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Gustavo Borges: Levando o talento e amor pelo futebol para a Suécia

"Se não acreditar em si mesmos, quem irá?"
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 14-07-2019 23:10 | 1943
O jogado Gustavo Vieira Borges, a esposa Ida e as filhas Elvira e Estelle
O jogado Gustavo Vieira Borges, a esposa Ida e as filhas Elvira e Estelle Foto de Arquivo Pessoal

O paraisense Gustavo Vieira Borges, jogador profissional de futebol, é  dedicado a carreira e a família. Começou a treinar ainda muito jovem, e aos poucos foi construindo sua história no esporte. No Brasil, Gustavo passou por times de base como Botafogo, Palmeiras e o Baruer. Há alguns anos morando na Suécia, joga pelo Tuna. Filho de Sebastião Borges Junior e da senhora Alineia Vieira Borges, irmão da Séris Vieira Borges, Gustavo, aos 27 anos, é casado com Ida Marie Eriksson Borges e pai das pequenas, Elvira, de três anos, da Estelle de um ano e aguarda a chegada do seu terceiro filho, um menino. É atencioso que ele tira um tempinho em sua rotina atribulada para contar um pouco da sua história ao Jornal do Sudoeste.

Jornal do Sudoeste: Como foi sua infância em São Sebastião do Paraíso? Quais memórias mais marcantes você tem desta época?
G.V.B.: Foi uma infância muito especial. Tenho orgulho em dizer que tenho uma família exemplar, que fez de tudo para me ensinar os verdadeiros valores da vida. Muitos dizem que contamos os verdadeiros amigos nos dedos de uma mão, mas no meu caso é muito diferente, me considero rico por ter tantos amigos com quem realmente posso contar. Apesar da distância, tenho contato com quase todos meus amigos de infância. Outro período que também ficou marcado em minha vida foi quando fiz parte do Demolay, que é um grupo de jovens, patrocinado e apoiado pela Maçonaria, que tem por filosofia criar bons cidadãos. Tenho muito orgulho de ter participado deste grupo em Paraíso, foi uma experiência muito gratificante.

Jornal do Sudoeste: Como começou sua história com o futebol? Você sempre gostou de jogar?
G.V.B.: Desde muito pequeno, acompanhava meu pai aos campos de futebol de Paraíso e região e dizia a todos que queria muito, um dia, ser jogador de futebol. Logo aos seis anos de idade fui matriculado na Escolinha do Cruzeirinho em Paraíso, onde meu avô, o senhor Sebastião Borges alternava com minha mãe a tarefa de me levar aos treinos. Mais tarde, participei de vários eventos escolares sempre no futebol, como o Jogos do Interior de Minas Gerais (JIMI), Copa Alterosa e EPTV de futsal, entre as medalhas que conquistei, destaco uma participação da Copa Coca Cola abrangendo escolas de toda região de Ribeirão Preto, onde nossa Escola Benedito Ferreira Calafiori chegou à grande final no Estádio Santa Cruz, do Botafogo. Neste período, nosso grupo da mesma faixa etária, já se destacava.  Já no futebol amador, treinava semanalmente no Senior"s Paraisense, Clube de Paraíso que guardo um enorme carinho, onde disputei a primeira Taça Paraíso, com 16 anos e neste mesmo ano fomos campeões. Esta conquista ficou marcada por ter meu pai no mesmo time.  Mais tarde, chegamos a duas finais da primeira divisão também da Taça Paraíso com os times do Juventus e Mala Despachante.

Jornal do Sudoeste - Quais times você jogou e como foi o início da sua carreira profissional?
G.V.B.: Após esta sequência de Taça Paraíso, passei em um teste realizado pelo Botafogo de Ribeirão Preto, e neste período morei naquela cidade com o meu grande amigo Augusto Pádua, e guardo grandes recordações.  Ainda quando estava no Botafogo, tive a oportunidade em um jogo contra o XV de Jaú, de ser observado pelo Júnior, então assessor do empresário Wagner Ribeiro, e chamado para fazer teste em um grande clube. Fiquei um período nas categorias de base do Palmeiras em São Paulo, onde o coordenador da época da categoria era o Jorginho, e posteriormente fui transferido para as categorias de base do Barueri. A lembrança ruim deste período é uma contusão no tornozelo que paralisou, momentaneamente, meu grande sonho.   Já na Suécia passei pelo Kista, Vimmerby e, atualmente, estou no Tuna.

Jornal do Sudoeste: Como surgiu a oportunidade de ir para o Suécia? 
G.V.B.: De volta a Paraíso, após passagem por São Paulo, surgiu um convite através de um jogador de Paraíso que mora na Suécia que é o Hebert, para atuar em um time da quarta divisão que é o Kista. Este clube tinha um projeto de subir de divisão naquele ano. Desde então, o Kista foi além da porta de entrada para a Suécia, também o início de minha família, uma vez que seu presidente, o senhor Ove Eriksson, é pai de minha esposa Ida.

Jornal do Sudoeste: Você sentiu receio de deixar o Brasil e ir para um lugar completamente estranho?
G.V.B.: Eu sempre dizia aos meus pais que se tivesse uma única oportunidade, não iria desperdiçá-la. Neste sentido, minha vontade superava todas as dificuldades.

