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Gustavo Mattos: A música como sentido para a vida

“A minha vida é uma música”.
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 18-08-2019 10:46 | 1373
Gustavo Mattos é músico e um dos fundadores do Coletivo Andrômeda, que tem por objetivo a promoção de saraus
Gustavo Mattos é músico e um dos fundadores do Coletivo Andrômeda, que tem por objetivo a promoção de saraus Foto de Arquivo Pessoal

O jovem músico Gustavo Florêncio de Matos, mais conhecido como Gustavo Mattos, de 20 anos, desde muito pequeno teve presente em sua vida a música. De olhar sereno e uma paz de espírito que envolve as pessoas a sua volta, transformou esta arte em uma ferramenta para tentar tornar o mundo um lugar melhor, e nunca deixou de se preocupar com a propagação de movimentos artísticos em Paraíso. Filho de Roberto Luiz de Matos e Débora Lúcia Florêncio, irmão mais novo da Isabella Cristina, ele nasceu em Paraíso, mas foi criado até os 10 anos em Catalão (GO). De volta a Paraíso, incentivado pela professora de música Vanessa Takahashi começou a trilhar seu caminho na música e hoje trabalha para se firmar nesta área que, segundo conta, é o que dá sentido à sua vida.

Jornal do Sudoeste: Sua infância não foi em Paraíso, como foi isso?
G.F.M.: Eu nasci aqui em Paraíso, mas quando eu tinha um ano nos mudamos para Catalão, em Goiás, onde morei até meus 10 anos. Nesta época, meus pais se separaram e voltamos para Paraíso, porque minha família materna é toda daqui. Minha infância foi praticamente em Goiás, dentro do caminhão, meu pai era caminhoneiro. Não tenho muitas lembranças, e não era uma criança de ficar muito na rua, gostava de ficar mais na minha, mas foi uma fase muito boa em Catalão.

Jornal do Sudoeste: A música surgiu nessa fase?
G.F.M.: Meu pai sempre gostou de tocar violão, já existia isso em casa, mas para mim mesmo começou depois que voltei para Paraíso, e comecei a estudar na Escola Municipal Ibrantina Amaral, onde tive aula de Coral com a Vanessa Takahashi, que é uma pessoa incrível. Ela despertou isso em mim. Mas desde criança a música é presente. Minha irmã também é musicista e também canta, atualmente ela mora em Jardinópolis. Não éramos de nos reunir na sala para assistir a televisão, sentávamos próximos ao rádio para ouvir música.

Jornal do Sudoeste: E como foi esse processo com música?
G.F.M.: Tudo começou com o Coral. Aos 12 anos eu fiz um musical chamado “Galo Socorro”, nos idos de 2011 e 2012, produzido pelo Túlio Costa e Adriano Lima; a Vanessa também atuava, o Lucas Logan, a Fabíola entre outros. Foi a minha primeira experiência de trabalho. Cantei o Hino Nacional em quase todas as escolas e nas praças, a Vanessa me deu essas oportunidades no Ibrantina por eu já ter a facilidade com a música. Depois que saí da Ibrantina deixei um pouco tudo isso de lado, não tinha a pretensão de fazer música e para mim tinha sido apenas uma época.

Jornal do Sudoeste: Quando decidiu retomar a música?
G.F.M.: Foi no Ensino Médio, quando eu comecei a sair mais e passei a conhecer outros músicos e toda essa vida musical como o Rock, por assim dizer, que não era muito o que eu escutava até então. Foi neste momento que retornei à música e não saí mais, nunca pensei em fazer outra coisa. Profissionalmente, ainda estou lidando aos poucos com isso, tanto que não tenho pego muito trabalho porque sou muito pé no chão, então quero que tudo esteja certo para eu começar. Porém, já toquei em barzinhos, eventos, mas nada em grande escala ou de dizer que cheguei a me sustentar com música. É algo que eu gosto de fazer, estou estudando para isso, mas estou indo no meu tempo, não estou, como dizem, colocando o carro na frente dos bois.

Jornal do Sudoeste: E é por isso que você precisa de um trabalho paralelo...
G.F.M.: Sim, foi por causa disso que comecei no Combate a Dengue, para estabilizar minha vida e começar a ter equipamentos, até porque eu tinha a ideia de começar a fazer apresentações em barzinhos, mas estava sem os equipamentos que eu precisava, queria trocar o violão, comprar microfone, e para tudo isso precisamos de dinheiro. Agora é que estou começando a acertar tudo.

