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Sarah Lara Naves: Construindo uma vida e se redescobrindo a cada dia

“Simone de Beauvoir dizia: que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a própria substância, já que viver é ser livre”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 29-07-2019 09:28 | 1410
 A psicóloga Sarah Lara atende no Espaço Ser e Tempo, no Jardim Mediterranée
A psicóloga Sarah Lara atende no Espaço Ser e Tempo, no Jardim Mediterranée Foto de Arquivo Pessoal

A psicóloga e especialista em psicologia social, Sarah Lara Naves, é uma profissional que aos poucos vem construindo sua carreira e realizando um trabalho de destaque em São Sebastião do Paraíso. Ao lado dos psicólogos Elisângela Corral, Éder Rodrigues e Jessé Monteiro, vêm promovendo eventos abertos ao público com o objetivo de aplicar à terapia o poder das artes. Filha do empresário Ricardo Naves Martins e da pedagoga Maria Lúcia Lara Martins, irmã do Bruno, da Júnia, do Ricardo e da Lígia, aos 29 anos Sarah é casada com André Frutuozo, com quem vem construindo sua vida desde 2015. É com um carinho mais que especial que ela recebe a reportagem do Jornal do Sudoeste e conta um pouco da sua vida e da sua carreira em Paraíso.

Jornal do Sudoeste: Sua infância toda foi em Paraíso. Quais são suas memórias mais marcantes desta época?
S.L.N.: Foi uma infância muito tranquila. Tenho muitas recordações da primeira escola onde estudei, que foi o Campos do Amaral, e de meus irmãos, que sempre foram muito presentes na minha vida – nossa família foi sempre muito unida nesse sentido. Eu e meus irmãos mais novos, a Júnia e o Bruno, sempre estivemos muito juntos, e éramos muito criativos – acredito que por causa da época, já que não tenho muitas lembranças de televisão, videogame e essas tecnologias de hoje. Usávamos muito a criatividade nas brincadeiras e me recordo que meu pai tinha um gravador de fita, e com ele nós fazíamos música, entrevistas, éramos crianças que gostávamos de usar a criatividade para nos divertirmos. Além disso, como minha mãe sempre esteve relacionada com escola, em casa sempre teve lousa, giz, material escolar, lápis de cor... Isso fez muita diferença na minha vida. Até hoje, na forma que eu trabalho, sinto a influência de toda essa minha primeira infância: da minha mãe com a escola e do meu pai, que sempre gostou muito de ler, e sempre nos incentivou.

Jornal do Sudoeste: Sempre existiu essa proximidade com os pais também?
S.L.N.: Sempre. Quando eu era pequena, meus irmãos mais velhos já estavam bem maiores, então não era uma relação muito próxima por conta da diferença de idade, mas entre mim e meus irmão mais novos, principalmente meus pais, era uma ligação muito forte.

Jornal do Sudoeste: E como foi a fase de escola?
S.L.N.: Eu era muito “cdf”. Sempre gostei muito de estudar, e hoje eu consigo ver que era por influência de minha mãe. Era sempre a primeira da turma, era boa em todas as matérias e me recordo que somente no ensino médio, no último ano, tirei uma nota sete, e ainda fiquei de castigo. Olhando para trás, eu vejo o quanto isso parece engraçado, mas depois que me formei no ensino médio percebi o quanto eu era ligada a isto e o quanto sentia a responsabilidade que eu tinha para com meus professores no sentido de não os decepcionar. Adorava estudar, não gostava de férias.

Jornal do Sudoeste: Qual a melhor e pior lembrança que você tem desta fase de escola?
S.L.N.: A mais alegre que eu tenho desta fase foi quando comecei a me identificar com as matérias que eu gosto: História, Geografia, Língua Portuguesa, foi quando vi que tinha essa possibilidade de aprofundar em algumas matérias e a gostar e esperar as aulas de humanas. Lembro-me do sentimento, foi o que me marcou muito. Eu demorei bastante para me encontrar na Psicologia, e o pensar nessa afinidade pelas humanas, pela leitura, foi muito significativo para mim. Não me recordo de ter um pior momento durante a fase de escola, o pior momento foi quando eu concluí o Ensino Médio e tive que sair. Eu pensava “não sou mais estudante, o que vou fazer da minha vida?”. Senti-me muito perdida, fiz alguns cursos antes da Psicologia, entre eles História, Direito e Pedagogia. Ao invés de sentar e pensar no que eu queria, fui tentando. Acho que esse foi o pior momento para mim.

