ELY VIEITEZ LISBOA

Carta aberta aos homens

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 11-08-2019 16:24 | 914
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Perdão, senhores meus, se ouso adentrar-me em vosso feudo, mas em verdade, preciso falar-vos.

Queria lembrar-vos, caso o tenhais esquecido, do começo, quando Deus, bem intencionado, deu a Adão uma companheira. Reparai que foi presente, coisa sempre ligada a muita ternura e amor. E mais: se vós lerdes com atenção o livro Gênesis, podereis talvez realçar certas minúcias que vossos descuidados olhos possam ter perdido. Senão vejamos: Eva foi criada enquanto Adão dormia; ela veio, portanto, da paz, da tranquilidade  do homem - consequentemente, só pode ser um fruto de essência doce, amante do silêncio e do tranquilo. Deus tirou-a da costela, do lado, como se, bom estratégico, delimitasse já o lugar do companheiro: nem acima, nem abaixo, mas ao lado, ao redor, junto. Interessante o pormenor bíblico: "... e fechou com carne o seu lugar". Por acaso achais que Deus, sapiência infinita, perderia tempo em retoques inúteis? Seria Ele, apenas, um perfeccionista preocupado com sofisticada estética? Parece-me a mim, por lógica, que todo gesto divino seja muito expressivo e contundente: a vinda, a chegada da mulher, a descoberta, têm que ser aliadas à falta de dores e cicatrizes. Ela é, pois, o próprio antônimo do que seja sofrimento, ausência de beleza, remendo, coisa mal feita, asperezas. Seu reino é o belo, o doce, o liso, o perfeito, o macio.

Pensastes já em vossas companheiras, biblicamente? Algum dia parastes para pensar no conceito da transubstanciação? Vede: "Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne" (Gênesis, II, v. 23). A partir daí, homem e mulher foram (ou deveriam ter sido) UM. Analisai bem. Cada vez que vós tendes uma dor, a companheira que vos ama, sofre. No amor não há EU: é um eterno NÓS, mesmo em se mantendo a individualidade.

Assim, a receita era boa, os ingredientes certos, os atores bem escolhidos, o cenário perfeito. De quem a culpa, se a Peça fracassou? Muito cômodo jogar a responsabilidade sobre uma personagem secundária, coadjuvante de terceira, este pobre demônio travestido de serpente. Onde começou a separação? Por que os caminhos se divergiram, confundiram-se as línguas, desviaram-se os objetivos, deterioraram-se os desejos? Surgiram ideias de posse, de mando, bizarras rotulações - dono, senhor. E como entender este crime hediondo, hoje rotulado de feminicídio?

Voltando às origens, em busca da felicidade perdida, não se deveriam usar termos acidentais: não marido / esposo / amante / comborço / companheiro, mas tão somente os dois nomes essenciais, que dizem tudo: MEU HOMEM, MINHA MULHER.  Não achais que a simplificação poderia resolver tão angustiantes problemas milenares? Vós reclamais que as mulheres perderam, de Eva, a doçura edênica, os trejeitos de gueixa, despiram-se, para sempre, dos seus véus poéticos, que lhes davam ares de pomba, sutilezas de gazelas e levezas de borboletas. Cortaram os cabelos, puseram-se calças compridas, montaram nos automóveis, embrenharam-se na política, na administração e andam agora, por aí, até com feros cartazes, apregoando heresias contra o inimigo macho. Sim. Fizeram isto. Mas, pensais que são felizes assim? Falai com doçura a cada mulher, cuidai que vossas grandes mãos desastradas e afoitas aprendam de novo a lição da carícia, ensinai aos vossos lábios roçares veludosos e não ávidas mordidas, amaciai a voz, abrandai os mandos, sede menos senhores e mais companheiros, tentai ser fiéis (na medida do possível), usai o sexo como ritual maior e não sórdida orgia e vereis o milagre.

Não é pedir muito que experimenteis a receita, que vai repleta de intenções medianeiras e os augúrios mais honestos. Talvez ela vos torne mais brandos, menos brutais. Mas algo é certo: lendo-a como uma oração, talvez possais vencer a mais bela das batalhas, reconquistando ad aeternum, o vosso éden e a companheira vossa.

(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br