Jornal do Sudoeste: Como foi esse processo de adaptação na Suécia?
G.V.B.: No começo foi bastante difícil, apesar da grande maioria dos Suecos falarem inglês, língua que eu já dominava, o povo sueco é um pouco frio, o que aumentava a saudade da família e amigos.  O clima também é bastante diferente do Brasil, quando pensamos no inverno por aqui nem sempre são as baixas temperaturas que podem passar de menos 20 graus ou a neve que nos deparamos são as maiores dificuldades. Está certo que é uma adaptação, mas não é o pior. A neve na verdade é uma benção quando chega para clarear as enormes noites de inverno e ainda ajuda a impulsionar atividades e esportes ao ar livre. Com o passar dos anos, a minha dificuldade com o inverno passou a depender bem mais da quantidade de luz natural que temos nessa época do ano, do que da temperatura lá fora. Mas em um balanço geral, tive uma boa adaptação e hoje me sinto totalmente integrado a cultura e aos costumes daqui.

Jornal do Sudoeste: O que mais você estranhou e o que mais sentia falta do Brasil? 
G.V.B: Da família, dos amigos, da cidade de Paraíso que realmente é uma terra que me faz muita falta.  No início, quando aqui cheguei, sentia muita saudade das noites de Paraíso, das festas com os meninos do Demolay nas chácaras da região, e de tantos amigos com inúmeras estórias, mas como na adaptação de meu pai com a música do Gustavo Lima, "troquei o bar agora é só sorveteria, é só a Estelle e a Elvira e o cachaceiro virou homem de família".

Jornal do Sudoeste: Pensou em voltar para sua terra natal em algum momento?
G.V.B.: Não. Sempre tive foco em construir uma carreira fora do Brasil.  Meu perfil sempre foi estar ligado ao esporte e sempre acreditei que as experiências fora do Brasil fariam uma grande diferença.

Jornal do Sudoeste: Qual foi o momento mais difícil nessa sua trajetória?
G.V.B.: Acredito que basicamente dois momentos. Primeiro na ocasião da contusão do Barueri onde convivi com a dúvida de conseguir construir uma carreira profissional e o segundo quando cheguei em um país onde conhecia poucas pessoas, e precisava mostrar meu trabalho para começar a estabelecer novos relacionamentos

Jornal do Sudoeste: Qual foi o momento mais importante para você morando na Suécia? 
G.B.V.: Quando conheci minha esposa Ida e resolvemos construir nossa família. Nos casamos em 2017, e hoje temos duas lindas garotas Elvira e Estelle e estamos aguardando a chegada de um garoto. Quem sabe um futuro jogador de futebol com o DNA do Brasil, misturado com a força sueca uma vez que a Ida também foi jogadora de futebol profissional.

Jornal do Sudoeste: Já teve oportunidade de voltar para o Brasil, mas decidiu ficar onde está?
G.V.B.: Para o Brasil não. Tive outras oportunidades aqui na Suécia e Dinamarca, oportunidades que tivemos que analisar e priorizar a família naquele momento.

Jornal do Sudoeste: O que é mais difícil para os atletas brasileiros? Você acredita que falta investir nos nossos desportistas?
G.V.B.: Realmente existe falta de investimentos no Brasil e as próprias defasagens de estruturas vão empurrando nossos jovens talentos para tentar carreira fora do país.  Aqui na Suécia o futebol feminino é muito praticado e existem muitos investimentos, daí podemos verificar os resultados na última copa do mundo feminina.  Os clubes suecos seguem com fidelidade a cultura do país, no que diz respeito a seriedade e organização.  Às vezes me pego pensando, se o Brasil tivesse a estrutura da Europa com o celeiro de craques que temos, seríamos verdadeiramente uma grande potência. Hoje, acredito que o Brasil aproveita do nome que conquistou no passado, porém quando dizemos que somos brasileiros ainda somos muito respeitados no meio do futebol. Acredito que atualmente falta uma melhor organização ao futebol brasileiro desde sua base.

Jornal do Sudoeste: As oportunidades na Suécia são melhores? É um lugar melhor para se viver? 
G.V.B.: A Suécia é um país muito interessante. Aqui se tem acesso a um ensino de ponta sem pagar nada por isso ("só" meus impostos, claro).  Além disso, aqui na Suécia eu tenho acesso a um sistema de saúde público que não tem distinção e nunca me deixou na mão. Com relação a segurança, moro em uma pequena cidade turística bastante tranquila chamada Vimmerby, porém mesmo na capital Estocolmo onde passei meus primeiros anos, os índices de violência são infinitamente menores dos verificados no Brasil, principalmente nas capitais. Eu diria que aqui é um ótimo lugar para constituir uma família e criar seus filhos.

Jornal do Sudoeste: O que você pode dizer àqueles que têm o sonho de se tornarem jogadores? 
G.V.B.: Que o único obstáculo existente é própria vontade. Se não acreditarem em si mesmos, quem irá?   Lutem e coloquem o resto nas mãos de Deus que se você fizer o bastante, irá acontecer!

Jornal do Sudoeste: Quais são seus planos para o futuro?
G.V.B.: Cuidar de minha família que passou a ser a minha prioridade máxima logo após o nascimento da nossa primeira filha, e fazer de tudo para passar os valores da vida para os meus filhos assim como recebi da minha família. Falo sempre com a Séris, minha irmã, que temos obrigação de educarmos nossos filhos como recebemos de nossos pais e avós.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz dessa trajetória até aqui? 
G.V.B.: Agradeço muito a Deus por fazer parte de uma família que além de educação me deu apoio em minhas decisões. Fico muito feliz de saber que sempre terei a mais importante base da vida que é a família, orgulhoso de poder falar que sou neto do senhor Tião Borges e da Tereza Duarte, os maiores exemplos de pessoas que existe. Enquanto eu nunca esquecer de onde venho, quem sou e das pessoas que tenho ao meu lado, serei feliz.