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Jairo Montaldi: Um paraisense agradecido por poder servir ao próximo

“Penso que viemos para servir, essa é a minha gratidão”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 04-08-2019 20:48 | 1085
 Após mais de 30 anos Jairo Montaldi retornou a Paraíso para trabalhar no Sicoob Nossocrédito, em 2005, e aqui fixou suas raízes
Após mais de 30 anos Jairo Montaldi retornou a Paraíso para trabalhar no Sicoob Nossocrédito, em 2005, e aqui fixou suas raízes Foto de João Oliveira

O bancário aposentado e produtor rural Jairo Montaldi, é um paraisense que ama sua terra natal e que precisou ir embora para estudar e trilhar uma carreira profissional. Foi em Ribeirão Preto que conheceu sua esposa, Suzana Nascimento, com quem teve dois filhos, o Mateus e a Ana Rita. Filho mais velho do casal Sebastião Montaldi e Léia Nóbrega Montaldi (em memória), hoje, aos 64 anos, ele dedica seu tempo à família, em cuidar da sua propriedade e a ajudar no Rotary Club, onde assumiu a presidência em 1º de julho deste ano. É acolhedor que recebe a reportagem do Jornal do Sudoeste em sua casa, e conta um pouco da sua história, desde a infância quando menino brincava nos arredores das estações ferroviárias até seu retorno para Paraíso.

Jornal do Sudoeste: Como foi o começo de vida aqui em São Sebastião do Paraíso?
J.M.: Foi muito gostoso, é uma época que tínhamos o prazer de correr na rua, passear e brincar livremente. Há 64 anos, Paraíso era uma cidade tranquila, gostosa e muito prazerosa de se viver, e aqui fui aprendendo as coisas boas da vida. Sempre morei nesta região da Oliveira Rezende, numa época em que a avenida era de terra. Eu costumava brincar muito na Estação São Paulo/Minas, onde hoje é o Corpo de Bombeiros, e na Estação da Mogiana, onde hoje é a Casa da Cultura. A linha de ferro passava nos fundos dessa minha casa. Quando eu era pequeno, a casa onde morei, que hoje já não existe mais, era a última casa onde hoje é a avenida João Pereira de Souza. Ali foi a minha infância, onde também tinha a serralheira do Bergamo, que era meu tio.

Jornal do Sudoeste: Como foi ver todas essas mudanças, como o fim da ferrovia?
J.M.: O progresso é inevitável e é salutar. No entanto, para mim, que sou muito apreciador do transporte ferroviário, fiquei triste com esse fim. Eu sou apaixonado por trem de ferro e, sempre que posso e tenho a oportunidade, vou a cidades históricas que ainda têm as ferrovias em funcionamento e são voltadas para o turismo. Eu já fiz alguns percursos, como de Belo Horizonte a Espirito Santo, um trajeto muito bonito; já fui na rota Mariana a São João Del Rei; Tiradentes. E quero conhecer outras. Não digo que a ferrovia em funcionamento em Paraíso faz falta, mas acredito que poderia estar concorrendo com o transporte rodoviário. A evolução do veículo automotor é inevitável.

Jornal do Sudoeste: Como foi a sua formação acadêmica?
J.M.: Eu comecei na antiga escola da Dona Alice, que era irmã do professor Carmo, onde fiz o primeiro ano e depois fui para o Noraldino Lima, onde estudei até a 4ª série (hoje 5º ano), e logo depois estudei no Paraisense, quando o saudoso Monsenhor Mancini era diretor. À noite fiz o técnico em Contabilidade na Escola de Comércio e o ensino médio concluí no Colégio Paula Frassinetti, o Colégio das Irmãs, foi praticamente a primeira turma que abriu para ser um colégio misto. Quando eu terminei, fui morar em Campinas, já iniciando uma carreira profissional, e também para estudar. Lá, comecei trabalhando em uma imobiliária que era de minha tia, mas voltei e fui para Ribeirão Preto. Em Ribeirão inicie minha carreira como escriturário, no Banco Nacional, isso em 1979. Também nesta época comecei a fazer faculdade de Matemática, mas era durante o dia e não dava para conciliar com o trabalho, então optei por transferir para o curso de Química Industrial na Universidade de Ribeirão Preto, a Unaerp, e me formei, mas não cheguei a exercer, embora tivesse tido a oportunidade. Quando eu me formei, já era gerente da agência de Sertãozinho, já com essa possiblidade de seguir a carreira bancária. Ofereceram-me, inclusive o Maurilio Biagi do Grupo Biagi, para trabalhar para ele na área de Química, todavia entre o duvidoso e a minha carreira que já estava estabelecida, optei por continuar no sistema financeiro. Naquela época, recebi também o convite para assumir a agência do Banco em Taubaté, já estava casado, fazia dois anos. Então, não tinha outra maneira a não ser seguir o caminho que eu já estava. E não me arrependo. Foi uma carreira que me deu uma condição de vida muito boa e, principalmente, formação profissional e de vivência.

