiro vêm os mistérios metafísicos. O que há no depois? Como será a passagem? Morte é bilhete sem volta? Passa-se após, lá pelos vinte anos, por perquirições sobre a profissão, casamento, educação dos filhos. Tudo é no escuro, na insciência completa, nas possibilidades, na espera angustiante. A realidade não compete jamais com o sonho. Este é perfeccionista, detalhado, lírico, belo. Ela é rude, prática, corrida de obstáculos, desmitificação de nossas verdades intocáveis. A quem se queixar? Não há guichê de reclamações, nem manual de instruções. Os resultados nunca dependem só de você. Por Deus, viver devia ter uma compensação por insalubridade! Doenças inesperadas, micróbios, vírus, vícios que subjugam, enfraquecem, matam. Há vários tipos de surpresas no cardápio da vida. Caminhos sem volta (a vítima paga com juros altos o erro cometido e nunca resgata o título).

Amores pretensamente eternos tornam-se meros episódio efêmeros, deixando cicatrizes indeléveis. Planos perfeitos (profissionais, financeiros, futuro dos filhos) que, de repente, dis-torcem-se, desvirtuam-se, mudam de rota, pegam ínvios desvios, acabam em  fracassos. São guerras inesperadas, dos outros, ou nossas, tentações, traições, pedras nos caminhos e até quedas, denotativa-mente falando, derrubam-nos, provocando-nos hematomas nas carnes e/ou no orgulho ferido. Há espíritos malvados ou brincalhões achincalhando nossa luta? 

Às vezes, no Grande Processo, hasteia-se a bandeira branca: manhãs frescas e azuis, pores-de-sol de encantamento, encontro inesperado com o amigo querido, momentos agradáveis, raras surpresas boas. O ser humano é um otimista. No meio da procela, bastam alguns minutos de bonança, ei-lo feliz, acha que tudo vale a pena. Tem amnésia constante, esquece-se do sádico processo e acredita na mudança de porcentagem... Coisas melhores virão. É mau aluno de História.

Talvez o leitor deteste a lucidez dessa análise realista (sim! E não pessimista ou niilista!), mas terminar a digressão é preciso. Tudo é incongruente. Nem é necessário apelar para a literatura e/ou para livros de ficção científica. Quando se criam mundos perfeitos, junto a eles vêm o tédio, o desinteresse. A prova cabal é o número altíssimo de suicídios em países evoluídos, do Primeiro Mundo, com Economia estável, sem meninos de rua, mendigos, prostituição infantil tão abundante, fome, nível altíssimo de desemprego, uma das piores Educações do mundo, analfabetismo. Parece que o inferno é aqui, lá o Éden. No entanto, os brasileiros suicidam-se menos.

Uma das respostas viáveis às perquirições salta-nos à vista, hipótese possível. São as dificuldades, os percalços, o suor da luta, os impasses, doida mistura, tudo é que dá o tempero do sentido da vida.

(*)Ely Vieitez Lisboa é escritora.
elyvieitez@uol.com.br