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Fernando Candiani: mantendo vivo o legado de uma profissão em extinção

Nós somos apaixonados pelo o que fazemos”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 25-08-2019 08:56 | 1619
O ourives Fernando Candiani, a esposa Bianca e os filhos Ana Beatriz e o filho João Fernando
O ourives Fernando Candiani, a esposa Bianca e os filhos Ana Beatriz e o filho João Fernando Foto de Arquivo Pessoal

O ourives e joalheiro, Fernando Soares Candiani, aprendeu desde muito pequeno, ao lado do irmão gêmeo Fábio, a trabalhar no fabrico e conserto de joias, uma arte dominada pelo profissional ourives e que tem caído no ostracismo, tornando-se uma profissão cada vez mais rara. O ofício aprendeu com o pai, sendo ele a 2ª geração de ourives da família. Filho de João Wagner Candiani e Ana Maria Soares Candiani, Fernando é casado com a advogada Bianca Candiani e pai da Ana Beatriz, de 11 anos, e do pequeno João Fernando, de quase seis meses. Apesar das dificuldades e dos riscos da profissão, ele relata que não faria outra coisa da vida e se sente orgulhoso e realizado por tudo o que o ofício lhe proporciona.

Jornal do Sudoeste: Você cresceu aprendendo o ofício com o pai. Como foi isso?
F.S.C.: Fomos criados no São Judas, e começamos a trabalhar com nosso pai quando tínhamos 11 anos, eu e meu irmão, e também nos tornamos ourives e joalheiros. Papai me ensinou tudo o que sei hoje. Até os nossos 16 anos, ele nos ensinou o ofício e, nessa idade, passou para mim e meu irmão a loja para que tomássemos conta. É por isso que hoje a Candiani Joias tem três lojas, duas em Paraíso e uma em Monte Santo de Minas.

Jornal do Sudoeste: E como foi crescer dentro da joalheria?
F.S.C.: Tudo começou por ocasião de um Natal, em que meu pai estava com muito serviço e não tinha muitos funcionários. Esta é uma época em que os funcionários costumam ficar de folga ou tiram férias. Na época, nós começamos a fazer polimento, mas é um serviço muito fácil de aprender e fomos tomando gosto pela profissão. Papai queria que estudássemos, mas não realizamos esse sonho; eu tenho faculdade incompleta, comecei Administração e Direito. Todavia, consegui realizar o sonho de formatura da minha esposa, que agora é advogada. Apesar de não termos estudado como ele queria, tocamos para frente algo que era o sonho dele: a profissão de ourives. Desde os 11 anos não faço outra coisa a não ser fabricar joias, consertar e o que precisar no artigo de joias.

Jornal do Sudoeste: Como foi a essa fase ao lado de um irmão gêmeo. Vocês aprontavam muito?
F.S.C.: Nós somos muito ligados. Eu e ele conversamos por telefone ao longo do dia pelo menos de 10 a 15 vezes. Todos os dias, para abrir e fechar as lojas estamos juntos, só moramos separados. Esta-mos casados há 14 anos; nos casamos no mesmo dia, em uma cerimônia única. Foi algo raro em Paraíso. Aprendemos a profissão juntos, e tudo o que fizemos foi sempre lado a lado, inclusive o casamento.

Jornal do Sudoeste: Como foi aprender a profissão?
F.S.C.: Quando eu comecei, lá nos idos de 1991, o país enfrentava uma turbulência. Não tinha muita procura pelo serviço, a falta de emprego também era um problema – como está sendo hoje. Mas foi uma ascendência, os negócios foram se desenvolvendo e, em 1998, abrimos uma loja em Monte Santo de Minas. Em 2007 abrimos a nossa terceira loja. São pequenas lojas, mas nas três eu e meu irmão fazemos o conserto de joias. O que eu não consigo fabricar, terceirizo, que envolve mais a parte de banho (porque não compensa eu pagar um funcionário para isto, além do que eu não tenho ninguém para ensinar). O jovem hoje não quer aprender. Aqui, por exemplo, não tem ninguém ao meu lado aprendendo a profissão.

Jornal do Sudoeste: É uma profissão em extin-ção?
F.S.C.: Sim. Outro dia o senhor Jorge, meu vizinho, comentou que é uma profissão que vai morrer. Se meu filho, o João Fernando, que agora está pequeno, com cinco meses, não aprender a profissão, acredito que ela vá deixar de existir. O jovem hoje, uma maioria, quer uma profissão onde ele ganhe dinheiro e fique somente no computador, não querem sair para trabalhar, um serviço que é pesado e braçal, apesar de que o serviço do ourives não é pesado. Eu fico quase 100% do meu tempo sentado e uso muito a vista; minha matéria prima é a mão e o olho, se eu não enxergar bem e não tiver um bom tato, não consigo fazer a peça.