Jornal do Sudoeste: Mas por que Química Industrial e não Economia de uma vez?
J.M.: Eu sempre fui apaixonado pela área de exatas e, na realidade, meu desejo mesmo era fazer engenharia, mas não havia esse rol de opções que têm hoje, mas era uma área que eu queria muito e minha intenção quando entrei em Matemática era logo depois ir para a Engenharia, mas acabei transferindo para Química Industrial, e fui pelo prazer de estudar. Eu gostava da matéria e, aliado a isto, eu precisava trabalhar. É a história do ser humano, ele precisa começar a trabalhar cedo.

Jornal do Sudoeste: Foram quantos anos morando fora de Paraíso e o que te trouxe de volta?
J.M.: Foram praticamente 33 anos morando fora. Eu estava no sistema financeiro, houve a incorporação do Banco Nacional ao Unibanco, e de Taubaté fui para São Paulo, onde morei praticamente 15 anos. Lá trabalhei na administração do Banco, na Avenida Paulista, e quando houve a incorporação ao Unibanco, continuei na mesma área que era a área de expansão e contato com o governo, ou seja, os órgãos federais, estaduais e municipais. Algum tempo depois recebi a proposta para voltar para Ribeirão Preto. Para mim foi muito gratificante, porque estava voltando para perto da minha terra e para a terra de minha esposa. Foi muito bom. Nesta época meus filhos estavam entre seus 14 e 15 anos e também foi ótimo para eles. Quando estava começando meu trabalho em Ribeirão, recebi um convite do Sicoob Nossocrédito para vir trabalhar em São Sebastião do Paraíso. Mudamos para cá em 2005, quando a agência ainda funcionava dentro da Cooperativa Cooparaíso. Então participei de todo esse processo de expansão do Sicoob até dois anos atrás. Nesse meio tempo me aposentei. Quando voltei para São Sebastião do Paraíso, também me tornei produtor rural, e hoje é a que me dedico. Meus filhos já estão criados, então vou aproveitar e curtir um pouco mais a minha vida, e continuar a trabalhar, sempre ao lado da minha esposa, que sempre esteve comigo, apoiando-me nas horas boas e mais difíceis.

Jornal do Sudoeste: Como é encontrar uma pessoa assim na vida?
J.M.: É muito gratificante, é gratidão a palavra. É gostoso, porque não nascemos para viver sozinhos, nascemos para viver em comunidade, conectados a outras pessoas. Quando você tem uma pessoa que está sempre ao seu lado, nas horas boas é muito tranquilo e gostoso, mas nas horas difíceis é alguém para te apoiar e te ajudar a pensar de outras formas e você vai melhorando cada vez mais.

Jornal do Sudoeste: Qual o momento de maior dificuldade durante essa trajetória?
J.M.: Eu fui muito feliz durante a minha vida e a minha carreira profissional, mas algo que acontece e que acho que não estamos preparados é para as perdas. Em um período de cinco anos eu perdi minha mãe, depois minha sogra e meu pai. Isso mexe muito com a gente, porque somos muito família e estamos sempre reunidos para tomar o café da manhã, para almoçar, para jantar, e meus filhos me ligam todo santo dia. Claro que houve momentos de dificuldade no trabalho, mas isso é rotina do dia a dia, mas acho que a perda do pai e da mãe é muito difícil, acho que não mais do que a de um filho, já que a sequência natural é você perder os pais. Mas graças a Deus, eu sou bem estruturado, mas senti a perda desses entes queridos.

Jornal do Sudoeste: E qual foi a maior alegria?
J.M.: Encontrar minha esposa e meus filhos. Além disto, quando você tem essa harmonia familiar, quem se agrega a família também faz parte dela. Eu costumo dizer que não perdi meus filhos depois que eles saíram de casa e se casaram, mas que ganhei outros dois. Tanto minha nora quanto meu genro, não tenho do que me queixar.

