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Evelina do Carmo Machado Paschoini: uma vida de amor e dedicação ao próximo

“Acredito que nenhum ser humano está aqui por acaso, Deus lhe coloca onde você precisa estar, para que você frutifique”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 07-07-2019 18:58 | 1546
Fundadora do Evelina Buffet, Evelina foi pioneira em buffets em Paraíso
Fundadora do Evelina Buffet, Evelina foi pioneira em buffets em Paraíso Foto de João Oliveira

Não há em São Sebastião do Paraíso quem não tenha ouvido falar da dona Evelina, fundadora de um buffet que, além de ter sido pioneiro, marcou a vida de muitas famílias no município. Filha da senhora Else do Carmo Machado, de 98 anos, e do saudoso farmacêutico João Evangelista Machado, ela foi a oitava filha de 11 irmãos. Habituada a uma família numerosa, cresceu em meio a muita gente, rodeada de amor e carinho e “aprontou” muito na infância. Com o pai, que perdeu aos 21 anos, aprendeu que o maior legado que se deixa para um filho é a sua história pautada sempre no caminho correto e com Deus como guia. Evelina é casada com o torneiro mecânico Sebastião Edson Paschoini e mãe da Renata, Soraia, Thiago e Edson, e avó do Sebastião, do Antônio e da Sophia. É com carinho que ela recorda da infância e confidencia ao Jornal do Sudoeste algumas de suas memórias mais preciosas.

Jornal do Sudoeste: Seu pai era um farmacêutico num tempo em que este profissional era tudo, não?
E.C.M.P.: Sim. Naquela época o farmacêutico era o médico da família, conhecia todo mundo e sabia o que cada um sentia, sabia de cada particularidade e era mais fácil tratar os problemas de saúde de cada um. Naquela época havia bons farmacêuticos, ele não foi o único.

Jornal do Sudoeste: Como foi a infância?
E.C.M.P.: Eu cresci numa família de 10 irmãos, minha mãe teve 11 filhos, mas um morreu muito cedo. Tudo era uma festa, qualquer refeição era festa. Nós somos de uma família muito numerosa, muito grande. Tanto que quando me casei dizia que tinha apenas quatro filhos, como se isso fosse um defeito (risos). Vivíamos em uma casa no Jardim Novo, onde hoje é a Praça da Fonte, que tinha um quintal muito grande, repleto de árvores. Era um bairro com muitas famílias, e que tinham muitas crianças também, então a Praça da Fonte era o quintal da nossa casa. Meu pai não gostava que ficássemos muito fora de casa, então levávamos os vizinhos para dentro.

Jornal do Sudoeste: Você era muito moleca?
E.C.M.P.: Eu fui. Brincava muito com boneca, mas sempre acompanhava os meninos, porque acima de mim tinha dois irmãos, e abaixo a Elsinha, que não gostava muito de brincar com a molecada. Então, meu convívio era mais com os moleques. Recordo-me que os meninos saíam para caçar rolinha e traziam para que eu cozinhasse. Eu tinha um fogãozinho à lenha que meu pai fez para a gente brincar, mas fazíamos comida de verdade. Minha relação com a cozinha vem desde cedo. Gostávamos dessa interação e dessas brincadeiras de infância, porque era muita criança. Fazíamos até teatro e as famílias iam assistir. Morei nessa casa até me casar com o Sebastião; passado um tempo meu pai faleceu, eu tinha 21 anos.

