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Waldemar Joia: Um paraisense em constante evolução

“Filantropia não é colocar a mão no bolso e dar ao semelhante. Há muitas outras maneiras de ajudar sem precisar de dinheiro”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 10-06-2019 10:03 | 1866
 Waldemar Galvão é empresário e pioneiro na locação de ferramentas para construção civil
Waldemar Galvão é empresário e pioneiro na locação de ferramentas para construção civil Foto de João Oliveira

O paraisense Waldemar Antônio Galvão, mais conhecido como Waldemar Joia, é um empresário que dedica grande parte do seu tempo a causas sociais e a tentar mudar a realidade daqueles que precisam de alguém que interceda por eles. Atual presidente do Conselho Municipal dos Direitos do Idoso, vem desenvolvo importante papel para o cumprimento das políticas públicas voltadas a pessoa idosa, e contribuindo como pode para melhorar a situação dos idosos no nosso município. Filho de José de Souza Vieira, conhecido por Zé Ninico, e de dona Isabel, famosa pelos queijos que fazia, Waldermar, 67 anos,  é casado com Norma da Cunha Galvão, pai da Lara, Leandro e Lúcio. Waldemar acredita que filantropia é muito mais que doar dinheiro, mas sim doar tempo e se dedicar àqueles que estão internados em instituições de acolhimento permanente. Ele acredita que este é um dever de cidadão e recebe a reportagem do Jornal do Sudoeste para falar um pouco mais seu modo de encarar a vida.

Jornal do Sudoeste: Por que Waldemar Joia?
A. G.: Sou muito conhecido assim, talvez por ser do comércio e muito ativo na vida social. Sou paraisense, empresário, trabalhei 25 anos em uma empresa e me tornei um amigo da população e fiquei conhecido por Joia.

Jornal do Sudoeste: Você sempre viveu em Paraíso?
A. G.: Sim. Nasci na Itaguaba, fui criado em Paraíso e aqui formei meus filhos e construí minha família. Hoje meus filhos são autônomos, sou um homem muito feliz e atualmente quero doar mais de mim para sociedade. Já estou em uma idade mais avançada e acho que tenho condições de cuidar, não apenas de mim e da minha família, mas da comunidade também. Faço parte da Loja Maçônica Frater-nidade Universal, centenária em Paraíso, o que me orgulha muito, que me ensinou muito, que me deu muita retidão para ter meu negócio e criar minha família com dignidade. Pertencendo a esta entidade, eu também a represento no Conselho Municipal dos Direitos do Idoso. Esta é uma oportunidade que tenho de ajudar os indefesos, que para mim não são somente os idosos, mas também o deficiente e a criança, que precisam de alguém para lutar por eles. Existem as leis, mas elas nem sempre podem ser cumpridas no momento de necessidade do cidadão.

Jornal do Sudoeste: Como foi sua infância?
A. G.: Morei na Itaguaba até meus seis anos, após nos mudamos para a cidade, porque precisava estudar. Aqui comecei a trabalhar no Lar Moderno, onde fiquei por sete anos; depois trabalhei 12 anos na Real Móveis como funcionário, até me tornar sócio com uma participação pequena, e fiquei por mais 13 anos. Foi um lugar que me deu muito suporte. Meu ex-patrão e ex-sócio, Rui Barbosa,  era um filósofo e usava o nome Rui Barbosa não era á toa. Aprendi demais com ele. Era uma pessoa justa, honesta e que me ensinou muitas coisas que prezo muito e que passo para as pessoas do meu convívio e da minha família, é o que o outro Rui Barbosa escreveu: se o homem soubesse o tanto que é bom ser honesto, seria honesto por malandragem.  Ser honesto é uma forma de ser “malandro”, porque é através disto que você conquista seu espaço, permanece em uma só empresa por 25 anos, cria a sua família e cumpre os seus desejos, sendo um cidadão honesto e conquistando coisas boas para si mesmo.

Jornal do Sudoeste: E deste modo, conseguiu transmitir esses valores.
A. G.: Sim, sou de uma família tradicional e muito trabalhadora. Assim consegui criar meus filhos. Tenho uma filha, a Lara Galvão, que é arquiteta, escritora e que me dá muito orgulho; tenho o Leandro, mais conhecido como Sukita, que é advogado, foi administrador hospitalar e hoje continua no ramo do comércio; tenho o Lúcio, que fez Engenharia Mecânica e trabalha no seguimento de extração de petróleo e morou no México por cinco anos, mas agora está de volta ao Brasil, em Macaé. Todos têm seus relacionamentos estáveis e estou muito feliz e realizado. Hoje eu e minha esposa temos esse pequeno negócio, a Fácil Locadora, que completa 20 anos este ano.