Jornal do Sudoeste: Como foi a formação acadêmica?
G.F.M.: Eu estudei na Escola Ibrantina e terminei o Ensino Médio no Clóvis Salgado. Depois, prestei o ENEM e consegui Música na Universidade de Ribeirão Preto. Eu tinha 17 anos nesta época, mas era muito jovem e foi uma fase que comecei a sair, conhecer pessoas, comecei a me conhecer e saber o que eu queria realmente. Na época, havia providenciado toda a documentação que era preciso, mas no último momento decidi não ir, tinha apenas R$ 300 no bolso, iria precisar me mudar para Ribeirão Preto, e minha família não tinha condições de me segurar lá até que eu me estabilizasse em Ribeirão. Então tomei a decisão de não ir. Porém, não me arrependi, porque aqui minha vida começou a fluir dentro da música, passei a conhecer pessoas que me ensinaram tudo.

Jornal do Sudoeste: Como começou o Coletivo Andrômeda?
G.F.M.: Foi uma ideia que o Roni Queiroz teve em promover saraus. Eu já tinha um grupo, o Andrômeda Arte, onde produzíamos camisetas, pintávamos, produzíamos colar de pedras entre outras coisas para tirar uns trocados, na época ninguém tinha um trabalho fixo. Quando o Roni propôs a ideia, nós sentamos e começamos a desenvolvê-la. Pensamos em quem poderia nos ajudar e foram praticamente os membros do Andrômeda Arte, foi onde nós alinhamos as ideias e fundamos o Coletivo Andrômeda, no ano passado, em 2018. Começamos e, basicamente, encerramos naquele ano porque víamos a dificuldade em promover esses saraus, não dava dinheiro e era preciso isso para sobreviver (a situação na minha casa também ficou apertada). Hoje, pretendemos promover outros saraus, mas não com a mesma frequência de antes, que costumava ser todo mês. Nesse meio tempo, promovemos seis saraus, uma festa fechada, colaboramos com outros quatro ou cinco eventos, além de eventos nossos, entre eles o Festival Andrômeda, que foi nosso maior evento de público e apresentações.

Jornal do Sudoeste: Não é fácil trabalhar com isso, não é mesmo?
G.F.M.: É uma correria, temos que conhecer pessoas o tempo todo e que possam viabilizar algumas coisas; se você não conhece, não consegue nada. Não é apenas chegar e dizer “eu faço isso”, porque você não terá credibilidade, a menos que você conheça alguém que comprove sua credibilidade naquilo.

Jornal do Sudoeste: Qual a sua maior dificuldade de trabalhar com música em Paraíso?
G.F.M.: Acredito que, principalmente, para mim que toco música alternativa, são oportunidades. É as pessoas abrirem os olhos e ver o que eu tenho a oferecer. Se você chega em determinado lugar e diz que toca sertanejo e mostra uma ou duas músicas, a pessoa já te abre espaço e te dá um cachê maior. Mas se você chega e toca algo que o dono do estabelecimento não está acostumado isso já causa estranhamento e ele não abre o olho para o que você tem a mostrar. Faltam também opções de lugares para podermos tocar e, na minha concepção, a mentalidade do paraisense ainda está um pouco no passado. Há muita coisa que poderia ser feita para que a cidade se desenvolvesse como Ribeirão Preto, Passos ou Franca. Fui para Franca recentemente e lá há muitos eventos, conheci muitas pessoas ligadas à arte... Aqui você sai e encontra pessoas muito frustradas por falta de reconhecimento. Há 10 anos, por exemplo, havia pelo menos 10 grupos de teatro, e isso reduziu bastante.

Jornal do Sudoeste: Isso é um problema...
G.F.M.: Sim, mas a gente reúne e faz porque gosta. Somos reconhecidos por aqueles que frequentam os saraus. E para a gente o melhor momento e quando estamos ali, promovendo o evento. Não é um trabalho que nos cansa, mas não tem retorno financeiro e não dá para encarar como profissão, é o nosso hobby, por isso fazíamos com certa frequência. No entanto, agora não temos data para um próximo sarau. Quando tudo tiver tranquilo, a gente se reúne novamente e promove outro.

