ELY VIEITEZ LISBOA

Oração aos solitários

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 17-08-2019 22:19 | 646
Foto de Rreprodução

Psiquiatras recebem um número exacerbado de clientes doentes da alma, que sofrem, na realidade, de solidão. A síndrome, modernamente aparece com novos sintomas e nomes: distúrbio bipolar, por exemplo, que é uma forma de transtorno de comportamento caracterizado pela variação extrema de humor, proveniente de causas físicas e psicológicas.

Em uma visão leiga, penso que muitos sofrem é de solidão. O pior é que não se sabe se este infortúnio é algo endógeno ou exógeno, isto é, que se forma no interior dos seres humanos, faz parte de sua essência, ou surge de causas externas, de fora para dentro.

Solidão é o termo genérico de outros sofrimentos. O nome não é importante, porque para entender esse vazio, essa chaga interior, é preciso procurar as causas várias, como grandes decepções, amores frustrados, traições, sonhos rotos, impotência diante das desgraças, tudo que envenena, corrói, mata a vítima dolorosa e tragicamente.

A sabedoria popular afirma que o tempo ameniza, consola e às vezes até cura tais mazelas, contudo elas deixam cicatrizes horrendas, que jamais desaparecem. Fica-se mutilado, cronicamente doente do espírito. Remédios, terapias apenas mascaram a dor, o desencanto, a morte vagarosa e inexorável.

Os espíritos, no entanto, são diferentes. Há os fortes que sobrevivem, sublimam e até conseguem parecer felizes. Os fracos sucumbem, morrem aos poucos, como planta sem água, sem ar. Os crédulos agarram-se em Deus, nos Santos de sua devoção, mas a salvação não vem. O sofrimento faz parte da essência dos mortais, da nossa condição humana.

É bela, todavia, a luta para não soçobrar diante da areia movediça dos fracassos. A oração surge como um cântico e chega-se a sentir uma sensação de refrigério na dura aprendizagem. Viver dói.

Foi após algumas borrascas experimentadas há anos, que escrevi o poema Oração aos Solitários: "Senhor! Veja como vamos sós, pelos caminhos, / pelas ruas, nas casas, nos empregos, nos carros. / A solidão é profunda e amarga, dolorida e falaz. / Vem com as sombras, aumenta na escuridão, / sufoca nas madrugadas / quando a alma parece exilar. / De quem os surdos soluços? / Da alma que se vai / triste melodia do coração que chora? / A vida é tão breve, Senhor, / os homens tão insensatos, tão mal informados. / Os passos se desencontram, / as mãos não se acasalam, / separam-se lábios que nunca se juntaram. / A névoa envolve a cidade. / É a bruma dos sonhos desfeitos, / das desilusões, dos amores prematuramente mortos, mal nascidos? / A solidão machuca Senhor! / É tão amargo, Senhor, / Braços feitos para o nada, mãos que acariciam o vazio, / palavras perdidas de ternura estéril. / A solidão gera angústia, Senhor. / E com ela o estômago preso, / a garganta seca, / o grito estrangulado. / A solidão dói, Senhor! (...)

E vêm as súplicas finais: "Mostre-nos portas e caminhos, Senhor! / Dê-nos alento na procura / não permita que sonhemos / só com o inatingível. (...) A vida é áspera, Senhor! O caminho é duro e árido. E nós, os SOLITÁRIOS, somos tantos"...

O poema segue, até o fim, pedindo por todos que sofrem. É o último grito de quem mergulha no abismo, a tentativa de consolo, a esperança derradeira: "A SOLIDÃO é cruel, Senhor! / Livre-nos dela".

(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br