Jornal do Sudoeste: Como foi esse período antes de você realmente entender que a Psicologia era o que te esperava?
S.L.N.: Eu me senti muito cobrada em continuar os estudos, não tive muito tempo para pensar sobre o quê estudar e testar profissões, eu comecei a testar os cursos. O primeiro que tentei, até mesmo por influência de minha mãe, foi Pedagogia. Mas não gostei, e comecei a estudar História aqui em Paraíso, mas parei por seis meses e prestei vestibular para tentar o mesmo curso na Unesp, de Franca, pelo Enem, mas acabei conseguindo Psicologia pelo ProUni, mas não era minha primeira escolha. O primeiro ano foi ótimo, porque tinha muito Filosofia e História, já o segundo e terceiro ano era mais a parte de anatomia e fiquei pensando se era aquilo que eu realmente queria e tive muitas dúvidas. Mas no terceiro, o curso foi afunilando e percebi que mais uma vez eu tinha que escolher, porque a Psicologia é muito ampla e tem muitas vertentes, e comecei a gostar muito do curso e me apaixonei. Vi que além daquilo que estudávamos, havia muitas outras possibilidades.

Jornal do Sudoeste: E o que mais a deixou apaixonada pelo curso?
S.L.N.: Foi a Psicologia Social, inclusive é a minha especialidade. Senti-me muito atraída pela questão social e de trabalhar com a comunidade, e de saber, também, que o ambiente em que você cresceu e que suas experiências de vida moldam quem você é, e não apenas o inconsciente - esta questão de tudo ser o inconsciente me deixava muito incomodada. No terceiro ano de faculdade comecei a estudar muito a Psicologia Social, apesar de ainda não trabalhar com ela. Entretanto, esta é uma meta que eu tenho, até mesmo porque enquanto estudante não me sentia muito atraída pela área clínica, mas sim trabalhar com a comunidade e com pessoas.

Jornal do Sudoeste: A Psicologia foi um acaso, podemos dizer...
S.L.N.: Sim, foi uma grande descoberta e foi a fase em que mais cresci enquanto pessoa. Eu viajava para Franca todos os dias, aprendi muita coisa, fiz contato com muitas pessoas, de todos os tipos. Mas cheguei a pensar em desistir no segundo ano, porque não estava me encontrando. Todavia, tudo isso mudou depois da descoberta da Psicologia Social e da Psicologia Fenomenológica Existencial. Eu tive uma professora muito boa, a Ana Cecília, que mantenho contato até hoje e que me inspira muito. Ela me fez perceber, nos meus momentos de dúvida, que eu não estava olhando para o caminho certo, que havia novas possibilidade e a partir daí me apaixonei pelo curso.

Jornal do Sudoeste: Depois que se formou, o que você decidiu fazer?
S.L.N.: Eu me formei em 2015, e em 2016 eu estava recém-casada e decidi não trabalhar com Psicologia naquele momento. Em 2017 iniciei meus estudos novamente, e foi quando comecei a pesquisar universidades a fim de decidir onde começaria a minha pós-graduação, e em fevereiro de 2018 abrimos esta clínica: o Espaço Ser e Tempo. Neste mesmo ano iniciei meu mestrado em Psicologia Social, mas precisei interromper, e é o que pretendo retomar em breve.

Jornal do Sudoeste: Como nasceu o Espaço Ser e Tempo?
S.L.N.: No começo de 2018 comecei a procurar uma sala para começar a atender como psicóloga, foi quando eu conheci a Elisângela Corral. Não queríamos ter apenas um consultório, mas um lugar para explorar outras possibilidades e fosse possível promover grupos de vivência, grupos de estudo, pequenas palestras, grupos de leitura. Assim, conseguimos este espaço no Edifício Stephane, no Jardim Medi-terranée, aos fundos do Novo Fórum, que passou a atender a todas nossas necessidades. Encaramos juntas esse desafio. Neste ano, os psicólogos Éder Rodrigues e Jessé de Pádua passaram a trabalhar com a gente.

Jornal do Sudoeste: Co-mo você conheceu a Elisângela?
S.L.N.: Foi muito por acaso. Na época eu estava procurando uma sala, alguém a indicou para mim. Eu vim um dia para conversar com ela e nossas ideias combinaram muito, porque gostávamos da mesma abordagem e, assim como eu, a Elisângela achava importante a música, arte e literatura dentro do processo terapêutico. No primeiro dia que conversamos eu pensei “é isso”. Não adianta você encontra um profissional para trabalhar em conjunto e não ter as mesmas perspectivas.