Jornal do Sudoeste: Como era o senhor João Machado em casa?
E.C.M.P.: Ele era um pai exemplar e um marido em quem eu não via defeito. Ele namorou minha mãe a vida inteira e a mimou como se fosse uma criança. Não a deixava passar necessidade de nada, estava sempre dando presentes para ela. Não era raro a costureira aparecer para deixar uma roupa feita para minha mãe porque meu pai tinha encomendado. Ele gostava de presenteá-la constantemente. Meu pai, apesar de ter tido 10 filhos, sabia o que estava acontecendo com cada um deles. Quando meus irmãos estavam no internato, ele escrevia diariamente para não perder o vínculo; naquela época para chegar ao internato, que ficava em Lavras, eram dois dias de viagem e precisava dormir no caminho, era muito longe. A comunicação era muito difícil, então ele escrevia cartas. Recordo-me que quando essas cartas chegavam, ele reunia a família e lia para a gente. Meu pai era um homem muito amoroso e sentia muita falta dos filhos, então quando essa correspondência chegava ele ficava muito feliz. O aniversário de todos nós era comemorado no dia do aniversário de casamento dele, no final do ano. Fazia questão de chamar toda a família, era uma forma de preservar a união. Recordo-me desta época com muita felicidade.

Jornal do Sudoeste: A música dos seus filhos faz parte desta herança?
E.C.M.P.: Sim. Quando ouço o Thiago tocando me emociono muito porque lembro-me do meu pai. Ele era uma pessoa muito erudita, gostava muito de música e nos proporcionava isso. Tínhamos um piano em casa que chamávamos de piano da tia Glauce (que dava aula de piano), mas era o piano da família e todo mundo tocou nele. Meus tios tocavam divinamente bem e me recordo que nos reuníamos, vinham os vizinhos e fazíamos verdadeiros saraus, porque não tinha muito entretenimento naquela época. Meu pai também tocava acordeom, cavaquinho. Enfim, reunia todo mundo e fazia aquela festa.

Jornal do Sudoeste: Muitas recordações dele?
E.C.M.P.: Sim, sinto muito saudade. O maior legado que ele deixou para a gente foi a educação. Era um homem que queria que aprendêssemos a fazer de tudo e tudo o que fazíamos ele elogiava muito, podia ser a coisa mais simples ele dizia “ficou ótimo, da próxima vez vai ficar melhor ainda”. Minha mãe tinha as ajudantes, porque era muito gente em casa, e ele sempre pedia para que elas nos ensinassem a fazer alguma coisa, e com isso eu e meus irmãos aprendemos a fazer de tudo um pouco na cozinha, eram coisas básica como uma bolo, bolacha, um arroz, feijão. Lá em casa todo mundo sabe cozinhar, principalmente os meninos, que sempre tiveram jeito para cuidar de casa.

Jornal do Sudoeste: Você diz que foi rebelde, por quê?
E.C.M.P.: Eu fui a única que me recusei a ir embora para estudar, porque eu não queria deixar Paraíso e naquela época se você quisesse fazer faculdade, não tinha opção. Para a mulher era tudo muito difícil, ou você era professora, ou estudava na Escola de Comércio – o que cheguei a fazer – para trabalhar em algum escritório de contabilidade (e eram pouquíssimos naquela época) ou ia morar fora para estudar outra profissão. Meu pai ficou muito bravo, dizia que eu ia puxar carroça. Eu não me via fazendo nada disso e o único curso que eu queria fazer era Mecânica. Eu era apaixonada por carros, principalmente carros de corrida. Ninguém acredita muito (risos). Enfim, eu nunca quis sair daqui mesmo e estudar Mecânica era muito difícil. Então prestei um concurso do Banco do Brasil, naquela época foi a primeira vez que abriram o concurso para que mulheres participassem, fui aprovada, mas era inconcebível para meu pai que eu fosse bancária. Senti-me muito frustrada e muito diminuída, porque, desde que eu me entendo por gente, sempre busquei formas de estar trabalhando, eu queria trabalhar.

Jornal do Sudoeste: E só você era rebelde assim?
E.C.M.P.: Acredito que sim. Recordo-me de pegar o carrinho de mão e ir para aquela região da pracinha do Ferroviário pegar banana verde e saia vendendo nos mercadinhos. Hoje não sei porquê eu era assim, sou péssima para comercializar, não sei vender meu peixe, mas sei fazer, essa parte de entregar e convencer o outro é muito difícil para mim. Meu pai ficava muito bravo, até que, pouco antes de me casar, fui trabalhar com ele, para ajudar na farmácia. E então, aconteceu desta forma, não quis ir para fora estudar, fiz um curso de contabilidade aqui em Paraíso, mas nunca busquei meu diploma de contadora (risos). Apesar disso, o que meu pai me deixou foi muito mais do que uma faculdade, foi condições para que nós sobrevivêssemos e vencêssemos.