Jornal do Sudoeste: É um negócio pioneiro, não é mesmo?
A. G.: Sim. Criamos a cultura de locar equipamento para construção civil. A empresa foi fundada em nove de setembro de 1999. Somos paraisenses, não saímos daqui e aqui queremos viver e melhorar o ambiente. Estamos dando nossa contribuição, participando das entidades, colaborando com o município e participando de campanhas filantrópicas com o objetivo de melhorar o meio ambiente que vivemos, porque isso nos dá felicidade.

Jornal do Sudoeste: Como encara essa evasão de pessoas que dizem que aqui em Paraíso não oferece muitas oportunidades?
A. G.: É algo natural e crises econômicas fazem isso acontecer. Às vezes, buscando melhora, a pessoa quer sair do país, quer sair do estado ou do município. Nossa cidade é limitada, mas nós temos que continuar aqui e fazer algo para melhorar. Sempre fiz parte da Associação Comercial, que é algo que alavanca a nossa cidade, e acredito que há campo pra tudo, mas nós temos que ser criativos, assim como eu fui ao criar este meu seguimento de locação de equipamento. Nem tudo é bom a todo momento. Estamos numa fase que precisamos conservar o que tem e aguardar; passamos por momentos políticos complicados, mas é algo que agora vai se assentar. Em Minas saímos de um governo complicado, que não cumpria com a folha de pagamento, que não pagou nem o 13º do funcionalismo e não deixou dinheiro para aplicar em nada. Mas isso não aconteceu só em Minas. Estamos com um governo novo, que vai demorar para acertar tudo. Já enfrentamos outras crises antes, de Cruzeiro, de Cruzado, de congelamento de poupança. Tudo isso passa e melhora.

Jornal do Sudoeste: Paraíso sofreu os reflexos dessa situação, não é mesmo?
A. G.: Sim, não houve repasses do governo federal, do governo estadual e se estamos em uma situação difícil não é má vontade do gestor. É o resultado de uma crise que precisamos aguardar. Aqui também vivemos uma administração pública complicada, elegemos um candidato que não foi feliz em sua administração, que não pagou sequer nenhum imposto do município. A atual gestão parece que tem a boa vontade de acertar tudo isto, são pessoas inteligentes que estão ali dentro, compostos por um secretariado voltado para a administração pública e uma equipe envolvida com o município. Temos que dar um voto de confiança, aguardar e não mudar de Paraíso ou mudar de ramo, assim com crises anteriores passaram, esta vai passar. Temos que ser tolerantes. Eu acredito que as coisas vão mudar e nós só passamos seis meses pelo atual governo, acredito que dentro de mais seis meses já haverá um norte e as coisas vão se acertar, é o que eles querem fazer até mesmo para tentarem ser reeleitos.

Jornal do Sudoeste: O senhor já viu muita coisa acontecer em Paraíso. Já houve momentos tão difíceis quanto?
A. G.: Tivemos momentos onde nós nos desanimávamos, não havia reconhecimento, você pagava seus impostos e não via ele sendo aplicado no município. O Município e o Estado têm muita coisa a recuperar, são estradas que precisam ser melhoradas, entre outras questões. Hoje, se há intenção de trazer uma indústria, é uma série de situações que precisam ser estudas: a Cemig consegue atender a essa demanda? A Prefeitura tem condições de doar uma área? A Câmara consegue aprovar uma isenção de impostos? Então, são muitas questões que precisam ser vistas. Há leis, e hoje nada pode ser feito de qualquer jeito. Temos muita coisa para fazer, o Brasil ficou parado, o município ficou parado e não foi por vontade própria. Foi uma consequência de transformações naturais. Então, eu digo que devemos fazer nossa parte, nos reunir, promover audiências públicas e envolver toda a comunidade. Infelizmente, o povo prefere ficar em casa vendo sua novela, e não pode ser assim, tem que participar dessas discussões.

Jornal do Sudoeste: O senhor é muito proativo. Qual a importância dessa proatividade?
A. G.: Isso é cumprir meu dever de cidadão. Eu acredito que precisamos não só jogar pedra, mas também ficar do outro lado da vidraça. Discute-se muito a situação do município, mas precisamos ver o que é prioridade: vamos ter uma festa ou vamos ajudar a uma entidade? Há situações que me deixam muito feliz, a educação, por exemplo, está muito bem atendida. Acompanho o trabalho do Campos do Amaral, que tem alunos em todos os turnos, e fiz uma visita a noite. Tem alunos que vão à noite direto do trabalho a pé ou vão de circular (paga por alguma entidade), para ir estudar, mas antes tomam um banho e comem na própria escola, depois estudam, e, por fim, tomam um café reforçado antes de ir embora no meio da noite. O município proporciona isto e muita gente não tem conhecimento, tem feito coisas que não aparecem e isto é muito nobre. Isto é priorizar o dinheiro público. Não podemos só jogar pedra, temos que fazer visitas, se colocar no lugar da vidraça.