Jornal do Sudoeste: Há muito ourives em Paraíso?
F.S.C.: Em Paraíso, além de mim, do meu pai e do meu irmão, há outros três ouvires, entre eles o Toninho Ourives, o José Reinaldo da Styllu’s e o João Arantes, da Casa da Aliança. É uma profissão rara em Paraíso.

Jornal do Sudoeste: Como é esse sentimento de que sua profissão está acabando?
F.S.C.: Eu fico triste, porque é uma profissão que ninguém quer aprender. Você vai ensinar alguém, e aquela pessoa já quer começar ganhando muito, e não é assim que se começa. A nossa profissão não tem um piso salarial fixo, e acho que é isso que incomoda também; uma hora você tem muito serviço, uma hora você não tem nada, é o grande problema do artesão, e o jovem não entende a situação, ele quer um salário fixo, ou seja, choveu ou não ele quer receber aquilo no final do mês. Para se ter uma ideia, hoje a situação ficou tão difícil que as pessoas passaram a adquirir alianças feitas de moedas antigas.

Jornal do Sudoeste: Não se aprende a ser ou-rives em um curso...
F.S.C.: É um ofício que se aprende na prática, até tem alguns cursinhos rápidos, mas é no dia a que a dia que se aprende. Às vezes alguém me pergunta como eu sei identificar se algo é ouro ou não apenas no olho, eu digo que é simples: se você aprende a advogar, por exemplo, e conhece as leis, imagina eu que estou há mais de 20 anos exercendo esta profissão. Então, eu conheço o material só de pegar na mão; claro que existem ácidos para testes, mas são raríssimas as vezes que eu preciso usar, isso porque a experiência é tão grande graças a esse tempo que trabalhamos com joias, que só de segurar já sabemos a autenticidade da peça.

Jornal do Sudoeste: Seu pai ainda pratica o ofício?
F.S.C.:  Hoje ele nos ajuda caso tenhamos uma dúvida ou outra em uma peça. Ele sempre será nosso mentor, e para idealizar uma ferramenta não existe pessoa melhor, ele é fantástico. Todavia, não trabalha de forma fixa, apesar de ainda gostar de fazer suas peças. Eu e meu irmão somos a segunda geração de ourives, ele aprendeu o ofício com 11 anos, quando foi morar em Campinas, onde conheceu um profissional do ramo; meu avô era carpinteiro e não tinha nenhuma relação com esta profissão. Papai conta que sempre foi muito curioso, lá era entrega-dor de lavanderia e por meio deste emprego conheceu o senhor Alberto Bassani, que foi quem ensinou tudo a ele. Esse senhor, quando viu meu pai, que era muito falante, precisava de ajuda e o chamou para trabalhar, pagava o dobro que ele ganhava como entregador. É graças a esse senhor que meu pai tem tudo o que tem hoje.

Jornal do Sudoeste: Você é apaixonado por isso?
F.S.C.:  Sim, nós somos apaixonados pelo que fazemos. Se fossemos visar apenas dinheiro, seria melhor trabalhar com outra coisa. Hoje, para o que ganha um ourives, a pessoa que se torna um bom vendedor – um vendedor de loja, por exemplo – , certamente ganhará mais que a gente e construir um patrimônio até maior, porque eles têm um salário fixo.

Jornal do Sudoeste: O paraisense valoriza o trabalho do ourives?
F.S.C.:  Acredito que não. Nós, ourives, temos nosso valor e há pessoas que nos valorizam muito, mas outros que acham caro demais. Se pedirmos o que o trabalho realmente vale, o cliente sempre vai achar caro. Um ourives é igual um pintor: é um trabalho difícil de ser feito, e não é valorizado; da mesma forma é o conserto, a pessoa só procura para consertar uma peça se for uma joia de muita autoestima e de família. Nesse mundo de hoje, onde tudo é descartável, a tendência é fazer menos conserto. Hoje vendemos brincos de R$ 10, e como que você vai concertar um brinco desse valor? Mais barato comprar outro. Então, estamos chegando nesse modismo de não consertar; hoje a pessoa conserta o que é ouro, às vezes prata, e raríssimo as peças folhadas, e que são as mais vendidas.