Jornal do Sudoeste: Apesar disso tudo, sempre continuou trabalhando?
E.C.M.P.: Sim. Meu marido tem uma mecânica e um loja, onde eu o ajudei por 23 anos, mas depois tive problemas de saúde e precisei me afastar, quem assumiu a loja foi o Thiago, ele tinha 18 anos nesta época e estudou administração para continuar com esse trabalho, e administra hoje com mãos de ferro. Hoje ele é um administrador invejável e eu tenho muito, muito orgulho de tudo o que ele fez e tem feito - meus outros filhos também sempre me ajudaram muito.  Depois que eu fiquei doente, resolvi não voltar mais, porque os meninos já estavam engrenados na vida. Todos estavam formados e levando uma vida muito boa.

Jornal do Sudoeste: E o que você decidiu a fazer a partir de então?
E.C.M.P.: Eu não nasci para ficar em casa olhando para o tempo, então comecei a trabalhar como voluntária na minha igreja. Sou presbiteriana, e tínhamos uma escola que ensinava artesanato, para tirar crianças da rua e depois acabamos acolhendo senhoras na terceira idade que precisavam ter uma motivação. Foi um projeto que durou pelo menos 13 anos e que eu dirigi por 10. Era uma escola muito boa, que se autossustentava e ajudei muita gente. Fez um bem muito grande para mim. Também trabalhei no Projeto Arco-íris na Santa Casa.

Jornal do Sudoeste: E como nasce o Evelina Buffet?
E.C.M.P.: Não foi nada planejado. Tudo o que eu fazia, era sempre muito. Certo dia foi um senhor que mora perto na minha casa levou umas compras, estava uma tarde fria e eu havia acabado de tirar a fornada da semana. Ele olhou aquele monte de pães, roscas, broas e disse que não sabia que eu fazia isto para vender, respondi que nem eu e ele me perguntou se aquelas já estavam vendidas, eu disse que não. Na mesma cesta que ele levou as compras, ele levou as quitandas. Passou uma meia-hora ele me ligou para saber se tinha mais porque tinha vendido tudo e que no outro dia passava 8h para pegar mais. Levantei às 5h para fazer mais e não parei mais. Tudo o que me pediam, eu fazia. Meu pai me ensinou a nunca dizer que não saber fazer algo, e esses quitutes eu aprendi a fazer na minha primeira infância. Eu ficava em casa e comecei a fazer muitos cursos de culinária e realmente aprendi muita coisa nessa fase. Hoje meus netos e meus filhos não podem ver nada de culinária que já estão me mandando. Nesse “tudo eu faço”, comecei a fazer decoração de festa e assim fui crescendo. Foi uma fase muito boa e tenho consciência de que inovei muita coisa em Paraíso e tudo o que não existia, eu trouxe. O Buffet começou assim, comecei a fazer tudo isso por amor e hoje temos esse espaço, que está há quatro anos sob o comando da minha filha Soraia e eu mesmo venho ajudar somente para prestar um auxílio.

Jornal do Sudoeste: Todo mundo conhece a Evelina, você tem consciência disto?
E.C.M.P.: Essa consciência se eu a tivesse, talvez tivesse me capacitado mais, mas acho que esse reconhecimento veio da bondade das pessoas, porque eu tive um programa na TV Sudoeste, que foi ao ar durante cinco anos, e eu produzia tudo e tenho tudo gravado hoje, inclusive tenho um canal no Youtube e quem quiser pode acessar, o canal se chama “Evelina Buffet”, retomado graças ao meu filho Edson, que dizia que eu precisa fazer algo com aquilo que eu já tinha. Trabalhar com a TV não é algo que eu pensei que faria e aconteceu depois de muito custo, porque sempre fui muito tímida e em casa morríamos de vergonha de todo mundo. O programa aconteceu no supetão, gravei um piloto e as pessoas gostaram muito. Tinha muita gente que via o programa mais de uma vez. A partir do momento que comecei a gravar, aonde eu ia as pessoas vinham falar comigo. Eram crianças, idosos, todo mundo. Uma vez cheguei ao mercado e uma senhora me abraçou e disse que gravava todos os meus programas, e eu não fazia a menor ideia de quem fosse ela.

