ELY VIEITEZ LISBOA

O poder das palavras

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 31-08-2019 16:24 | 620
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A palavra é uma arma poderosa. Lembro-me de um texto de autor famoso. O menino entra, desesperado, gritando para a mãe: Minha tartaruguinha morreu! Vou morrer também!  Agarra-se à mãe, chorando inconsolável. A mãe chama o pai. Ele põe o filho no colo e pergunta a causa do desespero. O menino explica, infeliz entre lágrimas. O pai diz: E se fizermos um funeral? O garoto arregala os olhos e pergunta interessado, o que é um funeral? O pai: É uma despedida para a tartaruguinha. Você a coloca sobre a mesa, convida seus amigos, sua mãe fará bolos e doces, compraremos refrigerantes... Os olhos do menino brilharam. Eis que entra a mãe com a tartaruguinha na mão, gritando feliz: Veja, filho, ela não morreu! E o menino, com resposta pronta: Não faz mal. A gente mata ela...

Recordando o texto, veio-me à memória o conto Famigerado, de Guimarães Rosa, publicado em Primeiras Estórias (1962). É também sobre o poder da palavra. O narrador, como Guimarães Rosa, é um médico do interior. Eis que um dia vem falar com ele um bizarro visitante, Chefe Damazio, armado até os dentes, homem com "dezenas de carregadas mortes", perigosíssimo. O bandido, acompanhado de três comparsas mal encarados, pergunta ao médico: "Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada: O que é fasmisgerado... faz-megerado... falmisgerado... familias gerado?" Alguém o chamou assim e ele, desconhecendo o termo, queria saber o significado. Perguntar ao Padre, ele não quer, "porque ele engambe-la". Acrescenta: "Vosmecê  fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado"...O médico sabe do perigo  de dar tal significado, provocando a ira do bandido. Narrando, ele confessa: "O medo me miava", "Habitei preâmbulos"... "O homem queria estrito o caroço, o verivérbio"... Diz então cauteloso que há expressões neutras, de outros usos... Mas o jagunço insiste: "Pois o que é, em fala de pobre, linguagem em dia-de-semana?". Resposta: "Famigerado é importante, que merece louvor, respeito"...O bandido desanuviou: "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?". O doutor esperto diz que sim e acrescenta: "O que queria uma hora destas era ser famigerado_bem famigerado, o mais que pudesse!". Damazio se foi exultante. Nosso doutor estava salvo.

Encanta-me a criatividade e inteligência do Mago de Cordisburgo.  Guimarães Rosa, grande poliglota; ele criou uma linguagem nova, alicerçada em mais de sete línguas, usando a grande arma da Etimologia, inventando deliciosos neologismos, tudo muito temperado com a oralidade da língua popular. Qualquer leitor entenderá sua obra, porque as narrativas parecem um "proseio", "causos".

Esse conto, Famigerado, é uma obra-prima para exemplificar essa tese. Alguns críticos desavisados afirmam que nesse conto, o médico mente para salvar sua vida. Não. Isso é parte da verdade. Mas, como é essa "mentira"?  Vejamos. No Houaiss, o verbete "famigerado" significa quem tem muita fama, célebre, notável, famígero. Ele só não explicou ao facínora, que o adjetivo vem do latim e que o povo, muitas vezes, muda o sentido primeiro do vocábulo e prevaleceu o pejorativo: malfeitor, bandido, mau caráter. Guimarães Rosa dá, no conto, uma aula de criatividade e de erudição. Veja exemplos de como o povo muda o sentido das palavras. "Formidável" significava imenso, aterrorizante, que dá medo. As palavras caem em desuso, ou morrem. Quem xingaria alguém, hoje de biltre, energúmeno, pascácio, ou usaria a interjeição cáspite!

O leitor queria que o narrador desse uma aula de Linguística, ou de Semântica, a Damazio?

(*) Ely Vieitez é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br