Jornal do Sudoeste: Co-mo foi voltar para Paraíso e encontrar a cidade como estava em 2005?
J.M.: Apesar de ter ido embora, eu nunca fiquei sem vir aqui ao longo desses anos todos. Eu gostaria e quero contribuir para que a cidade se desenvolva. Queria que a cidade pudesse estar um pouco mais desenvolvida, apesar de que temos faculdades boas e está vindo mais uma Universidade. Entretanto, hoje o jovem paraisense sai daqui para estudar ou em busca de mercado de trabalho. Existe essa deficiência no que se diz respeito à oportunidade de emprego. Paraíso é uma cidade essencialmente agrícola, apesar de que tivemos empresas com grande número de postos de trabalho, mas o mercado e a situação financeira do país as obrigaram a fechar as portas. Hoje existe essa carência de empregos e gostaria que Paraíso tivesse um crescimento mais pujante.

Jornal do Sudoeste: Hoje o senhor está como presidente do Rotary. Como isto aconteceu?
J.M.: Estou no Rotary desde junho de 2011, à época fui convidado para frequentar algumas reuniões e a partir daí tomei gosto. Eu gosto de ajudar e fazer serviços voluntários, tanto eu, quanto minha esposa (nós trabalhamos nas quermesses da Igreja). O Rotary é um clube de serviços que tem como função ajudar. Dentro desses anos, sempre ocupei alguns cargos e sempre fui convidado a ocupar cargo de presidente, mas não era o momento. Agora em julho assumi a presidência do clube e a minha esposa assumiu a presidência da Casa da Amizade, pelo período de um ano. Meu mandato começou em 1º de julho e vai até 30 de junho de 2020.

Jornal do Sudoeste: O que é o Rotary e qual sua importância?
J.M.: O Rotary é uma organização internacional que todo dia 1º de julho muda toda a sua diretoria, do presidente internacional até o presidente do clube. Estamos em aproximadamente 212 países e somos aproximadamente 1,2 milhão de rotarianos. O Rotary engaja causas que são benéficas para todo o mundo e abraçou, por exemplo, a luta contra a Poliomielite, mas também se engaja em outras frentes como a educação. Como eu disse, o Rotary tem um objetivo, e está quase cumprindo, que é exterminar a Pólio em todo o mundo. Entretanto, temos hoje no mundo três países que sofrem muito com esta doença: a Nigéria, o Paquistão e Afeganistão. São países carentes e que sofrem com isto. Além disto, de 2010 para cá, por meio de um brasileiro que sofreu com a Hepatite, que é uma doença silenciosa e que pode levar a morte, também abraçamos essa causa. Em 2010, o dia 28 de julho se tornou o Dia Internacional da Hepatite e, diante disto, o Rotary encampou essa luta, assim como a Pólio. Isso se tornou tão marcante que a cada dólar que o Rotaty passou a empregar na luta contra a Pólio, o Bill Gates passou a doar dois. Ademais, a hepatite é uma doença silenciosa que mata no mundo por volta de quatro mil pessoas por dia. Então, este ano o Rotary juntamente como o Ministério da Saúde no Brasil e na África, onde encampou a luta contra a hepatite B e C, passou a realizar o diagnóstico para descobrir quem está doente para que possa haver o tratamento. No Brasil, testes foram doados e realizamos esse trabalho de diagnostico, que aqui em Paraíso aconteceu no último dia 27. Aqui tivemos apoio da Ampara Medicina Preventiva, que nos cedeu três enfermeiras para acompanhar os testes, e também tivemos ajuda da Rúbia, que é rotariana e é enfermeira. Tivemos também o apoio de uma psicóloga, caso houvesse algum caso positivo, felizmente não aconteceu. Foi muito gratificante, porque as pessoas se interessaram. O que nos surpreendeu também foi o percentual de homens fazendo o teste e preocupados com a saúde, e geralmente eles são os menos preocupados, porque sabemos que a mulher é mais preocupada, tanto por ela quanto pela família.

Jornal do Sudoeste: E não é nenhum tabu. É preciso buscar o diagnóstico porque senão a doença pode levar a morte, não é mesmo?
J.M.: Sim, pode levar a morte. Se você fizer um diagnóstico cedo, você faz o tratamento pelo tempo necessário e volta a ter uma vida norma. Agora, quando você a descobre, em um estágio avançado, já é mais difícil.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz de toda essa trajetória até aqui?
J.M.: Todo o passado foi uma base para minha sustentação como pessoa e ser humano, de constituir uma família maravilhosa e de poder contribuir com a comunidade. É algo prazeroso e cada vez mais isso foi me embasando e me dando subsídios para que eu pudesse romper todas as dificuldades da minha vida. Eu tenho muita gratidão, principalmente em poder contribuir para o bem. Penso que viemos para servir, essa é a minha gratidão: a de poder servir a alguém.