Jornal do Sudoeste: Vocês são bem conhecidos e reconhecidos pelo sobrenome. Como é es-se sentimento?
F.S.C.:  Eu me sinto muito orgulhoso, porque foi o sobrenome que meu pai deu para nós. Ele sempre nos disse, “não vou deixar dinheiro nenhum para vocês, mas vou deixar um nome”. Nós prezamos por esse nome e pela confiança que ele transmite. Quando chega alguém a nós e deixa uma joia que foi da avó, por exemplo, é confiando que cuidaremos bem dela – e cuidamos. Esse sentimento de gratidão que nós temos pela confiança no nome que papai nos deu e o cliente valoriza, nós valorizamos mais que o próprio dinheiro. O cliente confia em nós, e quando nos procura diz que “só deixa nas nossas mãos”. Tanto que temos clientes paraisenses que moram em outros lugares do país e que quando precisam consertar uma peça, vêm a Paraíso trazer para que nós realizamos o trabalho. É uma relação de confiança. Papai sempre nos pautou por isso: o que é do cliente é do cliente, o que é nosso é nosso; cobre o seu preço, se ele não quiser pagar, que faça com outro, mas não faça um serviço mal feito porque fulano ou ciclano cobrou mais barato. Isso não fazemos.

Jornal do Sudoeste: Como tem sido diante desse momento de dificuldade no país?
F.S.C.:  O movimento está franco há pelo menos três anos, o movimento caiu muito, mas isso no país todo. Aqui, eu estimo que todo o nosso faturamento deve ter caído em torno de uns 40%. Só não estamos com lojas fechadas porque dilapidamos o nosso próprio patrimônio, vendendo o que é possível para injetar na loja, pagar aluguel, por exemplo, que é muito caro, além de energia elétrica, água, impostos. Estamos vivendo uma crise e tem dias que eu conto o número de pessoas que entram aqui. Isso é geral, não tem emprego para as pessoas, e muito menos dinheiro para elas consumirem. Mas se Deus quiser, é uma fase que irá passar. Felizmente, se não fosse o nosso nome, a confiança que existe para fazermos empréstimo, por exemplo, já teríamos fechado. O nosso ramo é muito difícil, porque é algo que as pessoas podem cortar em momentos de crise. Somente a nata da sociedade usa joia, de ouro então não é nem 2% da população. Além disso, o ouro, por exemplo, acompanha a cotação da bolsa de valores, então não existe um preço fixo e o cliente não entende que o preço hoje pode ser um e amanhã outro. Eu nunca vi o valor do ouro cair, pelo contrário. Não é à-toa que ele é usado para lastro em banco ou em qualquer Casa da Moeda.

Jornal do Sudoeste: Vocês lidam com produtos muito valiosos. Já passaram por algum tipo de risco?
F.S.C.:  Sim. Já fomos assaltados oito vezes e hoje, em todas as lojas, nós trabalhamos armados, temos porte para isso. Tivemos que tomar essa atitude porque já estava insustentável tantos roubos. É um sentimento de insegurança que sempre vamos ter. Ninguém se preocupa com o patrimônio do outro. A polícia, por exemplo, é responsável por cuidar do patrimônio público, não o seu. Já fomos roubados diversas vezes, e não vemos ninguém ser preso, ninguém ser acusado, e fica por isso mesmo. Em todos os assaltos houve risco, tanto para nós quanto para família; meus pais chegaram a ser espancados por criminosos. Graças a Deus, as crianças não sofreram nada, a não ser meu sobrinho, que viu a avó apanhar muito. O bandido tem a ilusão de que o comerciante que trabalha com joia tem barras e barras de ouro guardadas em casa, o que não é verdade; se eu realmente tivesse, não precisaria trabalhar, viveria dos juros desse ouro.

Jornal do Sudoeste: Você tem expectativas positivas para o futuro?
F.S.C.:  Tenho, sim. Eu sou realmente um apostador no que eu faço, peço ajuda de Deus e proteção todos os dias para vir para meu trabalho, peço para que nosso país volte a funcionar (nós somos um engrenagem, se eu não vender, eu não compro e assim por diante), assim que o país voltar nos eixos, que tiver emprego para todos, que o dinheiro começar a rodar, tudo irá melhorar.

Jornal do Sudoeste: A família está toda aqui, trabalhando, como é isso?
F.S.C.:  Sim, estamos todos aqui unidos: a Ana Beatriz, que já tem 11 anos, o João Fernan-do, que está de cinco para seis meses, e a minha esposa Bianca. É uma maneira de economizarmos e enfrentar esse momento de dificuldade. Hoje, o custo de funcionário é muito caro, mesmo sendo pouco para quem recebe, para o patrão é o dobro devido a impostos; optamos por dispensar os funcionários que tínhamos, para não ter que fechar a loja, e então a família toda vem para ajudar.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz dessa caminhada até aqui?
F.S.C.: Acredito que tudo valeu a pena. Mesmo com as diversas crises que enfrentamos, todos os altos e baixos que enfrentamos – uma hora temos muito serviço, outra hora não – eu só trocaria minha profissão o dia que não tiver mais serviço e não desse mais para viver disso. É um balanço muito positivo.