Jornal do Sudoeste: Você já pensou em lançar um livro com as suas receitas?
E.C.M.P.: Eu tenho uma sobrinha que começou a fazer um trabalho assim, mas deu um problema no computador e ela perdeu tudo. Mas ainda penso e tenho vontade de escrever um livro, não apenas de receitas. A minha vida, nesse percurso todo, foi um exercício muito grande. Costumo dizer que minha vida aconteceu de milagre em milagre e quando você pensa que já não tem mais jeito, Deus faz um milagre para você, então você pensa de novo que não vai ter mais jeito e acontece outro milagre. São milagres que guardamos para a gente, e estar aqui hoje é um milagre, meus filhos são um milagre. Eu gostaria de escrever um livro, sim. Acredito que nenhum ser humano está aqui por acaso, Deus lhe coloca onde você precisa estar, para que você frutifique. E para isso você precisa suar a camisa, porque não é fácil. Quando eu prestava serviço voluntário no hospital e chegava em casa, parecia que tinha passado um trator por cima de mim, porque você se sente muito pequeno em não poder fazer mais pelo outros.

Jornal do Sudoeste: Mesmo assim, você também sempre buscou ajudar...
E.C.M.P.: Sim. Hoje eu já não estou mais a frente do Buffet, é minha filha Soraia. Mas quando eu estava não fazia muito questão do que sobrava no fim do mês: eu sabia que estavam todas as contas pagas e que eu podia ajudar tantas pessoas, era isso que me importava. Quando comecei a trabalhar, havia meia-dúzia de garçons profissionais, e então “fiz” muito garçom com cursos que oferecíamos. Sempre fui muito detalhista e o garçom de buffet não pode ser igual o garçom do bar, há diferenças. Então, senti essa necessidade de formar garçons e ajudamos muita gente que precisava de um emprego. Já ouvi desses funcionários que conseguiram, por exemplo, pagar a faculdade “graças a mamis”, que é como eles me chamavam, entre outras histórias que ouvíamos. E acho que esse trabalho que desenvolvi valeu muito e é algo que sinto falta, mas hoje estou aqui apenas orientando.

 

Jornal do Sudoeste: É muito chão caminhado até aqui. Qual o balanço que você faz dessa trajetória?

E.C.M.P.: A vida passa muito rápido, você faz muitos amigos, mas é muito confortante e bom quando as pessoas lhe admiram pelo o que você é. Houve uma época que eu era a filha do João Machado, depois passei a ser a esposa do Paschoini, que graças a Deus foi na minha vida uma pessoa como poucas e que eu admiro muito e que me ensinou muito. O que eu sou hoje devo muito a ele e aos meus filhos, que são as coisas mais preciosas que eu tenho e a vida não teria nenhum sentido sem eles, que me paparicam e me bajulam muito, são minha inspiração para tudo, além dos meus três netos. A vida é muito curta para se viver quando você tem certa noção de maturidade, porque até você entender a que você veio, ficamos perdidos, mas quando começamos a entender o sentido da vida, colher os frutos, e tenho colhido alguns, leva um tempo. Eu considero minha vida um milagre, fui muito, muito abençoada. Temos que viver pela família, porque a herança que vamos deixar, não é o que está no banco ou o que você trabalhou, o legado é mental, é de vida, espiritual, é o que temos que deixar para nossos filhos, um legado de começo, meio e a continuidade. Não estamos aqui para virar adubo, tem que fazer sentido e temos que ensinar, não de falar, mas fazendo.