Jornal do Sudoeste: É importante se solidarizar também, não é mesmo?
A. G.: Filantropia não é colocar a mão no bolso e dar ao semelhante. Há muitas outras maneiras de ajudar sem precisar dar dinheiro. Você pode visitar um doente, conversar, falar que ele está bonito, perguntar sobre a vida dele, enfim, a pessoa abrigada em uma instituição de longa permanência, ela quer conversar, falar sobre a vida. Dar esse carinho é uma filantropia às vezes maior que dar dinheiro. Vai lá fazer um carinho nessa pessoa, substituir a família que o abandou em uma instituição e não o visita mais. Há muitas maneiras de ajudar. Às vezes é muito melhor você chegar lá sem avisar e dizer “vim te ver”. Olha que nobreza. Já imaginou você num lugar preso, isolado, triste e de repente chega alguém querendo te ver?! Isso é muito bom e gratificante. Nós precisamos melhorar e temos muito a fazer e na maioria das vezes não fazemos.

Jornal do Sudoeste: Em setembro sua empresa comemora 20 anos. Qual é o segredo de tanta longevidade?
A. G.: Não tem muito segredo, a receita é perseverança e tolerância. A economia ao longo desses 20 anos mudou muito, houve momentos bons e ruins, mas você tem que permanecer esperando a melhora como estou fazendo. Você precisa sempre se atualizar, participar de feiras que existem em São Paulo e Belo Horizonte no seu ramo de negócio. Precisa estar informado no seu sindicato, receber cursos e se manter atualizado com as inovações que existem. Antigamente, por exemplo, cortava-se eucalipto para escorar laje, hoje em dia já não pode, e a partir daí você precisa criar mecanismos para substituir isto, entre outras questões. Eu costumo me atualizar sempre e ter o que é necessário e dentro do que as normas de segurança do trabalho exigem. O segredo é se informar, não pode se acomodar. Nesses 20 anos, o que fiz para continuar no mercado foi justamente isto: atualização, fui ver as tendências, o que tem sido usado, quais as novidades que existem. É preciso também investir no treinamento de funcionários, ensinar, estar em contato com o cliente e o profissional e mostrar que há novos equipamentos. Isto tudo é uma maneira de continuar nosso negócio, que nos dá o nosso sustento.

Jornal do Sudoeste: Se fosse dar um conselho para aqueles que estão começando, qual seria?
A. G.: Temos que plantar, regar, podar, esperar a árvore crescer para só depois vir o fruto. Assim são os negócios. Não é só abrir as portas e começar faturar. Você precisa investir e ter um capital próprio, não é apenas pegar um capital no banco e montar seu negócio, porque senão ele já nasce morto. Tem todo um percurso a ser seguido, e muita coisa a considerar, é preciso um planejamento. No início você só tem despesa, não é muito conhecido, então é preciso pensar em muita coisa antes de pensar em montar um negócio. Tem que construir uma história.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você desses 67 anos?
A. G.: Eu fiz uma programação de vida e foram coisas simples que aquele mineiro que migra da roça para a cidade pensa, entre elas ir para a cidade, trabalhar no comércio e ser comerciante; estudar, mas não sabia se conseguiria porque meus pais não tinham condições de bancar sete filhos no estudo, então preferi prio-rizar meus irmãos e diante disto tive poucos estudos, mas tracei uma meta desde cedo. Queria meu porto-seguro, pagar minha aposentadoria, ter meu plano de saúde para me resguardar, casar e ter filhos, e estudar meus filhos. Felizmente conseguir fazer tudo isto. Já estou aposentado, criei este pequeno negócio que me dá um suporte financeiro, continuei trabalhando, mas fiz uma nova programação: hoje quero viajar mais e me dou esse luxo porque planejei isto. Acho que trabalhar terça, quarta e quinta já está bom demais para um velhinho de 67 anos. Nem sempre consigo fazer isto, porque também faço minhas filantropias. Em 2020 será outra etapa, quero vir aqui como proprietário, não ter mais a obrigação de estar todos os dias presentes. Quero ter mais tempo para cuidar das entidades. Estou sempre em evolução, precisamos ser sucedidos e criar sucessores e para isto precisamos nos planejar. Minha esposa me ajuda muito e me apoia muito, e não é fácil aguentar um marido exigente e ativo e cheio de atividades como tenho.