Jornal do Sudoeste: Como funciona essa abordagem que vocês trabalham?
S.L.N.: A abordagem é a “fenomenológica existencial”. Essa abordagem é mais histórica e filosófica, e foge um pouco do inconsciente e lida muito mais com as questões sociais, ou seja, como a pessoa lida com a sua vida e encara situações que acontecem no seu dia a dia. Esse olhar fenomenológico é um conceito da filosofia, que passou a ser usado pela psicologia. A Fenomenologia Existencial entende que cada ser humano vê a vida de uma maneira única, e não há como generalizar as experiências de uma pessoa. É por isso que é importante considerar as vivências daquele indivíduo, onde ele nasceu e a maneira como ela encara algumas situações. Antes de você trabalhar alguns traumas com a pessoas, você precisa entender a realidade dela e como ela enxerga o mundo. O psicólogo fica ao lado do seu paciente e, a partir desse entendimento, é que ele vai tentar conduzir o indivíduo a enxergar a vida por outros ângulos, porque às vezes ele está muito focado em outras questões.

Jornal do Sudoeste: O Espaço Ser e Tempo é muito mais do que isso, não?
S.L.N.:  Nós queríamos usar a psicologia para trazer significado para as pessoas. Percebemos que as pessoas fazem tudo de forma tão mecânica e estão tão presas à rotina que perderam o sentido das coisas. Às vezes você tem pequenos prazeres ao longo do seu dia e não percebe, porque está muito preso a sua rotina e aos seus prazos. Deste modo, decidimos usar as artes, principalmente a literatura e música, para buscar fazer as pessoas enxergar o sentido da sua vida e que ninguém é feliz 100%, mas que dentro desse dia nós podemos encontrar coisas que nos dão pequenos prazeres, pequenas alegrias.

Jornal do Sudoeste: Foi como também nasceu o clube de leitura e o ciclo de palestras?
S.L.N.:  Sim. Começamos a promover o clube leitura e o ciclo de palestras (que é baseado em mitologias). Percebemos que muita gente começou a trazer experiências da vida por meio de personagens da literatura. As pessoas conseguem falar de sentimentos, conseguem ver o problema e buscar uma solução quando contextualizam isso por meio de um personagem da literatura, de um filme ou de uma série. Não é todo mundo que quer pagar uma terapia, e não é todo mundo que quer passar por um processo terapêutico, e para essas pessoas nós temos a opção dos grupos de vivência, palestras, grupos de leitura, que vão usar de outros instrumentos artísticos para fazer essas pessoas acessar esses sentidos. A maioria desses encontros são gratuitos, é só manifestar interesse. E quando elas vêm, pedimos para que venham livres de preconceito e prontas para falar e escutar. Buscamos promover um ambiente livre de julgamentos.

Jornal do Sudoeste: Qual o maior desafio em trabalhar desta maneira?
S.L.N.: No começo, nós vimos que não é todo mundo que se interessa pelo pensar a vida. Tem muita gente que está feliz em viver mecanicamente, e tudo bem, não tem problema nisso. Porém, quando começamos tivemos grupos de leitura com duas pessoas, palestras com pouquíssimas pessoas, mas persistimos. Hoje, os ciclos de palestras, por exemplo, esgotam as inscrições poucos dias antes do evento e tem lista de espera. No começo foi muito difícil, pensávamos se estávamos no caminho certo, porque ninguém demonstrava interesse. Hoje em dia, tudo faz muito sentido.

Jornal do Sudoeste: Você acredita que essa dificuldade pode ser porque Paraíso ainda não abraça muito as artes de maneira geral?
S.L.N.: Acredito que sim. Não sei se é apenas Paraíso, se é todo mundo, se é a época em que vivemos, se é essa geração smartphone, mas parece que nada interessa: não interessa sair de casa, encontrar pessoas, conversar cara a cara e falar dos seus problemas. Nós percebemos que não havia esse interesse e para driblar isto buscamos trabalhar temas mais interessantes. O ciclo de palestras, por exemplo, é promovido pelo psicólogo Jessé, que buscou um tema filosófico, histórico e que muita gente adora que é a Mitologia. Foi um sucesso. A partir daí começamos a delimitar um pouco os temas, promover os encontros aos sábados à tarde e estamos trabalhando para tornar tudo isto mais acessível para todos.