Jornal do Sudoeste: Você acredita que o jovem paraisense está decepcionado com a cidade e que talvez isso o esteja impulsionado a ir embora?
G.F.M.: Acredito que sim. A falta de entretenimento é uma delas, mas há outros fatores como a falta de emprego - e o mercado de trabalho aqui é um tanto quanto complicado. No entanto, com a vinda da UFLA, e essa mudança do “Centro”, acredito que deva movimentar muito o comércio, barzinhos e o mercado imobiliário, então acredito que a cidade deva crescer. Todavia não estou no tempo de esperar isso acontecer, acho que estou novo e esta é a melhor hora. A minha mente está mais preparada para aprender coisas novas. Acredito que aqui já aprendi tudo o que eu tinha para aprender.

Jornal do Sudoeste: O que o inspira a tocar e quais são suas influências?
G.F.M.: Eu tenho muita influência do mundo alternativo do mercado brasileiro atual, mas não o que está nas paradas de sucesso, mas escondido. É o que eu procuro, se aparece uma banda com um nome muito aleatório é o que me faz sentir interesse em conhecer. Uma das bandas que eu escuto se chama “Cadillac Dinossauro”, e são nomes assim que chamam a minha atenção. Há bandas conhecidas como o Radiohead, que é uma banda que eu acho extremamente incrível; tem Pedro Pondé, que também é um dos nomes que está um pouco escondidinho, mas já tem um público legal. Eu escuto muita coisa e, tirando o período que estou trabalhando, escuto música o tempo todo.

Jornal do Sudoeste: Você tem planos para curto ou longo prazo?
G.F.M.: A ideia agora é me desenvolver mais musicalmente, melhorar o que eu já faço e entrar no mercado. Daqui para frente vou esperar o mundo me dizer o que tem para acontecer. Por enquanto vou acertar tudo o que tenho para acertar aqui em Paraíso e me preparar para ir não sei aonde ainda, não tenho um destino.

Jornal do Sudoeste: Qual é o seu maior desafio?
G.F.M.: Eu acho que meu maior impasse é o meu eu. Eu penso muito nas coisas e, qualquer situação na minha vida penso em cada detalhe. Acho que a minha forma de pensar é a minha maior barreira. Sou muito pé no chão e tento me precaver o tempo todo, e acho que as vezes eu tinha só que fechar o olho e ir e ver as consequências. Eu tive uma época assim, mas acho que é por causa desta época que passei a pensar muito. Já fui muito inconse-quente, sofri acidente e, claro, foi uma das melhores épocas da minha vida em que eu só me entreguei. Mas envelhecemos e nossas ideias começam a mudar. O meu maior incentivador sou eu mesmo, mas eu também sou o que mais me segura.

Jornal do Sudoeste: Vivem você, sua mãe e sua sobrinha juntos. Como é essa relação familiar?
G.F.M.: Eu e minha mãe somos muito próximos, tivemos nossas épocas difíceis, mas quem não tem? Essa proximidade é diferente do restante da família, porque a questão de trocar ideias é algo que eu tenho mais com ela. Nós vivemos juntos e ajudamos a criar minha sobrinha. Isto foi uma das coisas que me ajudou a crescer bastante, eu já não era o mais novo da casa e tive que me tornar mais responsável.

Jornal do Sudoeste: O que pensa um rapaz de 20 anos? Você não acha que é muito jovem para tanta responsabilidade?
G.F.M.: Sou um pouco ansioso e quero ver as coisas acontecerem, e para isso eu preciso estar com meus pés no chão e ser responsável. Eu gosto do que estou me tornando, de ser um jovem com a mente mais para frente. Acredito que isto também está relacionado ao fato de ter sido mais quieto na infância, e sempre pensei muito, por exemplo, nas conse-quências das minhas ações, foi assim que minha mãe me criou também, com muita liberdade, mas consciente de que tudo tem consequência. Por não termos tido tantas condições financeiras, se eu via algo que eu gostava, eu precisava me esforçar para conseguir. Minha mãe me deu tudo o que precisei, e já cheguei a agradecê-la por não me mimar e me dar tudo o que eu pedia, porque desta forma passei a correr atrás do que eu desejava. Parece que a vida está se acertando agora, e estou sabendo lidar com meus gastos e, por eu ser um pouco ansioso, quero que minha vida de músico dê certo, e na minha mente eu tenho a percepção de que estou começando tarde e que poderia ter tocado mais em barzinhos. Porém, eu também sei meu tempo, sei que ainda tenho a aprender para eu poder começar a trabalhar com a música.