Jornal do Sudoeste: E o clube “Leia Mulheres”?
S.L.N.: Promovemos o clube de leitura desde 2018, mas tinha uma outra dinâmica, porque era ler sobre um personagem e depois, no encontro presencial, discutíamos a partir das vivências de cada um. Mas neste ano conseguimos nos filiar ao “Leia Mulheres”, que existe no mundo inteiro. Conseguimos, a partir de agosto, trazer isto para Paraíso. O primeiro encontro é para discutir a obra João Miguel, de Rachel de Queiroz, no próximo dia 3/8. Porém, percebemos que as pessoas não se mostraram muito abertas a este clube. O Leia Mulheres gerou um certo receio, e foi inclusive questionado por homens, que não entenderam muito bem a proposta. Mas é compreensível, porque gera esse entendimento que é um clube que só participa mulheres, mas não é. A proposta é para que as pessoas leiam mais obras escritas por mulheres, e homens são bem-vindos a participar. As escritoras por muito tempo permaneceram ofuscadas pela história. O objetivo é resgatar a importância de ler mulheres. Prova disto, é que a obra escolhida tem sido difícil de achar, está ficando esquecida e é importante promover o debate do que pode estar levando a isto. O Clube é gratuito, vamos promover um café, e todos são bem-vindos.

Jornal do Sudoeste: Há outros encontras além destes?
S.L.N.: Sim. De quinze em quinze dias temos o “Tecer”, que é um grupo de estudos para psicólogos. Esse encontro é para falar da abordagem que trabalhamos e quem quiser conhecer os encontros também são no Espaço Ser e Tempo. Não é com o objetivo de influenciar as pessoas a trabalhar com ela, mas para mostrar como funcionar e discutir sobre. É um grupo de estudo mesmo. No último tivemos o “sou vestibulando, e agora?”, para aqueles adolescentes que estavam na fase de fazer escolhas e se sentiam um pouco perdidos. O objetivo não era trabalhar escolhas profissionais, mas tirar dúvidas daqueles que estavam saindo do Ensino Médio e iriam enfrentar o fato de não ser mais estudante, o fato de não querer faculdade, mas um curso técnico. Foi um grupo de vivência muito bacana.

Jornal do Sudoeste: Qual a importância do profissional psicólogo?
S.L.N.: Tem muita gente que passa por traumas, perdas, processos que mexem com o emocional, e procurando um psicólogo essa pessoa estará investindo na saúde mental dela. Vai aprender a lidar com essas adversidades da vida, porque ninguém é 100% feliz e sempre existirá problemas, mas o psicólogo é o profissional que vai ajudar o indivíduo a lidar com eles. Há pessoas que não passam por traumas, mas que querem fazer terapia para autoconhecimento, porque ao longo da vida vamos enfrentar inúmeras situações, e estamos preparados para elas? É esse o foco da terapia, prepara a pessoa para enfrentar a vida de maneira saudável.

Jornal do Sudoeste: Você acredita que ainda exista muito preconceito com o profissional?
S.L.N.: Existe, porque as pessoas acreditam que a terapia é muito falar/escutar. E não é apenas isto, o psicólogo sabe como orientar da maneira adequada sem interferir na sua vida, sem te julgar. Muitos dizem: meu amigo me escuta, minha cabelereira me escuta, minha manicure me escuta, então para que pagar um psicólogo? O preconceito que vejo é que muita gente confunde a terapia com o desabafo, mas o psicólogo é um profissional que estudou no mínimo cinco anos para ouvir o paciente e dar uma devolutiva que possa ajudar realmente aquela pessoa a entender o que está acontecendo. É um preconceito que tem diminuído muito, no entanto.

Jornal do Sudoeste: Como podemos resumir a Sarah Lara em três palavras?
S.L.N.: É muito difícil me resumir em três palavras, talvez eu consiga resumir em três palavras a Sarah deste ano, porque eu mudo muito e não sei se vou ser a mesma pessoa amanhã. Resumiria a Sarah deste ano em conhecimento, porque é algo que estou em constante busca; cuidado, porque foi um ano em que tive que descobrir um lado cuidador meu; e descoberta, porque eu também me abri para conhecer coisas novas e me abri para novas possiblidades, e antes eu não era assim.

Jornal do Sudoeste: Olhando a Sarah do passado, do que você mais se orgulha?
S.L.N.: De tudo, mas o que mais me orgulho é da maneira que eu me conheço hoje em dia. Eu mudei muito ao longo desses anos, e acredito que a cada ano somos uma pessoa diferente. Olhando para trás vejo que minha maior conquista foi esse autoconhecimento de mim mesma.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz desses 29 anos?
S.L.N.: Eu acho que ao longo desses quase 30 anos, consegui lidar bem com todas as situações que aconteceram comigo. Nos últimos três anos, vivenciei sentimentos e tive que desenvolver lados meus que em 27 anos eu não tinha nem pensado em viver. Felizmente, minha vida foi muito boa, com amigos maravilhosos e sempre tive ao meu lado meus familiares, que pude contar para tudo o que precisei. O balanço principal é que eu fico muito feliz de conseguir me adaptar às situações da vida, e ser esta pessoa resiliente.