Jornal do Sudoeste: Você acredita que falta oportunidade para que a arte chegue as pessoas?
G.F.M.: Sim, faltam oportunidades, e não apenas no sentido de ter eventos, mas Escolas de Artes, projetos com crianças. Eu, por exemplo, sei que estou neste mundo porque tive o incentivo da Vanessa, que estava sempre levando a música para as escolas, mas não são todas que têm um Coral ativo como o do Ibrantina Amaral, tanto que eu cantava em todas as escolas na época que estudava lá. Hoje em dia é o Maycon Priorato que está dando aula no Ibrantina, inclusive minha sobrinha é uma de suas alunas. É grande a quantidade de instrumentos e músicas que ele leva para que essa garotada conhecer, e acho que e é isto que falta: começar a trabalhar essa arte com a criança ainda muito pequena para despertar nela esse olhar, às vezes não para levar como profissão, mas a arte ajuda de inúmeras formas.

Jornal do Sudoeste: Qual o papel da música na vida desses jovens? Acredita que todas as escolas deveriam ter essas iniciativas?
G.F.M.: Sim. E não só música, mas também teatro, pintura e outras artes que torne possível outras formas de expressão, e não apenas no conversar ou escrever, mas de outras maneiras. Cada um tem um jeito de colocar o que sente para fora, e isso é muito importante para desenvolver a mente e o que a pessoa quer realmente fazer e não se tornar um profissional frustrado - é o que vemos muito aqui na cidade, pessoas que estacionaram suas vidas.

Jornal do Sudoeste: Parece que a juventude tem se tornado mais conservadora frente a questões políticas?
G.F.M.: Eu tento ser o mais imparcial possível, e sei o quanto a política está em alta na juventude hoje em dia, mas nunca foi a minha luta, a minha sempre foi a arte, pela qual sempre lutei para que as pessoas vejam que é possível ter uma vida boa, ser feliz, estar triste mas consciente disso. Política não é algo que eu estudei muito e não tenho como me colocar no lugar de decidir: será que é esquerda ou direita? Há uma música que eu escuto muito e fala “você é esquerda ou direita? Calma, olha mundo como está. Eu quero mesmo é me equilibrar”. Para mim, o certo seria o centro. O Japão, por exemplo, é assim, mas claro que é um país que tem seus problemas como o suicídio, mas a política funciona: eles conseguem cuidar do social e do capital. Tenho amigos que são de direita, e amigos que são de esquerda, mas quando começam a falar de política eu tento ficar imparcial, porque eu também tenho minha opção, mas não gosto muito de discussão. E isso não é apenas quando se fala em política, mas também religião – e já tive problemas com algumas pessoas por causa disto por eu não ter uma crença fixa, estou conhecendo coisas e estou com a mente aberta para o que pode acontecer. Acho que ser imparcial é importante, pelo menos quando você está lidando com ideias de outras pessoas. É bom ser imparcial também, saber que as pessoas têm uma ideia diferente da sua e saber dialogar.

Jornal do Sudoeste: Você pretende desenvolver algum projeto artístico para curto ou longo prazo?
G.F.M.: Por enquanto estou focado do meu projeto solo, no meu aprendizado e na minha música. Mas até há pouco tempo eu estava na Bacarte ensaiando para uma peça, tem o Coletivo Andrômeda, e logo acredito que façamos algum sarau. Recentemente estive em Franca onde conheci pessoas que tocam muito, e pensei de trazer aquela galera para cá, e de também levar o pessoal daqui para lá, fazer esse intercâmbio cultural. O pessoal da Toca Artística de Franca é muito gente boa: o Mateus Nocera, a Leandra, a Camila. Por enquanto, projeto fixo é o meu solo, mas a arte nunca para. Se aparecer algo que possa ajudar, eu abro um espaço da minha vida para fazer acontecer, tanto que dos eventos que teve da cidade no início do ano passado até agora eu sempre estive envolvido ajudando.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz dessa caminhada até aqui?
G.F.M.: Eu acredito que foram os melhores anos possíveis e, o que eu tenho de respaldo de tudo isso, é que não tem outra coisa que eu faria além de música e arte. A minha vida é uma música. Todas as situações que acontecem eu as relaciono com alguma música. Claro que ainda há muito o que acontecer, estou no comecinho da estrada, mas até agora tudo o que aconteceu não foi nada menos do que arte. Minha vida foi pura arte. Dentro de casa, como meu pai era caminhoneiro e não o via com tanta frequência, minhas lembranças são sempre dele tocando violão, minha mãe cantando o dia todo e minha irmã ouvindo música. Quando voltei para Paraíso comecei a cantar no Coral, então minha vida é arte, é como posso resumi-la.